Crônica de uma Lisboa invadida e conquistada
Entre expatriados, nômades digitais e estudantes: nenhuma outra cidade europeia está tão dominada por estrangeiros quanto Lisboa. Este e outros temas foram destaques nas mídias suíças nesta semana.
Enquanto na Suíça se vota sobre um teto máximo para a população, Portugal criou muitos incentivos para a imigração. Mas o que acontece com uma cidade onde os aluguéis são mais altos do que os salários? O correspondente do jornal Neue Zürcher Zeitung (NZZ) fez um passeio pela distopia portuguesa. E mais: Portugal faz bonito na ONU, os suíços se encantam com o sistema de pagamento Pix e, enfrentando o Brasil, Trump marca um belo gol contra. Leia os resumos abaixo.
Ajude-nos a melhorar a nossa revista de imprensa
Como leitor(a) da nossa revista de imprensa semanal, sua opinião é muito importante. Reserve dois minutos para responder a uma breve pesquisa e nos ajudar a aprimorar o nosso jornalismo. A pesquisa é anônima e todos os dados são confidenciais.
Os lisboetas viraram ilhéus
As estatísticas mostram o quão insustentável é a situação no mercado imobiliário da cidade. Um estudo do Deutsche Bank do ano passado concluiu que Lisboa apresenta uma relação aluguel/salário de 116%. Isso significa que o aluguel médio de um apartamento de um quarto no centro da cidade custa mais do que um salário médio mensal. Na UE, Madrid e Barcelona vêm em seguida, com 74% cada. Zurique fica em 35%, Genebra em 29%.
Em 2012, durante a crise do euro, a situação de Portugal era tão
grave que a UE o pressionou a adotar reformas drásticas.
O governo identificou setores da economia com potencial de
crescimento rápido, como o imobiliário e o turismo.
O país então abriu o mercado imobiliário, revogou qualquer forma de proteção ao locatário e atraiu investidores estrangeiros com
privilégios fiscais e facilidades na obtenção de vistos. O plano deu certo: em 2017, Portugal e sua capital estavam no radar global.
Em todo o país, o número de imigrantes mais do que triplicou desde então, chegando a 1,5 milhão – cerca de 15% da população total. Expatriados e nômades digitais, aposentados e estudantes afluíram para cá. Lisboa tornou-se um ponto de referência para estrangeiros: ensolarada, charmosa, à beira-mar e, para muitos, surpreendentemente barata.
Mostrar mais
Viena e Singapura mostram saídas públicas para moradia acessível
Hoje um bairro como o Campo de Ourique é chamado de «bairro francês». Em outros, predominam aposentados da Escandinávia, Inglaterra ou dos EUA. As crianças nas muitas escolas internacionais muitas vezes não aprendem português; mas isso quase não as limita, pois a língua da cidade agora é o inglês, já que o turismo também está em constante expansão.
O governo vem tentando reverter essa situação e incentivar contratos de aluguel de no mínimo três anos e no máximo 2.300 euros mensais com descontos fiscais. Esse teto ainda está, no entanto, acima do salário bruto médio de cerca de 1.600 euros.
Fonte: NZZLink externo em 09.06.2026 (alemão)
Como fazer amigos e influenciar a ONU
O articulista Patrick Illinger do diário Basler Zeitung (Basileia) comentou sobre a votação de Portugal para o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CS-ONU), encantado com a capacidade do país e seus políticos de, mais uma vez, alcançar cargos influentes na diplomacia internacional.
Apenas pouco mais de um milésimo da população mundial é
portuguesa. Ainda menor é a participação de Portugal na superfície terrestre do planeta. Nesse contexto, o peso político internacional deste país atlântico é simplesmente gigantesco.
Portugal não só acaba de se tornar, juntamente com a Áustria,
membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Há
décadas que políticos portugueses alcançam os mais altos cargos da política e da diplomacia internacionais.
Desde 2017, o ex-primeiro-ministro de Portugal, António Guterres, ocupa o cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Com José Manuel Barroso, outro ex-primeiro-ministro de Portugal foi, durante dez anos, presidente da Comissão Europeia. E outro ex-primeiro-ministro, António Costa, é atualmente presidente do Conselho Europeu.
A lista poderia continuar. E não deixa margem para dúvidas: Portugal goza de grande prestígio internacional como mediador de confiança. Isso se deve, em parte, ao fato de que esse pequeno país não é suspeito de perseguir uma agenda própria, possivelmente, e em parte ao fato de que na extremidade ocidental da Península Ibérica vive um povo que não só tem, com razão, a reputação de ser simpático, mas também é fortemente marcado pela política. Debate-se, faz-se greve e discute-se mais do que em outros países. Mas também se busca o consenso.
Não foi sempre assim. Até 1974, Portugal vivia sob uma ditadura e travava guerras sangrentas nas então colônias. Mas justamente porque o país se livrou desse período sombrio como se fosse um pesadelo, surgiu uma população politicamente interessada e gerou uma geração de políticos engajados.
O fato de ter sido outrora uma potência mundial e colonial não é, em Portugal, ao contrário do que acontece em outros países, motivo de saudade. No entanto, a história aguçou a compreensão coletiva sobre outras culturas e questões internacionais.
Fonte: Basler ZeitungLink externo (BaZ), 05.06.2026 (alemão)
O melhor cabo eleitoral de Lula
Conforme relata o correspondente do NZZ no Brasil, Alexander Busch, a classificação das quadrilhas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo governo estadunidense foi mais um gol contra da administração Trump. A medida, destinada a apoiar o candidato de direita com maiores chances na corrida presidencial (Flavio Bolsonaro), tende a beneficiar o presidente de esquerda Lula.
A campanha furiosa de Trump em favor de Jair Bolsonaro já proporcionou ao presidente Lula, no ano passado, um aumento inesperado de popularidade. Isso também porque muitos eleitores de Bolsonaro, provenientes dos círculos econômicos e do agronegócio, foram duramente atingidos pelas medidas punitivas dos EUA. As sanções contra o presidente do Supremo levaram, além disso, o lobby bancário brasileiro a se unir em Washington. Os representantes do setor financeiro temiam, devido às sanções, por seus negócios com os EUA.
Essas preocupações voltam a surgir agora: «A classificação poderia
ter consequências mais graves para os bancos e empresas brasileiras do que para os próprios cartéis», escreveu o especialista em segurança Robert Muggah no LinkedIn. Pois assim que as autoridades constatarem que um membro de uma gangue mantém uma conta em um banco brasileiro ou a utiliza para lavagem de dinheiro, a instituição poderá ser incluída na lista de sanções dos EUA.
Além disso, o Departamento de Estado dos EUA está aumentando a pressão sobre o Brasil. O secretário de Estado Marco Rubio declarou recentemente perante o Senado dos EUA que a América Latina é hoje amplamente marcada por governos pró-americanos. Exceções seriam a Nicarágua, Cuba, a Venezuela e, sobretudo, o Brasil, bem como a Colômbia.
“Nunca antes um secretário de Estado dos EUA retirou o Brasil da lista de países amigos”, protestou em seguida Celso Amorim, assessor de política externa de Lula.
No Brasil, a classificação das duas gangues criminosas como terroristas também é controversa entre especialistas em segurança: a especialista em terrorismo Rashmi Singh, da Universidade PUC em Belo Horizonte, afirma: “O argumento do narco-terrorismo é uma narrativa dos EUA para poder violar o direito internacional no hemisfério ocidental.” Assim, sob o pretexto de combater o narcoterrorismo, os EUA participaram nos últimos meses de operações de combate contra gangues de traficantes no Equador e na Venezuela.
Fonte: NZZLink externo, 05.06.2026 (alemão)
Mostrar mais
Brasil não é ‘republiqueta’, diz Lula após EUA designar PCC e CV como terroristas
Quem tem medo do Pix? Os bancos
O Parlamento suíço debaterá na próxima semana uma moção para tornar o Twint – o sistema de pagamento suíço semelhante ao Pix – gratuito para todos. O senador Carlo Sommaruga propõe três opções: nacionalização, desenvolvimento de um aplicativo pelo BNS (banco central) ou tarifas fixadas pela Confederação. O bloco conservador se opõe ao projeto, considerando que não é da competência do Estado.
O Parlamento suíço debaterá na próxima semana uma moção para tornar o Twint gratuito para todos. O senador Carlo Sommaruga propõe três opções: nacionalização, desenvolvimento de um aplicativo pelo BNS (banco central) ou tarifas fixadas pela Confederação. O bloco conservador se opõe ao projeto, considerando que não é da competência do Estado.
Pegar o celular e pagar o croissant com o Twint. Numa época
em que nosso telefone se tornou praticamente uma extensão do
nosso braço, o gesto é natural, para não dizer automático. O aplicativo contava, segundo seus próprios dados, com 6 milhões de usuários e 900 milhões de transações em 2025.
Por trás dessa ação banal, no entanto, escondem-se taxas pesadas para o padeiro. Ele geralmente precisa pagar 1,3% do valor da transação à plataforma de pagamento. Se os comerciantes já deram o alarme, a política agora também se debruça sobre o assunto.
O Conselho dos Estados discutirá, na próxima semana, uma moção que visa tornar o Twint gratuito para consumidores e comerciantes. Mas o Twint já não é gratuito para pessoas físicas? “Sim, mas nada garante que continue sendo”, observa Carlo Sommaruga (PS/GE), autor do texto. O aplicativo estabelece suas próprias regras. Ele poderia decidir cobrar de cada usuário se isso for do seu interesse.»
Para atingir seu objetivo, Carlo Sommaruga considera três opções. Primeira: a Confederação nacionaliza a empresa. Opção dois: o BNS desenvolve seu próprio aplicativo concorrente, acessível e utilizável gratuitamente por todos. E o genebrino destaca que o Brasil seguiu esse caminho com seu aplicativo estatal Pix. “O banco central fornece e regula o serviço. As taxas de transação não ultrapassam 0,33%.”
Fonte: Tribune de Gen`èveLink externo, 10.06.2026 (francês)
>>Outros assuntos noticiados na Suíça:
Investir em mercados emergentes: uma escolha pertinente?Link externo (09.06)
Se você tem uma opinião, crítica ou gostaria de propor algum tema, nos escreva. Clique AQUI para enviar um e-mail.
Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 19 de junho. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!
Até a próxima semana!
Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.