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Neutralidade ajuda a Suíça a atrair gigantes de IA

A Agência Espacial Europeia (ESA) inaugurou o Centro Europeu de Inovação em Deep Tech Espacial (ESDI) a 27 de maio de 2025, no Switzerland Innovation Park Innovaare, em Villigen.
Em maio de 2025, a Agência Espacial Europeia (ESA) inaugurou o Centro Europeu de Inovação em Deep Tech Espacial (ESDI) no Switzerland Innovation Park Innovaare, em Villigen. Este evento marca a primeira presença permanente da ESA na Suíça. Keystone / Michael Buholzer

A Suíça se consolida como um dos principais polos mundiais de inteligência artificial, atraindo empresas como Google, OpenAI, Anthropic e startups graças à concentração de talentos, regulação pragmática e neutralidade política.

A Suíça desponta, de forma discreta, como um dos principais polos mundiais de talentos em inteligência artificial (IA).

Enquanto a crescente corrida pela liderança em inteligência artificial (IA) entre Estados Unidos e China domina as manchetes, a Suíça avança de forma silenciosa na disputa por talentos. Hoje, o país alpino concentra, proporcionalmente à população, o dobro de pesquisadores de IA em comparação com os Estados Unidos e outros polos concorrentes, como o Reino Unido.

Em menos de dois anos, OpenAI, Anthropic, o projeto Prometheus do empreendedor Jeff Bezos (Amazon) e um número crescente de startups estabeleceram ou expandiram suas pesquisas na Suíça, transformando a nação de menos de dez milhões de habitantes em um dos principais locais da indústria.

“Eu apostaria que, hoje, temos uma densidade maior de grandes corporações de tecnologia aqui do que em qualquer outro lugar do mundo”, afirmou Alexandre Meldem, da fundação Deep Tech Nation Switzerland, uma organização sem fins lucrativos criada em 2024 pelo banco UBS e pela empresa de telecomunicações Swisscom para promover a competitividade suíça em IA.

Em 2025, o país contava com mais de 110 pesquisadores e criadores de tecnologias de IA para cada 100 mil habitantes, a maior taxa do mundo, de acordo com o Relatório do Índice de IALink externo de Stanford 2026, publicado em abril.

Embora existam muitos motivos para esse sucesso, um que se destaca como tipicamente suíço é a história de neutralidade. À medida que a rivalidade geopolítica entre EUA, China e União Europeia (UE) pelo controle estratégico da IA esquenta, a política suíça de manter-se imparcial permite que o país trabalhe acima das divisões.

“A neutralidade política da Suíça não é apenas uma tradição diplomática”, disse Meldem. “Para empresas envolvidas em tecnologias de fronteira (inovações tecnológicas de última geração no limite do conhecimento), ela também pode representar uma vantagem estratégica.” Essa perspectiva tem ajudado a atrair investimentos do exterior, acrescentou.

Contudo, a neutralidade pode ser uma faca de dois gumes. A política suíça de imparcialidade militar, que inclui restrições a exportações de bens que possam ser usados em conflitos armados, gera receios de que as empresas sediadas no país enfrentem obstáculos para vender em mercados estrangeiros lucrativos. As fronteiras tênues entre tecnologia civil e militar, vistas de forma mais nítida no uso de drones civis adaptados nas guerras na Ucrânia e no Irã, aumentam ainda mais essas preocupações.

Ímã de investimentos

Zurique, que também é o centro financeiro do país, é o principal polo da indústria tecnológica da Suíça.

A maior cidade do país funciona como um ímã de investimentos devido à sua concentração de institutos de pesquisa de ponta, empresas inovadoras e trabalhadores qualificados. A ETH ocupa o primeiro lugar no ranking das universidades da Europa continental.

A filial da Google em Zurique tornou-se seu maior centro de engenharia fora dos EUA. AppleLink externo, OpenAILink externo, AnthropicLink externo e MicrosoftLink externo também ampliaram seus investimentos em pesquisa na cidade nos últimos dois anos, enquanto a Meta expandiu suas instalações, segundo relatos, para atender a operações de IA e pesquisa. O projeto Prometheus, de Jeff Bezos, acrescentou um escritório em Zurique às suas sedes em São Francisco e Londres.

Empresas de BigTech e IA na Grande Zurique
Empresas de tecnologia de ponta e de IA na região de Zurique. Image concept by ETH AI Center Visualization by Greater Zurich Area Ltd., 2025

A cidade também se mostra atraente para tecnologias alinhadas à IA.

Robotics and AI Institute, um grupo de pesquisa norte-americano fundado por Marc Raibert, criador da empresa Boston Dynamics, abriu no ano passado um centro europeu de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) em parceria com a ETH. No mesmo ano, a alemã Neura Robotics transferiu o desenvolvimento de seu robô humanoide 4NE1 para Zurique, citando o nível de inovaçãoLink externo já consolidado no setor local.

Regulamentação “flexível e pragmática”

Parte do atrativo decorre também da abordagem regulatória relativamente livre adotada pela Suíça.

O país adota uma postura “flexível e pragmática” em relação às novas tecnologias, preferindo observar os desdobramentos antes de impor barreiras regulatórias de imediato, afirmou Marc Pollefeys, professor de ciência da computação na ETH e diretor do Laboratório de Realidade Mista e IA da Microsoft.

Ao contrário da UE, a Suíça não elaborou uma legislação abrangente sobre IA, preferindo observar como outros países implementam suas regulamentações e aprender com essas experiências antes de decidir se novas regras são necessárias, explicou Pollefeys.

O país está reservando tempo para avaliar se as normas existentes em áreas como finanças e saúde são suficientes para lidar com o impacto das novas tecnologias, uma estratégia que garante mais espaço para as empresas inovarem e explorarem o que funciona em um mundo em rápida transformação.

A Suíça também é menos afetada pelas rivalidades entre as superpotências econômicas mundiais.

Em junho, o governo dos EUA bloqueou todo o acesso de estrangeiros ao principal sistema de IA de fronteira (modelos de inteligência artificial mais avançados e potentes do mercado) da Anthropic, forçando a empresa a retirá-lo do mercado sem aviso prévio. O governo chinês também exige que as empresas submetam seus modelos à aprovação prévia, enquanto Apple, Meta e a francesa Mistral AI criticaram a complexa regulamentação europeia.

“Controvérsias recentes envolvendo laboratórios de IA nos EUA jamais aconteceriam na Suíça”, disse Meldem, acrescentando que esse tipo de turbulência política e regulatória causa “um impacto profundo na direção de P&D e nos custos de conformidade (gastos financeiros necessários para cumprir leis, normas e regulamentações) das empresas de tecnologia de IA”.

No exemplo mais recente, o lançamento de uma IA de alto desempenho na China neste mês reavivou os esforços dentro do governo dos EUA para proibir modelos de código aberto estrangeiros, informou o veículo de notícias online norte-americano Axios.

Tais acontecimentos contrastam com a neutralidade tecnológica, a regulamentação pragmática e o ambiente estável da Suíça, tornando-a “um local ideal para desenvolver tecnologias profundas ou “deep tech” (tecnologias disruptivas baseadas em avanços científicos e de engenharia de alta complexidade), tais como IA, robótica, biotecnologia e engenharia avançada”, ressaltou Meldem.

Neutralidade militar

Porém, a neutralidade suíça também pode trazer desvantagens para os negócios.

A Lei Federal sobre Material de Guerra do país, que data de meados da década de 1990, estabelece controles sobre a exportação de produtos de uso duplo (tecnologias desenvolvidas para fins civis que também podem ser aplicadas para fins militares). Por definição, a IA e o aprendizado de máquina (ramo da inteligência artificial que permite aos computadores aprenderem e tomarem decisões a partir de dados) podem ser empregados para ambos os propósitos.

“Os domínios civil e militar estão cada vez mais entrelaçados”, escreveu Leo Eigner, pesquisador sênior do Centro de Estudos de Segurança da ETH, em um artigo publicado no site da universidade. “Debates acadêmicos confirmam a natureza de uso duplo de quase toda a pesquisa, especialmente em IA, biotecnologia e outras tecnologias críticas.”

A legislação suíça proíbe a exportação de equipamentos militares para nações envolvidas em conflitos, bem como a reexportação de material militar fabricado com mais de 50% de componentes de origem nacional.

Alguns países europeus já evitaram empresas de defesa suíças devido a problemas no acesso a munições para uso na guerra da Ucrânia. Essas ações levaram o parlamento em Berna a relaxar, este ano, as regulamentações de exportação para 25 nações amigas.

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Ainda assim, áreas como computação quântica (tecnologia de processamento de dados baseada em princípios da física quântica para resolver problemas complexos muito mais rápido do que computadores tradicionais), fabricação avançada de semicondutores, IA e manufatura aditiva (processo de fabricação industrial que cria objetos camada por camada, como a impressão 3D) continuam sujeitas aos controles de exportaçãoLink externo mais rígidos aplicados a tecnologias de uso duplo, introduzidos por legislação em 2025.

Empresas envolvidas na pesquisa e no desenvolvimento de tecnologia de defesa e de tecnologias de uso duplo podem ser afetadas, de acordo com Pollefeys. Os obstáculos legais podem limitar o acesso a grandes contratos com os EUA, a UE ou a OTAN, levando inclusive empresas a deixarem o país.

Impulsão do setor de defesa

No final de 2024, a DestinusLink externo, uma empresa fundada na Suíça especializada em tecnologia de aeronaves hipersônicas e aeroespaciais, transferiuLink externo sua sede da Suíça para os Países Baixos devido a potenciais encomendas multimilionárias de seus drones avançados por parte da OTAN e da UE.

“Com a sede de uma holding na Suíça, não conseguiríamos nos beneficiar disso”, declarouLink externo o fundador Mihail Kokorić à revista Bilanz, embora tenha acrescentado que os trabalhadores no país não seriam afetados. A Destinus informou à Swissinfo que a mudança foi motivada por uma série de considerações, incluindo estar mais próxima de clientes, parceiros industriais e cadeias de suprimentos, além de se aproximar dos programas de defesa europeus.

Outra empresa que se mudou foi a AuterionLink externo, uma spin-off da ETH, que desenvolveu o padrão de piloto automático de código aberto PX4, adotado por centenas de fabricantes de drones e utilizado em áreas que vão da agricultura, topografia e logística ao setor militar.

A fabricante de software mudou-se para Munique, na Alemanha, e Arlington, na Virgínia, com uma proximidade de Washington DC que a colocou “no epicentro da inovação e das políticas de defesa”, afirmou a Auterion em comunicado na época. A empresa não abordou a questão do potencial impacto dos controles de exportação suíços em resposta às perguntas da Swissinfo, mas declarou que “continua mantendo suas operações civis em Zurique”.

A Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos (SECOLink externo, na sigla em alemão) informou que não poderia comentar sobre “empresas individuais ou suas decisões relativas à localização corporativa”.

Talento continua sendo sigiloso

Apesar dos obstáculos em aquisições militares, a Suíça permanece atraente para muitos profissionais da IA e campos correlatos devido à sua grande reserva de cientistas e engenheiros. O país também é um importador líquido desse tipo de talento, figurando entre os cinco principais destinos para pesquisadores de IA.

Isso se tornou ainda mais relevante após a intensificação do combate à imigração por parte do governo dos EUA, bem como a restrição a vistos de trabalho para funcionários estrangeiros qualificados. Os EUA registraram uma queda de 80% na entrada de talentos em IA no último ano, de acordo com o relatório do Índice de IA de Stanford.

“A Suíça não possui apenas uma forte reserva local de talentos, mas também é capaz, em parte graças à sua neutralidade política e cultural, de atrair os melhores especialistas da UE, dos EUA e do Oriente Médio”, afirmou Pollefeys, “algo que muitas outras partes da Europa e do mundo ainda lutam para alcançar”.

Apesar de seu sucesso em atrair empresas globais de tecnologia e talentos, a Suíça ainda enfrenta dois desafios estruturais, de acordo com Meldem e Pollefeys: energia e capital de crescimento.

À medida que mais empresas de tecnologia estabelecem centros de P&D na Suíça e firmas como Microsoft, Google e Amazon expandem seus investimentos em nuvem e em centros de processamento de dados, a demanda por treinamento de IA e computação em nuvem vem pressionando cada vez mais os recursos energéticos.

Os centros de dados já consomem de 6% a 8% da eletricidade da Suíça, parcela que pode atingir 15% até 2030. Pollefeys argumenta que a Suíça precisa atender às demandas de energia dos centros de dados e da computação de alto desempenho se espera se tornar o principal polo de IA da Europa.

Outro desafio de longo prazo pode ser o acesso ao capital. Embora a Suíça se destaque em pesquisa e inovação e produza muitas startups promissoras, o país enfrenta dificuldades para transformá-las em líderes tecnológicas globais. Como observou Meldem, setores de deep techLink externo, como IA, robótica e computação quântica, exigem investimentos substanciais de longo prazo.

Faltam à Suíça os grandes fundos de investimento e o capital de risco necessários para transformar a excelência em pesquisa em empresas de tecnologia globalmente competitivas. Se a Suíça conseguirá fortalecer o acesso ao capital de crescimento e impulsionar as condições para a comercialização de tecnologia será crucial para sua competitividade futura.

Edição: Tony Barrett/vm/dos

Adaptação: Alexander Thoele

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