A expectativa pela Copa do Mundo, regras inúteis e os “planos distópicos” da Meta
Bem-vindos à nossa análise da cobertura da imprensa sobre os acontecimentos nos Estados Unidos. Todas as quintas-feiras, analisamos como a imprensa suíça tem noticiado e reagido a três notícias importantes nos EUA.
Se você não se interessa por futebol, espero que tenha um plano B para as próximas cinco semanas, pois vai ser difícil escapar da Copa do Mundo de 2026 na América do Norte. Os acontecimentos dentro e fora de campo provavelmente vão gerar muitas manchetes. Analisamos o que os jornais suíços acham de todo esse circo.
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“Novas regras não servem de nada contra alguém que é conhecido por infringi-las”, afirma o Tages-Anzeiger, ao comentar a recente nomeação, por Donald Trump, do empresário Bill Pulte como diretor interino de Inteligência Nacional.
“Bill Pulte nunca teve nada a ver com questões de segurança em toda a sua vida. Absolutamente nada”, afirmou o jornal de Zurique em uma análise publicada na terça-feira. “Ele era administrador de imóveis. Agora está prestes a se tornar o chefe da inteligência dos EUA. Por quê? Só Donald Trump sabe.”
A razão, na verdade, é que Trump gosta de preencher cargos de alto escalão com “diretores interinos”. A Receita Federal, por exemplo, já teve seis chefes interinos desde o início de seu segundo mandato. Trump gosta desse arranjo, pois lhe dá “mais flexibilidade”, como explicou em 2019 em respostaLink externo às críticas durante seu primeiro mandato.
“Com isso, Trump se refere à capacidade de nomear pessoas que o Senado talvez não confirme. Pessoas que atendam aos seus próprios interesses, em vez dos interesses do país”, afirmou o Tages-Anzeiger. “No caso de Pulte, há receios de que ele explore os serviços de inteligência para perseguir os inimigos de Trump.”
Ideias para novas regras estão circulando atualmente, observou o jornal. “O think tank conservador Cato propôs que os chefes interinos devam vir da mesma agência que lideram. Isso poderia impedir Pulte de assumir o cargo, mas não o chefe interino do ICE, David Venturella. Ele tem experiência relevante.”
O problema, explicou o Tages-Anzeiger, é que nenhuma constituição e nenhuma lei podem impedir um presidente de contornar, abusar ou ignorar regras – por mais sofisticadas que sejam. “As regras só funcionam com atores dispostos a cumpri-las. Pelo menos em princípio. Donald Trump não está. […] Isso significa que as abordagens habituais para a resolução de problemas falham”, escreveu o jornal.
“A única coisa que pode conter o presidente é a oposição vinda de dentro de suas próprias fileiras”, concluiu o jornal. “Quando alguns republicanos expressaram críticas moderadas sobre Pulte, a Casa Branca respondeu com um comunicado à imprensa intitulado ‘Forte apoio a Trump’. Ele citava todos os republicanos que haviam se pronunciado positivamente sobre as nomeações. Isso também mostra que, enquanto os republicanos no Congresso não se recusarem em massa a seguir Trump quando ele quebra as regras, não adianta debater novas regras. Elas são inúteis.”
- Novas regras não servem de nada contra um notório infratorLink externo – Análise do Tages-Anzeiger (alemão, paywall)
- Trump indica Bill Pulte para InteligênciaLink externo – Le Temps (francês)
A Copa do Mundo de Futebol Masculino de 2026 começa hoje, 11 de junho, e é difícil saber o quanto a mídia suíça está animada.
“Autoridades de Trump esfriam o entusiasmo pela Copa do Mundo com confusão na entrada” foi a manchete do tabloide Blick na terça-feira, destacando os obstáculos enfrentados por vários jogadores e torcedores ao viajarem para os Estados Unidos, país anfitrião de 78 das 104 partidas (Canadá e México sediarão 13 cada).
O Blick citou os exemplos de muitos torcedores escoceses que, segundo relatos, viram suas autorizações de entrada alteradas para “não autorizadas” no último momento, torcedores jordanianos que não conseguiram obter visto, um jogador do Iraque e outro do Senegal que foram interrogados, às vezes por horas, ao desembarcar nos EUA, e o árbitro somali Omar Artan, que foi recusado após aterrissar em Miami. O craque suíço Breel Embolo acabou chegando aos EUA dois dias depois de seus colegas, pois os EUA exigiram esclarecimentos sobre seu formulário ESTA.
Para o Le Temps, a Copa do Mundo de 2026 “está abalando nossa percepção desse evento a tal ponto que está gerando mais preocupação do que entusiasmo”. O jornal de Genebra explicou que os preços dos ingressos foram quase totalmente desregulamentados e que a revenda é autorizada. Além disso, haverá um grande show no intervalo da final, e todas as 104 partidas farão uma pausa no meio de cada tempo para intervalos de hidratação de três minutos, “a fim de vender mais publicidade”.
“Nada é impossível para [o presidente da FIFA] Gianni Infantino, que se vê como um chefe de Estado, mas age como o CEO de uma multinacional, ocupado em gerar cada vez mais dinheiro”, afirmou o Le Temps. “Enquanto aguardamos os primeiros jogos, perguntamo-nos o que o futebol tem a ganhar com isso…”
Pelo menos o Neue Zürcher Zeitung (NZZ) começou a entrar no clima. “Algumas pessoas dizem que pretendem fazer vista grossa quando o torneio começar. Mas quem tentar enviar um sinal significativo dessa forma fracassará”, escreveu o jornal na terça-feira.
“Porque quando o árbitro apitar o início da partida de abertura na Cidade do México […], muito do que pode lançar uma nuvem de repulsa sobre este gigantesco megaevento ficará em segundo plano desde o primeiro toque na bola. Uma vez que a bola comece a rolar, nenhum presidente poderá direcioná-la para o gol, nenhuma quantia de dinheiro poderá mudar sua direção e nenhuma intervenção militar provavelmente conseguirá interromper a trajetória da bola. A bola pertence aos jogadores. E, uma vez em jogo, o mundo inteiro estará assistindo fascinado.”
- Uma Copa do Mundo que mais preocupa do que empolgaLink externo – Le Temps (francês, paywall)
- Quando a bola rola, todo o resto fica em segundo planoLink externo – NZZ (alemão, paywall)
- Somali referee refused entry to USLink externo – Le Temps (francês, paywall)
- Árbitro somali não tem permissão para entrar nos EUALink externo – Blick (alemão)
“Fique de olho em Mark Zuckerberg e seus planos distópicos”, alertou o Le Temps no domingo. O jornal explicou como a Meta está desenvolvendo uma função de reconhecimento facial para seus óculos, reacendendo preocupações sobre a identificação de pessoas em espaços públicos.
“Mark Zuckerberg prometeu acabar com o reconhecimento facial”, afirmou o jornal de Genebra, lembrando aos seus leitores que, em 2021, a Meta havia anunciado o fim de seu sistema de identificação automática no Facebook e a exclusão de cerca de um bilhão de registros faciais.
Mas, de acordo com uma investigação da revista norte-americana Wired, a Meta integrou um código em seu aplicativo Meta AI vinculado a uma função de reconhecimento facial para seus óculos conectados Ray-Ban e Oakley. Conhecida internamente como “NameTag”, essa tecnologia ainda não foi ativada, informou o Le Temps, mas já está presente em um aplicativo que foi baixado mais de 50 milhões de vezes. “A Meta fala de uma simples ‘exploração’, mas as preocupações estão crescendo”, afirmou o jornal.
A forma como o sistema funciona, conforme revelado pelaWired, é “estonteante”, segundo o Le Temps: os óculos filmam um rosto, o aplicativo o transforma em uma impressão digital biométrica e, em seguida, compara-a com os dados armazenados no celular. Se houver uma correspondência, uma notificação pode indicar que a “pessoa” foi reconhecida. “Os óculos da Meta não filmariam mais apenas o mundo: eles poderiam identificar as pessoas que passam por ele”, afirmou.
O Le Temps alertou que a tecnologia de reconhecimento facial acessível a todos poderia rapidamente se tornar uma ferramenta de rastreamento. “Com os óculos da Meta, o risco seria ainda maior: você nem precisaria importar uma foto para um mecanismo de busca. Bastaria apenas olhar para alguém.”
- Fique de olho em Mark Zuckerberg e seus planos distópicosLink externo – Le Temps (francês, paywall)
A próxima edição de “Notícias dos EUA” será publicada na quinta-feira, 18 de junho de 2026. Até lá!
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Adaptação: Eduardo Simantob, com ajuda do Deepl
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