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Data centers e smartphones geram 66% da pegada digital na Suíça

ecrã de um smartphone
Em 2022, oito em cada dez jovens na Suíça possuíam um smartphone novo. Keystone

Os celulares e os serviços online que utilizamos diariamente consomem recursos naturais do planeta e contribuem para as mudanças climáticas. Ainda assim, há maneiras de tornar nossa vida digital mais sustentável.

Mais de seis bilhões de pessoas, cerca de três quartos da população mundial, estão online. Em países de alta renda como a Suíça, praticamente toda a população tem acesso à internet. Os suíços passam, em média, 5 horas e 32 minutos por dia onlineLink externo, três vezes mais do que em 2011.

“Comprar um celular de última geração é tudo menos insignificante do ponto de vista ambiental.”

Louise Aubet

Embora o mundo digital pareça imaterial e eficiente, ele esgota os recursos do nosso planeta e contribui significativamente para a poluição ambiental. Com o crescimento populacional e a disseminação da inteligência artificial (IA), os impactos negativos das tecnologias da informação e da comunicação (TIC) sobre o clima e o meio ambiente aumentam rapidamentLink externoe, assim como os resíduos provenientes da fabricação e do descarte de equipamentos eletrônicos.

“Comprar um celular de última geração está longe de ser insignificante do ponto de vista ecológico”, afirma Louise Aubet, da Resilio, uma startup da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL) que tem como objetivo tornar as tecnologias digitais mais sustentáveis.

Uma pesquisaLink externo recente da Resilio quantificou pela primeira vez os impactos ambientais do setor digital na Suíça. Dispositivos eletrônicos cotidianos, como smartphones ou televisores, por exemplo, já afetam negativamente o clima antes mesmo de chegarem às nossas mãos. Além disso, o número de centros de processamento de dados – instalações físicas onde dados digitais são armazenados, processados e distribuídos – está aumentando, assim como o consumo de eletricidade necessário para sua operação.

A Suíça está entre os países com o maior número de dispositivos eletrônicos per capita e a maior concentraçãoLink externo de centros de processamento de dados.

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Usina nuclear para abastecer setor digital

De acordo com o estudo, o setor de tecnologia da informação (TI) consome 12% da eletricidade da Suíça. A pesquisa considerou todos os dispositivos eletrônicos de uso privado e profissional (como celulares, tablets e laptops), bem como redes de telecomunicações e centros de processamento de dados no ano de 2024. A demanda total de eletricidade fica pouco abaixo da produção anual da usina nuclear de Gösgen.

Os cerca de 120 centrosLink externo de processamento de dados do país são responsáveis por metade desse consumo, seis por cento do consumo nacional de eletricidade. Seu número cresce continuamente, assim como o consumo de energia e a necessidade de água para o resfriamento dos servidores.

A participação da tecnologia digital no consumo nacional de eletricidade da Suíça é comparável à da França, um dos poucos países que analisaram os impactos do setor de TI com uma metodologia semelhante. Em 2022, bens e serviços digitais consumiramLink externo 14,3% da eletricidade na França. O consumo individual de eletricidade dos usuários de internet é semelhante nos dois países, embora a população francesa seja mais de sete vezes maior que a suíça.

centro de dados
A Suíça está entre os países com a maior densidade de centros de dados (na imagem, um centro de dados no cantão de Argovia). Keystone / Christian Beutler

A pegada ecológica da tecnologia digital é comparável à da aviação

O estudo da Resilio também considerou todo o ciclo de vida dos dispositivos e da infraestrutura de TI utilizados na Suíça, desde a extração de matérias-primas, como lítio e cobalto para baterias, até o descarte de resíduos eletrônicos.

Segundo o estudo, cerca de 930 milhões de toneladas de terra foram escavadas para atender à demanda suíça por minerais e metais destinados a dispositivos eletrônicos e acessórios em 2024. Isso corresponde a uma cratera do tamanho da cidade de Winterthur, com dez metros de profundidade.

A extração de materiais, a fabricação dos dispositivos e seu transporte para a Suíça geram cerca de dois milhões de toneladas de CO₂. Isso representa quase dois por cento das emissões associadas a todos os bens e serviços consumidos no país. Globalmente, o setor digital é responsável por 1,5% a 4% das emissões de gases de efeito estufa, uma participação que, segundo um estudoLink externo da União Internacional de Telecomunicações (UIT) e do Banco Mundial, é comparável à da aviação civil.

Quando a energia necessária para toda a cadeia de suprimentos provém de combustíveis fósseis, são produzidas emissões de CO₂. Na Ásia, onde a maioria dos dispositivos usados na Suíça e na Europa é fabricada, os combustíveis fósseis representam 70% da matriz elétricaLink externo, em comparação com 40% na Europa.

O envio de um e-mail curto a partir de um computador gera 0,3 grama de COLink externo₂. Isoladamente, é uma quantidade desprezível. No entanto, é preciso multiplicá-la pelas mais de 374 bilhões de mensagensLink externo enviadas diariamente.

Uma busca no Google consome, em média, 0,3 watt-hora de eletricidadeLink externo. Uma consulta ao ChatGPT necessita dez vezes mais: 2,9 watt-hora.

Os centros de processamento de dados requerem grandes quantidades de água tanto para a construção quanto para o resfriamento dos componentes elétricos. A demanda global de IA deverá consumir entre 4,2 e 6,6 bilhões de metros cúbicos de águaLink externo até 2027. Em comparação, a população da Suíça consome anualmente mais de dois bilhões de metros cúbicos.

Até 2030, a IA causará entre 24 e 44 milhões de toneladasLink externo de CO₂ por ano, o equivalente ao impacto ambiental de 5 a 10 milhões de automóveis.

Importância dos centros

Em 2024, havia 73,5 milhões de dispositivos digitais em uso na Suíça. Isso representa uma média de 8,5 telefones, laptops, tablets, fones de ouvido ou dispositivos semelhantes por pessoa. Em comparação, na França são 6,9 e, mundialmente, 5,7. Segundo o estudo da Resilio, o uso desses dispositivos representa a maior parte da pegada ecológica do setor digital na Suíça, com 66%.

Em 2024, os centros de processamento de dados, acionados pelos dispositivos ao acessar a internet e recuperar dados, foram responsáveis por cerca de um quarto do impacto ambiental das TI na Suíça. No entanto, esse cenário está mudando. De acordo com as projeções da Resilio, os centros de processamento de dados deverão representar 56% da pegada ecológica digital até 2035.

infográfico que mostra a quota de dispositivos eletrónicos e centros de dados na pegada ambiental do digital
O peso dos centros de dados na pegada ambiental do setor digital na Suíça aumentará até 2035. Resilio

Esse desenvolvimento é impulsionado pela rápida disseminação da computação “em nuvem”Link externo e pelo crescimento da inteligência artificial de alta intensidade computacional. A expansão dos serviços digitais em todos os setores da economia, especialmente na saúde, no setor financeiro, na indústria, na energia e no transporte, também contribui para o aumento do uso de centros de processamento de dados.

Ao mesmo tempo, sistemas baseados em IA podem otimizar processos industriais, inclusive no setor de TI, e melhorar a eficiência energética, reduzindo assim seus impactos sobre o clima e os recursos naturais.

“IA é apenas uma ferramenta”, afirma Gudrun Gudmundsdottir à Swissinfo. Ela é pesquisadora da Universidade Técnica da Dinamarca e avaliadora do estudo da Resilio, e prossegue: “Se a IA reduz ou aumenta as emissões depende de como a utilizamos.”

Como reduzir impacto da tecnologia digital?

Não faltam soluções para reduzir a pegada ecológica das tecnologias digitais. Elas envolvem todos os atores do setor. Em 2020, a União Internacional de Telecomunicações estabeleceu a meta de reduzir as emissões totais do setor de TI em 45%Link externo até 2030.

Centros de processamento de dados podem reduzir o consumo de energia para o resfriamento dos servidores substituindo ventiladores e sistemas de ar-condicionado por sistemas de resfriamento por imersão, afirma Gudmundsdottir. Nesses sistemas, servidores e outros equipamentos de TI são imersos em um líquido que dissipa o calor. Os centros de processamento de dados também devem aumentar a participação de energias renováveis em sua matriz elétrica.

“A IA é apenas uma ferramenta: depende de como a usamos para reduzir ou aumentar as emissões.”

Gudrun Gudmundsdottir

Fabricantes de hardware, por sua vez, podem trabalhar para reduzir a dissipação de calor e o consumo de energia dos dispositivos, por exemplo, quando estão ligados, mas não executam atividades significativas. Empresas de software podem desenvolver programas mais leves e energeticamente eficientes, segundo Gudmundsdottir.

Colaboração e uma visão comum são necessárias para que todas as empresas do setor trabalhem em direção ao objetivo compartilhado de reduzir emissões, acrescenta ela.

Sobriedade digital

Os consumidores também podem contribuir. “Uma medida simples é evitar a compra de dispositivos eletrônicos desnecessários, prolongar a vida útil dos aparelhos, desconectá-los da rede elétrica quando não estiverem em uso e garantir que sejam reciclados”, afirma Gudmundsdottir.

De acordo com um estudoLink externo da Escola Superior de Ciências Aplicadas de Zurique (ZHAW) e da Swisscom, em 2022 oito em cada dez jovens na Suíça possuíam um smartphone comprado recentemente. No entanto, passaram a utilizá-lo por um período um pouco mais longo (2,7 anos) do que em 2016 (1,9 ano).

Jan Bieser, professor de digitalização e sustentabilidade na Universidade de Ciências Aplicadas de Berna, vê possibilidades de minimizar o consumo de dados. Uma grande parte do tráfego de dados na internet consiste em conteúdos de vídeo e redes sociais que não precisam necessariamente ser transmitidos em resoluções cada vez mais altas, especialmente quando usuárias e usuários não percebem diferença na qualidade.

O estudo da Resilio conclui que a eficiência tecnológica, por si só, não é suficiente. A sobriedade digital, menos, porém melhor, deve estar no centro dos esforços da Suíça.

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Debate
Moderador: Sara Ibrahim

Qual é o impacto ambiental da inteligência artificial?

Qual é o impacto ambiental da IA? Modelos como o ChatGPT consomem muita energia e recursos, agravando problemas ambientais. Isso muda a forma como você usa IA?

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Edição: Gabe Bullard/Vdv

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

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