Onda progressista surpreende democratas antes das eleições de meio de mandato nos EUA
A esquerda antissistema do Partido Democrata conquistou uma série de vitórias nas eleições primárias dos Estados Unidos, em um movimento que representa um duro golpe para a liderança tradicional do partido a poucos meses das eleições legislativas de meio de mandato.
A democrata socialista Melat Kiros, uma ex-advogada de 29 anos, surpreendeu na terça-feira (30) ao derrotar a veterana parlamentar Diana DeGette em um distrito da Câmara dos Representantes em Denver, no estado do Colorado.
A vitória ocorreu uma semana depois de candidatos de esquerda apoiados pelos democratas socialistas conquistarem vitórias na cidade de Nova York, inclusive contra membros em exercício do Congresso.
Os resultados podem estar sendo impulsionados pelo estagnamento geracional do partido e por uma estrutura política que muitos eleitores jovens acreditam ter fracassado na tarefa de enfrentar o presidente republicano Donald Trump.
Para o senador Bernie Sanders, referência histórica da esquerda americana, o resultado no Colorado evidenciou um movimento político mais amplo contra o sistema estabelecido.
– “Cansados” do status quo –
“A maré está mudando”, escreveu Sanders na rede social X, parabenizando Kiros por sua “extraordinária vitória” sobre uma parlamentar que ocupava o cargo havia 30 anos.
“Os americanos estão cansados da política do status quo. Eles querem representantes no Congresso que enfrentem a oligarquia e lutem pelas famílias trabalhadoras.”
Trump está aproveitando o crescimento da esquerda às vésperas das eleições legislativas de novembro para afirmar que os “comunistas” estão à solta e representam a maior “ameaça” da história do país.
“Eles usam as palavras ‘Democratas Socialistas’ porque soam agradáveis, mas, na realidade, o que estão defendendo é o comunismo”, disse Trump aos jornalistas na Casa Branca nesta semana.
A vitória de Kiros foi particularmente marcante porque DeGette nem sequer se apresentava como uma democrata de centro. Ela é integrante do Caucus Progressista do Congresso e contava com o apoio de importantes parlamentares de esquerda.
Kiros, ativista pró-Palestina, crítica de Israel e filha de imigrantes etíopes, ainda assim atacou DeGette pela esquerda. Ela argumentou que os eleitores precisavam de uma representante mais jovem, com uma compreensão mais direta dos altos preços dos aluguéis, dos baixos salários e da influência das empresas na política.
– “É uma questão geracional” –
Mas a noite de eleições primárias no Colorado não girou apenas em torno do socialismo.
O procurador-geral do estado, Phil Weiser, que não é democrata socialista, derrotou o senador Michael Bennet nas primárias para governador. Weiser apresentou-se como um combatente contra Trump e retratou seu adversário, muito mais experiente, como um privilegiado de Washington.
Kurt Bardella, ex-assessor republicano no Congresso e atualmente estrategista do Partido Democrata, alertou para o risco de interpretar os resultados simplesmente como uma revolta da esquerda contra o centro.
“Não se trata de ‘socialismo’; trata-se do sistema”, escreveu Bardella no X. “Trata-se do ‘velho’ contra o ‘novo’. É uma questão geracional.”
Esse sentimento também ficou evidente no competitivo 8º Distrito do Colorado, onde o deputado estadual progressista Manny Rutinel derrotou um adversário mais moderado para conquistar a indicação democrata e enfrentar o deputado republicano Gabe Evans.
Os democratas precisam conquistar apenas alguns assentos para recuperar o controle da Câmara dos Representantes, o que torna qualquer disputa sobre a imagem do partido especialmente delicada.
Seus líderes têm procurado evitar que o conflito se intensifique publicamente, apresentando o avanço da esquerda como um fenômeno localizado. No entanto, as eleições primárias tornaram essa tarefa mais difícil.
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