Teleféricos suíços avançam no transporte urbano
Os teleféricos, tradicional meio de transporte das montanhas alpinas, já fazem parte do cotidiano urbano na América Latina. Fabricadas em Olten, na Suíça, pela empresa CWA, as gôndolas passarão a transportar passageiros no México a partir de 2028.
Esquiadores e turistas deslizam pelas montanhas a bordo de teleféricos que recortam o horizonte. No entanto, fora das áreas de esqui e das trilhas alpinas, esses sistemas praticamente desaparecem da paisagem.
O contraste com a América do Sul é marcante: por lá, as linhas de gôndolas já deixaram de ser apenas atrações turísticas e passaram a integrar o sistema de transporte público de muitas grandes cidades, conectando bairros, encurtando distâncias e transformando a mobilidade urbana.
Na Cidade do México, por exemplo, já operam três linhas. Outras duas devem entrar em funcionamento em breve. Com a expansão, a rede da região metropolitana ultrapassará 60 quilômetros de extensão. O crescimento do sistema permanece na agenda das autoridades.
@tvcomplexoLink externo Exclusivo! O governador do Estado do Rio de Janeiro, @claudiocastro_rj , afirmou que o teleférico do Complexo do Alemão está chegando!!! A declaração aumenta a expectativa da comunidade, que há anos aguarda o retorno do sistema como uma alternativa fundamental de mobilidade e acesso a oportunidades. Na entrevista, o governador também comentou sobre o evento do programa PISTA, realizado no Palácio Guanabara, destacando investimentos e iniciativas voltadas ao desenvolvimento social e ambiental no estado. Assista ao vídeo e confira a declaração completa. TV COMPLEXO SEMPRE BUSCANDO MELHORIAS PARA NOSSA COMUNIDADE!👊🏽✨ #fyLink externo #claudiocastroLink externo ♬ som original – TV ComplexoLink externo
Após sete anos de abandono e descaso, o teleférico do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, consolidou sua retomada em 2025. O sistema, que liga a comunidade à Estação da Central do Brasil, superou o histórico de paralisia e se tornou um fenômeno de mobilidade urbana gratuita. Segundo a prefeitura, o equipamento ultrapassou a marca de dois milhões de viagens ao longo do ano, transformando-se em um serviço essencial para a população local.
A trajetória do teleférico foi marcada por desafios estruturais e políticos. Inaugurado originalmente em 2014 com recursos do PAC, o sistema funcionou por pouco tempo e ficou desativado por quase sete anos, tornando-se um símbolo de desperdício de dinheiro público. Durante esse período de inatividade, os moradores da favela mais antiga do Rio eram obrigados a enfrentar diariamente as ladeiras íngremes a pé, enquanto as estações e gôndolas permaneciam ociosas.
A recuperação começou em 2021, quando a prefeitura carioca investiu R$ 42 milhões em um projeto de renovação completa. Em parceria com a empresa austríaca Doppelmayr, líder mundial no setor, o sistema eletromecânico e as estações foram reformados. Após uma reinauguração parcial em 2024, o teleférico passou a operar com capacidade total em fevereiro de 2025, funcionando todos os dias da semana para atender à demanda crescente.
Os impactos no cotidiano dos moradores são significativos, já que o trajeto de 721 metros é percorrido em apenas três minutos, uma economia considerável em comparação aos 20 minutos de subida a pé. Além do uso prático para trabalho e estudo, o teleférico fomenta o turismo na região do Porto Maravilha. Em outubro de 2025, o sistema chegou a registrar o recorde diário de 12 mil viagens, com destaque para a integração estratégica com o VLT e os trens na Central do Brasil.
O sucesso da iniciativa é celebrado pela gestão municipal como uma vitória da qualidade de vida e da segurança pública. O secretário Osmar Lima destacou que o serviço superou as expectativas ao oferecer um transporte eficiente e totalmente gratuito. Hoje, o caso da Providência é visto como um modelo de como a revitalização de infraestruturas abandonadas pode transformar realidades em comunidades vulneráveis, servindo de exemplo para outras cidades.
Uma das novas linhas terá cerca de 15 quilômetros de extensão e será, segundo o fabricante Doppelmayr, a mais longa “linha urbana de teleférico” do mundo.
As cabines serão produzidas pela subsidiária CWA, sediada em Olten, no centro da Suíça. Ao todo, mais de 460 gôndolas serão fabricadas no cantão de Solothurn e posteriormente enviadas ao México.
A previsão é que a nova linha entre em operação em 2028.
Trata-se de apenas um entre muitos contratos internacionais da CWA. Há décadas, a empresa fornece cabines para diversos países, como Vietnã, Nova Zelândia, Bolívia e Turquia. Com cerca de 150 funcionários, a companhia produz aproximadamente duas mil cabines por ano.
Diferentemente das utilizadas em áreas de esqui, as gôndolas urbanas não dispõem de suportes para esquis e pranchas de snowboard nas portas. Em contrapartida, contam com assentos dobráveis destinados a cadeiras de rodas e carrinhos de bebê, além de painéis informativos semelhantes aos encontrados em outros meios de transporte público.
“Por dentro, lembram mais um bonde ou um ônibus”, afirma o diretor-geral da CWA, Thomas Hunziker. Segundo ele, as cabines são projetadas para passageiros que se deslocam diariamente para o trabalho. “Ainda assim, trata-se essencialmente de modelos de série, como os utilizados também em áreas de esportes de inverno.”
Descubra mais sobre a engenharia suíça:
Mostrar mais
“O ápice da engenharia suíça”: o bondinho mais íngreme do mundo
“Nos últimos anos, construímos mais teleféricos urbanos na América Latina, como em La Paz, onde implementamos uma rede completa com dez linhas.” Para a Bolívia, a CWA forneceu 1.500 cabines.
De acordo com Thomas Hunziker, os teleféricos criam um novo patamar de mobilidade em grandes cidades sobrecarregadas pelo trânsito e a população faz uso intenso do sistema.
Na região metropolitana da Cidade do México vivem cerca de 20 milhões de pessoas. O transporte público encontra-se saturado, as vias estão frequentemente congestionadas e a qualidade do ar é prejudicada pelas emissões.
Segundo Andreas Fischbacher, diretor da Doppelmayr na América Latina, os teleféricos oferecem alívio em curto prazo. Enquanto a construção de uma nova linha de metrô pode levar cerca de dez anos, um teleférico pode ser concluído em apenas dois a três anos.
O Teleférico do Subúrbio, também chamado de Teleférico do Mané DendêLink externo, será um novo sistema de transporte em Salvador com 4,3 km de extensão, 27 torres e quatro estações. O modal ligará bairros do Subúrbio Ferroviário à estação de metrô em Campinas de Pirajá e terá capacidade para até cerca de 23 mil passageiros por dia. A viagem, que hoje pode levar mais de uma hora de ônibus segundo relatos locais, deverá ser feita em cerca de oito minutos.
O projeto surge para enfrentar um problema estrutural de mobilidade: centenas de milhares de moradores da região vivem com acesso limitado ao transporte público metropolitano, com estimativas oficiais apontando mais de 700 mil beneficiados diretamente pelo teleférico e 900 mil pelo programa como um todo. A prefeitura afirma que o teleférico fará parte de um sistema integrado com metrô e outros modais, sem custo adicional na integração tarifária. Para a gestão municipal, a iniciativa é estratégica para modernizar a mobilidade urbana da cidade.
O financiamento envolve um empréstimoLink externo de US$ 125 milhões do CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe) dentro de um programa mais amplo de inclusão social e desenvolvimento urbano. O conjunto de investimentos soma cerca de R$ 900 milhões, dos quais aproximadamente R$ 678 milhões serão destinados ao teleférico. Após aprovação do financiamento em 2024 e assinatura do contrato em 2025, a prefeitura trabalha com previsão de início das obras em 2026Link externo, com duração estimada de até três anos.
Apesar do potencial de melhoria na mobilidade, o projeto enfrenta críticas relacionadas à transparência financeira e aos impactos urbanos. A vereadora Marta Rodrigues questiona a divulgação limitada de contratos e custos futuros. Também há preocupação de lideranças religiosas e movimentos sociais sobre a instalação de uma torre no Parque São Bartolomeu, espaço sagrado do candomblé e importante área de memória afro-brasileira.
Quando concluído, o sistema terá capacidade para até cerca de 23 mil passageiros por dia e ampliará o acesso ao metrô e a serviços urbanos. A iniciativa segue exemplos de cidades como La Paz e Medellín, onde teleféricos urbanos melhoraram a mobilidade em áreas periféricas. O projeto se insere em uma tendência internacional de uso de teleféricos urbanos, em que empresas e especialistas europeus, incluindo suíços e austríacos, têm forte presença na tecnologia de transporte por cabos, embora parcerias específicas ainda não tenham sido anunciadas publicamente.
As novas linhas urbanas de gôndolas geram trabalho para a CWA em Olten. “Um contrato em uma estação de esqui envolve de 50 a 70 cabines; um contrato urbano, de 400 a 500”, afirma Thomas Hunziker.
Isso exige, muitas vezes, a contratação de funcionários temporários ou a expansão das áreas de produção. “Nossa origem está no mercado de inverno, e o turismo de montanha continua sendo nosso principal segmento. Mas há um enorme potencial para teleféricos urbanos em todo o mundo.”
*Adaptação especial para os leitores lusófonos: Alexander Thoele
Mostrar mais
Boletim informativo sobre a economia suíça
Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.