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Negociações ou armadilha? Como o diálogo em Genebra terminou em guerra contra o Irã

Fumo sobe no centro de Teerão após um ataque israelita no Irão, em 1 de março de 2026.
Fumaça sobe no centro de Teerã após um ataque israelense no Irã, em 1º de março de 2026. Keystone

Enquanto negociadores se reuniam em Genebra para discutir o programa nuclear iraniano, EUA e Israel preparavam um ataque que acabaria mergulhando a região em uma nova guerra.

No fim da noite de quinta-feira, após longas horas de conversas descritas como “intensas”, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, relatou nas redes sociais que houve “progresso”. Depois de uma segunda rodada de negociações indiretas em poucos dias em Genebra entre Irã e Estados Unidos sobre o programa nuclear iraniano, o diplomata acrescentou que as discussões continuariam e mencionou uma reunião técnica “em Viena nos próximos dias”.

Os dois lados já haviam se encontrado no início de fevereiro em Mascate, capital de Omã.

No dia seguinte, o chanceler de Omã, Badr al-Busaidi, que atuava como mediador, também saudou o “progresso significativo” alcançado na véspera às margens do Lago de Genebra.

Mas, na manhã de sábado, o presidente dos EUA, Donald Trump, surpreendeu o mundo ao anunciar o lançamento de uma operação militar chamada “Epic Fury” contra o Irã. Juntos, Estados Unidos e Israel realizaram uma série de ataques aéreos que mataram altos dirigentes do regime iraniano, incluindo o líder supremo, Ali Khamenei, que governava o país desde 1989.

Por que a diplomacia fracassou

“Donald Trump calculou que ganharia mais atacando o Irã do que continuando as negociações”, afirma Cyrus Schayegh, professor do Geneva Graduate Institute.

Segundo ele, o presidente americano aproveitou a vulnerabilidade do regime para tentar obter uma vitória política. O governo iraniano já estava enfraquecido por uma guerra de 12 dias lançada por Israel e pelos EUA em junho passado, além da repressão violenta a protestos no início deste ano, que, segundo ONGs, deixou dezenas de milhares de mortos.

Nas negociações, Washington pretendia pressionar o Irã a abandonar completamente seu programa nuclear e seus mísseis balísticos de longo alcance. Teerã, que afirma ter o direito de desenvolver capacidade nuclear para fins civis, buscava convencer os EUA a suspender as sanções que vêm sufocando sua economia desde 2018. O Irã havia sinalizado disposição para limitar o enriquecimento de urânio.

As três rodadas de negociações indiretas realizadas este ano em Genebra e Mascate ocorreram após uma série de conversas semelhantes interrompidas no ano passado por bombardeios americanos e israelenses contra instalações nucleares iranianas.

Por isso, analistas afirmam que os dois lados entraram nessa nova fase de negociações com exigências aparentemente inconciliáveis.

“Havia desconfiança. Mas, se algum dos lados achasse que tudo não passava de uma farsa sem perspectiva de resultado, não teria aceitado negociar”, diz Schayegh. Segundo ele, as exigências dos EUA nem sempre estavam claramente definidas desde o início.

Isso ficou particularmente evidente em relação ao programa de mísseis balísticos do Irã e ao apoio de Teerã a aliados regionais, como o grupo Hezbollah, no Líbano, e os Houthis, no Iêmen.

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Ataque pegou Irã de surpresa

“Teerã deve ter visto progresso nas negociações em Genebra na quinta-feira e acreditado que haveria outra rodada de conversas, o que explicaria a falta de cautela ao organizar, no sábado, uma reunião entre o líder supremo e altos funcionários do regime iraniano”, explica Cyrus Schayegh.

O jornal The New York Times Link externoinformou que a CIA soube da reunião com antecedência e avisou Israel, que então conseguiu atingir o prédio do governo onde estava o líder supremo Ali Khamenei.

“O fator surpresa é obviamente crucial”, afirma Laurent Goetschel, diretor do instituto de pesquisa swisspeace, com sede em Basileia. Segundo ele, não é incomum que uma das partes lance um ataque no meio de negociações.

De acordo com Goetschel, manter conversas também permite que um dos lados “mostre à comunidade internacional que tentou de tudo até o último momento para chegar a um acordo, mas que a outra parte se recusou”.

O Irã respondeu ao ataque mirando imediatamente Israel e países do Golfo que abrigam bases militares dos Estados Unidos, incluindo Catar, Bahrein, Kuwait e os Emirados Árabes Unidos, com ataques aéreos.

No momento da publicação, quatro soldados americanos haviam sido mortos. Também foram registradas nove mortes em Israel e três nos Emirados Árabes Unidos. Segundo o Iranian Red Crescent, o número de vítimas no Irã já ultrapassa 500.

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Sem novas negociações à vista

Os objetivos de Donald Trump ainda permanecem pouco claros. O presidente dos Estados Unidos já insinuou que deseja uma mudança de regime no Irã, mas também reiterou que não quer um conflito prolongado como a guerra travada no Iraque após 2003.

Segundo analistas, inicia-se agora um período de grande incerteza, com risco de nova escalada caso outros países do Golfo se juntem aos EUA e a Israel nos bombardeios contra o Irã. A Arábia Saudita já sugeriu que poderia participar caso sua infraestrutura petrolífera seja atacada.

A guerra deve continuar “nos próximos dias, ou mesmo semanas”, afirma Cyrus Schayegh, acrescentando que um retorno às negociações é improvável no curto prazo. O chefe do Conselho de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, também declarou que o país não vai “negociar” com os Estados Unidos e que está preparado para uma “guerra longa”.

Segundo Schayegh, para que a diplomacia seja retomada, o regime iraniano teria de chegar a um “ponto de ruptura”, possivelmente com o surgimento de um líder mais moderado e pragmático disposto a fazer concessões a Washington.

“Mas isso dependerá do equilíbrio de poder entre os dirigentes que restam. Parece que os setores mais duros, incluindo o novo comandante da Guarda Revolucionária, Ahmad Vahidi, estão ganhando influência”, afirma o especialista.

Até agora, também permanece incerta a sucessão do líder supremo Ali Khamenei.

Edição: Virginie Mangin/fh
Com a colaboração de Julian Busch
Adaptação: Fernando Hirschy

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