Cruz Vermelha cria “escudo digital” para se proteger de ataques cibernéticos
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) apresentou um protótipo de um novo emblema digital, criado para proteger organizações humanitárias e de saúde contra ataques digitais.
Organizações humanitárias e serviços de saúde são alvos cada vez mais frequentes durante conflitos. Os ataques ocorrem tanto no mundo físico, como durante os bombardeios israelenses em Gaza, quanto no mundo virtual, onde ataques digitais podem causar custos humanos reais.
Hospitais e agências humanitárias dependem de dados, servidores e redes digitais. Quando ocorre um ataque cibernético, “o atendimento médico é atrasado, ambulâncias não podem ser enviadas e famílias ficam sem notícias de seus entes queridos desaparecidos”, explica o Diretor-Geral do CICV, Pierre Krähenbühl. “A ajuda não chega a quem precisa, as pessoas sofrem e vidas podem ser perdidas.”
Emblema digital
No dia 9 de julho, na sede da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN), em Genebra, o CICV apresentou seus planos para reforçar a defesa contra ciberameaças: um protótipo de um emblema digital desenvolvido em conjunto com o instituto federal de tecnologia ETH Zurich.
O objetivo do emblema desenvolvido é identificar que determinada infraestrutura online está protegida pelo direito humanitário internacional – da mesma maneira que um emblema visível da Cruz Vermelha em uma ambulância sinaliza que o veículo não pode ser atacado.
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A versão digital não é um símbolo visual tradicional, mas sim uma assinatura digital. Ela certificará a identidade da infraestrutura digital pertencente ao CICV, às sociedades nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho e aos serviços de saúde militares e civis.
No entanto, assim como o símbolo da Cruz Vermelha não garante segurança no mundo físico, o novo emblema digital não pode assegurar proteção completa contra ataques cibernéticos.
Ameaça crescente
“A ameaça de ciberataques é clara e presente, e infelizmente está piorando”, afirma Stéphane Duguin, CEO da fundação Protect.ngo em Genebra (antigo Instituto CyberPeace).
Dugin explica que as organizações humanitárias são “alvos fáceis” porque são vulneráveis a dois tipos de ameaça. A primeira vem de criminosos que buscam extorquir funcionários ou escritórios. A segunda ameaça vem de agentes estatais que buscam enfraquecer a atuação das organizações por não concordarem com suas atividades, localização geográfica ou apoios fornecidos.
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As organizações humanitárias também são vulneráveis porque a falta de financiamento estável pode dificultar o investimento em ciberdefesa.
Em 2022, o próprio CICV sofreu Link externoum ataque digitalLink externo em servidores que continham dados pessoais de mais de 515 mil pessoas em todo o mundo. Em maio, o Programa Mundial de Alimentos da ONU foi alvo de um ataque cibernético que expôs dados sensíveis de cerca de 600 mil famílias em Gaza. Essa foi a “maior violação de dados conhecida” do setor, Link externosegundoLink externo o veículo de notícias sem fins lucrativos The New Humanitarian, que divulgou a notícia.
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“As unidades médicas e de transporte médico já estão protegidas pelo direito internacional humanitário”, afirma Samit D’Cunha, consultor jurídico da sede do CICV em Genebra. “O objetivo do emblema digital é tornar essa proteção evidente também no mundo online”.
As Convenções de Genebra de 1949 são a base do direito internacional humanitário, também conhecido como leis ou regras da guerra. Elas impõem limites às hostilidades e protegem civis, soldados feridos, prisioneiros de guerra e certas infraestruturas críticas, como instalações médicas. Destruir dados de pacientes, impedir o funcionamento de equipamentos médicos e interromper as cadeias de suprimentos médicos, portanto, viola as Convenções de Genebra.
‘Uma boa solução’
O protótipo do emblema digital já foi testado por diversas sociedades nacionais da Cruz Vermelha. Ele funciona como uma assinatura criptográfica que alerta qualquer cibercriminoso que tenha como alvo, por exemplo, um hospital, de que a instituição está protegida pelas Convenções de Genebra.
“É uma boa solução, especialmente para minimizar o risco de ataques direcionados em situações de conflito”, afirma Duguin, embora ressalte que medidas de proteção adicionais também devem ser utilizadas. “É uma ferramenta singular que permite [às organizações] confrontar os agressores com as obrigações do direito internacional humanitário.”
Dugin destaca, no entanto, que o custo do emblema digital ainda não é conhecido e que algumas organizações podem não ter a capacidade técnica ou financeira para adotá-lo.
Visibilidade aumenta a proteção
Uma questão permanece: considerando as recorrentes violações das leis de guerra, o emblema digital realmente proporcionará melhor proteção à infraestrutura digital humanitária e médica?
Laurent Gisel, chefe da unidade de armas e conduta de hostilidades do CICV, afirma que o CICV está “contando com” isso. Ele explica que, após consultar diversos especialistas em segurança cibernética, o CICV concluiu que o emblema digital seria eficaz. “Só o tempo dirá”, diz ele. “Mas a história nos ensina que a visibilidade pode aumentar a proteção. Em 1864, quando o emblema da Cruz Vermelha foi adotado, alguns podem ter temido que as ambulâncias militares que o exibissem seriam mais visadas do que quando eram menos facilmente identificáveis. Mas o oposto se provou verdadeiro.”
O recente evento do CICV no CERN marcou um marco para o emblema digital: o lançamento da segunda fase de desenvolvimento, que deverá conduzir à sua implementação. Agora, a fase de testes e aperfeiçoamento do protótipo levará vários anos. Além disso, será necessário desenvolver normas técnicas reconhecidas globalmente para serem estabelecidas pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) em Genebra e pela Força-Tarefa de Engenharia da Internet (IETF).
Atualização jurídica necessária
A legislação vigente também precisará ser atualizada. “O direito internacional humanitário terá que incluir uma definição para o emblema digital, assim como já faz para emblemas [visuais] existentes, como o da Cruz Vermelha, que são definidos nas Convenções de Genebra”, afirma Gisel.
Esta não seria a primeira atualização das Convenções em resposta ao progresso tecnológico. Na década de 1970, para permitir a identificação de aeronaves médicas à noite, quando o emblema da Cruz Vermelha não é visível, foi introduzida nos aviões uma luz azul intermitente – com especificações técnicas definidas no Anexo I do Protocolo Adicional I de 1977 às Convenções de Genebra.
Gisel aponta que “a integração do emblema digital no direito internacional humanitário permitirá que as regras específicas que regulamentam os emblemas [da Cruz Vermelha] sejam aplicadas integralmente à versão digital, em particular a obrigação dos Estados de reprimir abusos, como o uso ilegal com o objetivo de proteger a infraestrutura digital militar”.
Os Estados Partes das Convenções de Genebra têm duas opções para integrar o emblema digital nas leis da guerra. A primeira seria modificar o Anexo I do Protocolo Adicional I de 1977. A segunda seria negociar um quarto protocolo adicional – em um processo mais longo e complexo.
Edição: Virginie Mangin/fh
Adaptação: Clarissa Levy
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