Lago Brenets, entre a França e a Suíça, seca, vítima do calor
“Um desespero absoluto”, “é insuportável”. Os moradores do entorno do pitoresco lago Brenets, situado entre a França e a Suíça, pedem ajuda para salvá-lo após um verão de calor sem precedentes que o secou.
As palavras “HELP” (ajuda, em inglês) e “SOS” mal se veem por causa da vegetação rasteira que cresce no leito do lago. A seca arruinou o turismo náutico de lazer. Alguns chegam a se perguntar se o lago algum dia voltará a se recuperar.
“É absolutamente dilacerante. É realmente devastador emocionalmente, porque é um desespero absoluto: não existe mais lago”, afirmou o historiador amador David Favre, que mora na cidade suíça de Les Brenets.
“Quando éramos crianças, costumávamos passar todos os verões nadando na praia, nos divertindo à beira d’água, mergulhando, pulando na água e, às vezes, até pescando”, contou à AFP o homem de 76 anos.
Mas “desde a última seca de 2018, tem sido um desastre. Infelizmente, o lago esvazia a cada dois anos ou, em breve, talvez todo ano”, acrescentou o homem, que sente que as autoridades “abandonaram completamente” o lago.
O rio Doubs nasce nas montanhas do Jura francês e normalmente forma um lago em Les Brenets. Ele deságua em uma cachoeira de 27 metros de altura, que agora parou de correr.
O lago secou devido a uma combinação de fatores, como fissuras geológicas que drenam a água para o subsolo, chuvas abaixo da média e ondas de calor recorrentes.
Os meses de junho, julho e agosto foram, cada um, os mais quentes já registrados na Suíça desde o início das medições, em 1864.
– “É insuportável” –
Todos os dias, Yvan Durig, proprietário e capitão da empresa de navegação do Lago Brenets, mede o nível da água que ainda resta na bacia, que continua baixando na parte mais profunda do lago.
“Normalmente, aqui há entre 25 e 30 metros de profundidade”, mas agora só restam nove metros de água, e neles “os peixes estão muito espremidos”, afirmou.
O mínimo histórico de 1906 está prestes a ser superado. Em 2022, as autoridades francesas e suíças criaram um grupo de trabalho para estudar como seria possível limitar a água que se infiltra pelas fissuras, mas o resultado não foi conclusivo.
“Precisamos suspender as operações dos barcos em 20 de julho”, afirmou Durig. “Imagine só: ter de parar assim, em plena temporada. É insuportável para uma empresa como a nossa”, disse.
“Normalmente, nesta época transportamos entre 200 e 300 pessoas por dia”, explicou Durig. Os píeres e dezenas de embarcações estão encalhados no leito seco do lago.
– A alma de Les Brenets –
A estação de monitoramento do nível de água do lago agora está tão distante da bacia que Durig faz a medição manualmente.
O nível da água cai entre 20 e 22 centímetros por dia. Em 1º de outubro, desceu até 735,34 metros acima do nível do mar, ou seja, 14,66 metros abaixo de onde deveria estar. E, se continuar assim, em poucos dias baterá o recorde de queda de 15,35 metros registrado em 1906. Agora, um pequeno riacho corre em meio à vegetação rasteira que tomou o leito do lago.
Maxime Fallet, que trabalha em uma empresa de excursões de barco pelo rio Doubs, teme que o lago esteja “destinado a desaparecer”, diante da falta de um plano para salvá-lo.
“O clima que se sente hoje em Les Brenets, quando se fala do Doubs, é marcado por certa tristeza, por uma melancolia diante da ideia de que poderíamos perder este lago, um lago que fez parte da alma de Les Brenets durante gerações”, declarou à AFP.
Durig acredita que o tempo está se esgotando: “Precisamos agir, ser proativos e vedar o leito do lago”.
“Isso não pode levar anos”, concluiu.
elm/rjm-ag/erl/mas/mvv