Marine Le Pen, a ave fênix da extrema direita francesa
Marine Le Pen conseguiu consolidar a extrema direita como um ator incontornável da política francesa, ao suavizar sua imagem sem renunciar ao seu programa, uma estratégia que agora poderá retomar para travar, em 2027, o “combate da [sua] vida”: a Presidência da França.
A política, de 57 anos, recuperou nesta terça-feira o direito de concorrer à eleição presidencial, após uma decisão do Tribunal de Apelação de Paris que, embora mantenha sua condenação por desvio de recursos públicos europeus, reduz o período de inelegibilidade.
E, apesar de sua campanha eleitoral ser prejudicada pela condenação a um ano de prisão, que poderá cumprir em casa com tornozeleira eletrônica, ela confirmou sua candidatura poucas horas depois, ao anunciar um recurso que, em sua opinião, suspenderia a aplicação da pena.
“Tenho a pele um pouco grossa. Se alguém tentar me matar, é melhor que tenha uma lâmina bem afiada. Acho que tenho certa resiliência”, advertiu na semana passada, quando se declarou disposta a continuar travando o “combate da [sua] vida”.
Le Pen parece ter tudo a seu favor para conquistar as chaves do Palácio do Eliseu no próximo ano. O presidente de centro-direita Emmanuel Macron, que a derrotou em 2017 e 2022, já não pode concorrer novamente, e as pesquisas a colocam em posição de força.
– História familiar –
Sua vida de combate começou na infância, como filha do histórico líder da extrema direita e fundador, em 1972, da Frente Nacional (FN), Jean-Marie Le Pen. Quando tinha oito anos, a residência da família, em Paris, foi alvo de um atentado que jamais foi reivindicado.
“Eu estava na minha cama quando uma bomba explodiu e destruiu completamente o prédio onde estávamos dormindo. O medo desapareceu a partir desse momento”, confessou em dezembro de 2025 à emissora BMFTV.
Seus primeiros passos na política estiveram ligados ao pai, a quem apoiou quando, no fim da década de 1980, sua mãe, Pierrette Lalanne, o abandonou de forma abrupta, antes de posar nua para a revista Playboy.
Em 2011, a política assumiu a liderança da FN e começou, de forma metódica, a limpar a imagem racista, homofóbica e antissemita associada ao partido e a seu pai, a quem expulsou em 2015, uma decisão que “nunca” será perdoada, afirmou após a morte dele, em 2025.
– Mercados, tratores e gatos –
Nascida em 5 de agosto de 1968, em Neuilly-sur-Seine, uma cidade de alto padrão localizada a oeste de Paris, ela construiu uma imagem popular, com visitas a mercados, passeios de trator e entrevistas mais íntimas, nas quais também se apresenta como criadora de gatos.
Ao mesmo tempo, viu suas ideias contrárias aos imigrantes ganharem espaço em uma França cada vez mais inclinada à direita, mas também em um mundo no qual os movimentos populistas avançavam, como na Itália, no Brasil e nos Estados Unidos.
Advogada, de inconfundível cabelo loiro e olhos claros, construiu sua ascensão política ao somar as preocupações dos franceses com segurança e poder de compra ao tradicional discurso antimigrantes de seu partido, rebatizado em 2018 como Reagrupamento Nacional (RN).
Le Pen escolheu como reduto a cidade de Hénin-Beaumont, na outrora próspera região mineradora do norte da França, de onde se apresentou como uma “mãe de família” — tem três filhos e é divorciada duas vezes — disposta a defender os franceses mais “vulneráveis”.
– Dupla “complementar” –
Ao mesmo tempo, defendia reservar os benefícios sociais aos franceses e acabar com a reunificação familiar dos imigrantes, além de combater a “ideologia islamista” e proibir o uso do véu em espaços públicos.
No cenário internacional, a invasão russa da Ucrânia, em 2022, a afastou do presidente russo, Vladimir Putin, e ela foi gradualmente deixando para trás as propostas mais polêmicas de seu partido, como a saída da França da zona do euro.
Como consagração definitiva desse processo de normalização, Serge e Beate Klarsfeld, famosos caçadores de nazistas, consideraram em 2024 que o RN evoluiu “positivamente” em relação aos “judeus” e que, na opinião deles, passou a ser um partido aceitável.
Le Pen poderá, enfim, ser quem colherá os frutos dessa estratégia como candidata presidencial do RN, em vez de Jordan Bardella, seu protegido de 30 anos. Ainda assim, anunciou que os dois farão campanha juntos, formando um “binômio complementar, equilibrado, coerente e sólido”.
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