The Swiss voice in the world since 1935
Principais artigos
Democracia suíça
Newsletter

Trocar Google e Apple revela custo da independência digital

Vai
Os jornalistas da Swissinfo, Kristian Brandt e Sara Ibrahim, tentaram afastar-se das grandes empresas tecnológicas no seu dia-a-dia. Vera Leysinger / SWI swissinfo.ch

Do Gmail ao iPhone, dois jornalistas suíços tentaram abandonar as big techs para testar a “soberania digital”. O resultado: apps quebrados, pagamentos bloqueados e a percepção de que a Suíça depende muito mais do Vale do Silício do que imagina.

Às 6h30 da manhã, o alarme do meu iPhone tocou. Antes das 7h, eu já tinha usado pelo menos mais cinco tecnologias estadunidenses: WhatsApp (Meta); LinkedIn (Microsoft); Gmail (Alphabet); Teams e Outlook (Microsoft). E nem sequer havia lavado meu rosto.

A maior parte da minha vida digital – desde as fotos dos primeiros dias de vida da minha filha até minhas senhas e meus documentos pessoais – está armazenada em algum lugar na infraestrutura de nuvem das big techs. Quase todas as minhas interações com o mundo exterior, sejam elas privadas ou profissionais, passam por um punhado de empresas estadunidenses.

Quanto mais eu relato sobre a busca da Suíça por “soberania digital” – a ideia de que as tecnologias e os dados essenciais deveriam permanecer sob controle local –, mais me pergunto como isso ocorreria na prática, no nível pessoal. Será que eu poderia me tornar independente das big techs? E será que um país inteiro consegue fazer isso?

Meu colega Kristian vinha se perguntando a mesma coisa. No início deste ano, ele decidiu cortar os laços com as grandes empresas de tecnologia, e eu me juntei a ele nessa jornada rumo à independência digital.

Começamos pelo básico: nossos computadores, e-mail, telefones, serviços em nuvem e ferramentas de IA. Imaginávamos que o processo envolveria algumas trocas simples – desativar um serviço e ativar outro.

A sensação foi mais de arrancar raízes de um solo seco: possível, sim, mas lento e complicado. Em pouco tempo, estávamos vivendo em uma espécie de mundo paralelo, onde os pagamentos por celular deixaram de funcionar, as ferramentas de trabalho travaram e nos vimos sem acesso a serviços que vínhamos usando durante praticamente toda a vida.

Nesta série composta por várias partes, os jornalistas da Swissinfo Kristian Foss e Sara Ibrahim tentam substituir, em seu dia a dia e na vida profissional, as principais tecnologias das big techs dos EUA — incluindo Windows, Android, serviços Google, plataformas em nuvem e ferramentas de IA — por alternativas suíças ou europeias, sempre que possível.

O objetivo é verificar se a soberania digital é viável no âmbito individual e o que isso revela sobre o alcance da dependência tecnológica suíça. E sobre a possibilidade de reduzi-la.

Presos no ecossistema

Aprendemos que o problema não é um único aplicativo ou uma única plataforma. É o ecossistema que as big techs construíram em torno de nossas vidas digitais. Fugir disso exige tempo, dinheiro e energia.

A Suíça abriga um grande número de empresas de tecnologia focadas na privacidade, que oferecem alternativas além das gigantes do setor. Entre elas estão o provedor de e-mail Proton, o provedor de armazenamento em nuvem Tresorit e o aplicativo de mensagens Threema. Ou seja, tínhamos opções.

Quando Kristian começou a substituir os serviços convencionais por alternativas, percebeu que muitas portas se fecharam subitamente. Como milhões de pessoas, ele vinha usando o Gmail há anos sem pensar muito a respeito. O serviço de e-mail era confiável, simples e conectado a quase tudo. Mudar de provedor não significava apenas trocar de caixa de entrada, mas desemaranhar anos de contas, logins e serviços criados em torno dos produtos da Google.

“O Gmail tinha deixado de ser uma conta de e-mail para se tornar uma espécie de molho de chaves, que eu carregava sem perceber”, diz Kristian. “Uma para o banco, uma para o transporte público, uma para o plano de saúde, uma para quase tudo o mais”, completa.

A Proton argumenta que o e-mail se torna muitas vezes a porta de entrada para uma dependência tecnológica muito mais ampla. Quando os usuários escolhem um provedor, outros serviços tendem a surgir, como aplicativos de gerenciamento de documentos e senhas, armazenamento de fotos, calendário e mensagens.

“Nosso verdadeiro concorrente não é apenas o Gmail”, declara Raphael Auphan, diretor de operações da Proton, à Swissinfo. “Nossos concorrentes são o Google Workspace e o Microsoft 365”, explica.

Ao tentar deixar de usar os produtos da Apple e da Google, eu me deparei com o mesmo problema.

Trocar meu iPhone 16 da Apple, que estava praticamente novo, significou comprar um Fairphone 5, considerado uma alternativa europeia mais ética, devido à sua durabilidade e aos materiais de origem mais responsável. Depois veio o trabalho complicado de instalar /e/OS, um sistema operacional móvel de código aberto que ainda é baseado no Android (de propriedade da Google), mas sem a maioria dos serviços Google.

A experiência como usuário foi mais tranquila do que eu esperava, mas logo descobri o que significa sair de um ecossistema de smartphones dominado por alguns poucos fabricantes globais.

Conteúdo externo

Sem os serviços da Google e da Apple, eu não conseguia mais pagar com facilidade pelo celular, contar com os aplicativos integrados de senhas e calendário, nem mesmo acessar alguns apps de trabalho. A autenticação de dois fatores, usada para proteger o acesso a muitos serviços, ficou mais difícil de gerenciar, e tive que recorrer a códigos de verificação por SMS em vez das chaves de acesso, que são mais seguras.

“Não mude para o código aberto se sua única motivação for economizar dinheiro sem mudar nada mais. Você vai se decepcionar”, alerta Jonas Sulzer, estudante de Ciência da Computação no Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne (EPFL) e copresidente da Integridade Digital da Suíça, um novo partido contra a vigilância tecnológica. E ele estava certo.

Dependência invisível

Nossa experiência pessoal revelou rapidamente que a dependência da Suíça em relação à tecnologia estrangeira vai além dos celulares individuais. Trata-se de uma questão sistêmica, econômica e política.

Os provedores estadunidenses são responsáveis por 78%Link externo dos serviços em nuvem utilizados na Suíça. Até 80%Link externo das empresas suíças de capital aberto em setores críticos, tais como energia, saúde e serviços públicos, dependem de tecnologia dos EUA – o reflexo de uma tendência mais ampla em toda a Europa.

Conteúdo externo

As autoridades federais e cantonais suíças gastam milhões com a migração para infraestruturas em nuvem pertencentes principalmente a empresas chinesas e estadunidenses, como Alibaba, Microsoft e Amazon. Serviços essenciais, incluindo alfândega, saúde e setores da administração pública, já operam em servidores em nuvem das big techs, segundoLink externo a revista suíça Republik.

Os esforços para reduzir essa dependência estão se intensificando. Em 2024, o Parlamento aprovou um investimento de quase 250 milhões de francos em um projeto que inclui o desenvolvimento de uma infraestrutura de nuvem soberanaLink externo para a administração federal até 2032. Em dezembro de 2025, também foi decidido que as Forças Armadas suíças destinariamLink externo 10 milhões de francos a alternativas de código aberto ao Microsoft Office 365.

“As Forças Armadas precisam ajudar as autoridades civis a elaborar uma estratégia de desvinculamento da Microsoft”, afirma Gerhard Andrey, deputado do Partido Verde e uma das principais vozes no debate sobre digitalização na Suíça.

Mostrar mais

O governo federal começou recentemente a testar soluçõesLink externo de código aberto, como o openDesk e o Linux, com resultados animadores, apesar da resistência internaLink externo e das dúvidas quanto à sua maturidade e estabilidade.

Comparada a seus vizinhos, a Suíça ainda adota, contudo, uma postura cautelosa. A França já instruiuLink externo vários de seus ministérios a planejar uma redução da dependência de tecnologias não europeias, enquanto o estado alemão de Schleswig-Holstein migrou grande parte de sua administração para um software de código aberto.

Macron e Merz
O chanceler alemão Friedrich Merz (ao centro) e o presidente francês Emmanuel Macron (à direita) estão a unir forças para promover uma maior soberania digital europeia e reduzir a dependência dos gigantes tecnológicos norte-americanos. John Macdougall / AFP

Por que é tão difícil abandonar as big techs?

É possível reduzir a dependência das big techs, embora esse não seja um processo simples.

Quando ecossistemas como o Microsoft 365 se tornam profundamente integrados aos fluxos de trabalho e aos hábitos da população – com e-mail, armazenamento em nuvem, software de escritório e logins vinculados à mesma plataforma – abandoná-los requer migrações dispendiosas e grandes mudanças organizacionais.

Essa dinâmica é conhecida como “vendor lock-in” – ou dependência de fornecedor. Quanto mais organizações dependem de um único ecossistema, mais difícil se torna abandoná-lo, mesmo quando existem alternativas. “Dependendo da organização, desvincular das big techs pode levar de dois a sete anos”, afirma Pascal Stöckli, cofundador da Netzwerk SDS, uma iniciativa suíça que promove soluções de soberania digital.

A mesma lógica se aplica aos indivíduos. Embora a escolha inicial de um iPhone ou de um dispositivo Android, ou de um notebook Mac ou Windows, seja muitas vezes deliberada, os usuários acabam sendo absorvidos por um ecossistema mais amplo à medida que os serviços funcionam em perfeita integração, e mudar para outro se torna cada vez mais difícil.

Liberdade e fricção

Embora muitas vezes tivéssemos sentido frustração quando tentamos nos afastar das plataformas das big techs, em alguns momentos a experiência foi libertadora.

Passamos a ter mais consciência de como grande parte do nosso comportamento digital havia sido moldado não por escolhas deliberadas, mas por conveniência, configurações pré-definidas e dependências invisíveis. Ou seja, começamos a enxergar os serviços “gratuitos” de forma diferente.

De acordo com uma pesquisa da Proton, os dados do usuário estadunidense médio geram aproximadamente 1.605 dólares por ano para a Google – mais de 16.000 mil dólares ao longo de uma década.

A experiência não nos libertou das big techs da noite para o dia (em muitos aspectos, a independência total para indivíduos e nações ainda parece irrealista), mas ela revelou o quanto a vida moderna na Suíça depende de tecnologias desenvolvidas, operadas e, em última instância, controladas em outros lugares.

Lukas Kahwe Smith, especialista em tecnologia de código aberto da Universidade de Ciências Aplicadas de Berna, acredita que a transição para se desvincular das big techs só vai funcionar se muita gente aderir à mudança. Kristian percebeu isso quando trocou o WhatsApp pelo Threema, mas descobriu que só tinha um contato para conversar por mensagens. “Se você for o primeiro, vai ser mais difícil, mas, quanto mais gente mudar, menos difícil será”, diz Kahwe Smith.

Compartilharemos mais sobre nossas experiências de afastamento das big techs nos próximos textos desta série. Assine a newsletter de ciência da Swissinfo para receber tudo por e-mail.  

Edição: Gabe Bullard/VdV

Adaptação: Soraia Vilela

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR