Cooperação suíça se retira da América Latina

Em um dos seus programas, a DEZA (Agência Suíça para Desenvolvimento e Cooperação, na sigla em alemão) distribui leite em pó importado de excedentes da Suíça para crianças em Lima, Peru, em 2002. Keystone / Yoshiko Kusano

A Suíça encerra projetos de ajuda ao desenvolvimento em vários países, incluíndo na América Latina, para concentrar os esforços em regiões estratégicas. O que a decisão significa para os projetos já em andamento?

Este conteúdo foi publicado em 22. setembro 2020 - 10:00

No Haiti, cooperantes suíços ajudam seis comunidades a ter acesso a água potável e instalações sanitárias. A Suíça também ajuda organizações de pequenos produtores a encontrar formas de resistir às importações subsidiadas de países como os EUA.

Porém esses e outros projetos estão com data para terminar: o ministério suíço das Relações Exteriores (EDA, na sigla em alemão) anunciou o fechamento dos projetos realizados pela cooperação suíça na América Latina. Os fundos liberados serão agora direcionados a países no Norte da África, Oriente Médio e África Subsaariana.

A razão para a mudança: o Conselho Federal (Poder Executivo) quer focalizar os esforços de cooperação para o desenvolvimento a regiões de maior necessidade no globo. "Em comparação com outras agências, estamos presentes em um número demasiado grande de países, o que fragmenta e reduz sua eficácia e eficiência", justifica o governo em seu comunicado sobre a nova estratégia para de cooperação internacional para o período entre 2021 e 2024.

Uma criança participando do "Programa do Café da Manhã", financiado pela DEZA em Lima, Peru. Keystone / Yoshiko Kusano

Pouco efeito

Helvetas, ong ativa em projetos de ajuda ao desenvolvimento, lamenta a retirada da cooperação suíça na América Latina. "Ainda há muitas pessoas pobres nesses países que precisam de nosso apoio", critica Esther Belliger, coordenadora de projetos para a América Latina e Caribe. São paises de estruturas estatais frágeis e "onde a violência e o crime fazem parte do dia-a-dia das pessoas", afirmou.

Segundo Belliger, os projetos no Haiti serão afetados pela medida. "Se a Suíça se retira prematuramente, as comunidades e organizações de agricultores não conseguirão sobreviver às próprias pernas. A ajuda suíça se torna seletiva, mas não tem um grande impacto."

A DEZA (Agência Suíça para Desenvolvimento e Cooperação, na sigla em alemão) apoia programas sustentáveis, envolvendo instituições e organizações locais. "Se a agência se retira da América Latina com sua cooperação bilateral até 2024, ela deixará seus parceiros sozinhos nesse caminho", alerta Belliger.

"Regiões que nos preocupam"

Organizações não-governamentais atuantes na América Latina estão divididas em relação ao encerramento das atividades na região. É o que mostrou um debate promovido com atores envolvidos no Parlamento federal.

"Aplaudimos a concentração de esforços em apenas algumas regiões", Samuel Bon.

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"Ao contrário de outros países, a Suíça não tem um orçamento muito grande para a ajuda ao desenvolvimento e combate à pobreza. Quanto mais os esforços estiverem dispersos, menor será o resultado por país. A questão é saber onde a Suíça pode obter o maior impacto", replica Samuel Bon, diretor da Swisscontact, uma ong próxima dos meios empresariais.

"Entendo que a Suíça prefira atuar, por uma questão puramente geográfica, em países do Mediterrâneo, Oriente Médio, Bálcãs Ocidentais e África do que na América Latina. São regiões que estão mais próximas da Suíça e nos afetam mais", acrescenta Bon, se referindo também à questão da migração.

No entanto, o diretor da Swisscontact levanta uma questão em relação à decisão governamental. "O critério mais sensato para a priorização seria saber onde a Suíça, com sua experiência e recursos limitados, teria maior impacto. Por isso a América Latina poderia ser uma melhor opção, pois os projetos lá conduzidos podem ter mais impacto do que em um país da África central."

Como ficam os projetos em andamento?

Para Bon, o encerramento das atividades da cooperação suíça na América Latina está sendo demasiadamente dramatizado: "A Secretaria de Estado para Economia (Seco) continuará ativa na América Latina. Além disso, a Suíça é uma das financiadoras do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Isso significa que o dinheiro continuará a fluir para o continente. A Suíça também está sempre preparada para fornecer ajuda de emergência em casos de desastre natural.

No entanto, a questão permanece: o que irá acontecer com os projetos já em execução? Quem irá assumir seu controle e como será a transferência para os novos executores?

A questão foi levada ao EDA. A resposta: "A retirada gradual da cooperação suíça dos países da América Latina e Caribe permitirá que os projetos em andamento sejam concluídos de forma ordenada até 2024. O objetivo é garantir seu funcionamento mesmo após nossa saída", declara Georg Farago, porta-voz do ministério.

As autoridades se abstêm, porém, de fornecer informações relativas aos sucessores. Conversações estão ainda em andamento.

Operários na construção de uma usina hidroelétrica nas proximidades de El Bote, Nicarágua, em 2006. O projeto foi apoiado pela DEZA. Keystone / Yoshiko Kusano

No momento, estão sendo elaborados planos de saída em todos os países envolvidos. Estes devem ser implementados após a conclusão do debate parlamentar. "Ao fazer isso, o DEZA se aproveita da experiência adquirida com a saída do Paquistão, Vietnã e Equador", acrescentou Farago.

Crianças na província de Leon, Nicarágua, em 2006. O vilarejo é um dos consumidores de eletricidade gerada pela nova usina hidrelétrica em El Bote, um dos projetos financiados pela cooperação suíça. Keystone / Yoshiko Kusano

ONGs suíças ocupam o lugar

Se o DEZA se retira da América Latina, outros países, organizações internacionais ou agências suíças poderiam teoricamente assumir os projetos. "Tenho dúvidas se ongs iriam assumir essa brecha", replica Bon. "Eles só podem fazer isso se tiverem liquidez, ou seja, uma ampla base de doadores para financiar esses projetos na América Latina". Para Swisscontact é mais difícil, pois não faz campanhas para recolher doações privadas.

A Swisscontact mantém seus próprios projetos na América Latina. "Vemos enormes desafios sociais e econômicos, especialmente na América Central", diz Bon. "Como os EUA repatria muitos migrantes, há gerações inteiras de jovens que retornam a esses países sem trabalho ou perspectivas". Por isso seu projeto visa dar oportunidade aos jovens de serem economicamente produtivos.

A experiência mostra que, se isso não acontecer, muitas vezes o risco é grande de haver mais problemas no futuro.

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