Exposição em Nova York revela origem suíça do “motion design”
Uma exposição em Nova York resgatou mais de 200 filmes experimentais produzidos entre as décadas de 1960 e 1990 na Escola de Design da Basileia, revelando como os princípios do motion design já eram explorados muito antes da era digital.
No 19º andar de um arranha-céu em Lower Manhattan, a palavra EAU, em letras brancas de traços espessos, cintila sobre uma tela negra. À sua frente, H2O aparece em preto contra um fundo branco. Música ambiente flutua pelo espaço enquanto os visitantes permanecem diante das projeções.
A exposição Frame in Frame – Swiss Design in Motion foi apresentada no mês passado, como parte da NYCxDESIGN, pelo Consulado-Geral da Suíça em Nova York. Ela ofereceu ao público norte-americano um primeiro contato com um capítulo menos conhecido da história do design suíço – um capítulo que ajudou a moldar o desenvolvimento do design em movimento (motion design).
Tendo como pano de fundo as amplas panorâmicas do East River e dos arranha-céus da cidade, uma instalação multimídia de vídeo e áudio exibe mais de duzentos curtas-metragens experimentais redescobertos, criados na Escola de Design de Basileia entre o final da década de 1960 e os anos 1990. O design em movimento, que anima elementos gráficos como textos, imagens e interfaces, tornou-se uma das linguagens visuais definidoras da era digital. Contudo, muitas de suas ideias fundamentais já estavam sendo exploradas décadas antes nos filmes apresentados ao longo da instalação.
A exposição tanto reflete quanto expande as ideias convencionais sobre o design suíço, como “modularidade, ângulos retos, ausência de ornamentos, design puro, linhas retas”, afirma o curador Christian Herren. “Não queríamos romper com essa imagem, mas acrescentar algo novo à história.”
Em vez de apresentar os filmes de forma fixa e linear, Herren trabalhou com uma equipe de artistas e designers para criar uma instalação imersiva que combina projeções cinematográficas, luz, som e exemplos icônicos do mobiliário e do design suíços.
Reunindo obras de diferentes épocas, a exposição estabelece uma ponte entre passado e presente, ao mesmo tempo que destaca as relações entre design gráfico, imagem em movimento e design de produto. Para concretizar o projeto, Herren colaborou com os artistas Daan Couzijn e Julia Schäfer, os designers Ben Ganz e Panter & Tourron, além de incluir mobiliário das empresas Vitra, USM, Ruckstuhl e Lehni.
Tempo é quadro
Os filmes foram realizados por estudantes do curso pioneiro de cinema e design da Escola de Design de Basileia, criado em 1968 por iniciativa de Armin Hofmann e posteriormente desenvolvido e dirigido por Peter von Arx, ambos figuras centrais do design gráfico suíço. O programa foi um dos primeiros a abordar a imagem em movimento a partir da perspectiva do design gráfico, respondendo ao surgimento da televisão e das novas mídias eletrônicas da época, sendo frequentemente considerado um precursor do que hoje se conhece como motion design.
O curso aplicava os princípios associados ao design suíço à imagem em movimento, tratando a tipografia, o ritmo e a sequência como elementos construtivos, e não como dispositivos narrativos. Os estudantes eram treinados para pensar em termos do quadro e de sua organização no tempo. Os filmes resultantes apresentam sequências cintilantes de imagens, mudanças mínimas e sobreposições de cor e forma: de edifícios em preto e branco captados em movimento a copas de árvores ondulantes e lábios vermelhos entreabertos.
“Ficamos muito tocados com o quanto eles parecem contemporâneos e com a forma como também dialogam com a época em que vivemos”, afirmou Herren.
Para criar os filmes, explicou von Arx em uma entrevista, os estudantes desenvolviam primeiro modelos visuais, como tipografias ou estruturas em grade, e depois utilizavam uma espécie de “partitura” para mapear como esses elementos se alternariam, se deslocariam ou se transformariam ao longo do tempo.
Trabalhando com uma câmera cinematográfica, eles então fotografavam cada quadro individualmente, num processo extremamente meticuloso, sem ver o resultado final até que o filme fosse projetado e a sequência finalmente se convertesse em movimento. “O objetivo educacional desse programa, dentro do ensino de design gráfico, era a criatividade: projetar sem ainda conhecer o resultado”, afirmou von Arx.
Décadas mais tarde, os filmes foram redescobertos, em 2012, quando a escola se preparava para mudar de sede, contou von Arx. Ao longo de cerca de dois anos, ele e seus colegas revisaram todo o acervo e decidiram quais materiais deveriam ser preservados. O arquivo que sobreviveu totaliza 27 horas de projeção. Os filmes foram restaurados e digitalizados com o apoio da Memoriav e da Universidade de Artes e Design de Basileia (FHNW), e agora estão acessíveisLink externo ao público.
“Graças a esse esforço de digitalização, os filmes ainda podem ser vistos hoje”, afirmou von Arx. “Mais importante ainda, eles continuam capazes de gerar as experiências ópticas únicas e surpreendentes que provocavam quando foram criados.”
Reação à propaganda
O design em movimento suíço desenvolveu-se a partir das tradições do design gráfico suíço em meados do século XX. O trabalho dos designers das décadas de 1950 e 1960, que viria a ser conhecido internacionalmente como Estilo Suíço (Swiss Style), caracterizava-se por uma linguagem visual depurada, baseada no uso da fotografia e de símbolos gráficos em vez de ilustrações, em paletas cromáticas restritas, em fontes sem serifa – como a Helvetica – e no uso de sistemas de grade e composições limpas e assimétricas.
Após a Segunda Guerra Mundial, os designers gráficos suíços passaram a buscar cada vez mais uma abordagem objetiva da comunicação, explica Michael Renner, professor de Comunicação Visual do Instituto de Ambientes Digitais de Comunicação da Academia de Arte e Design de Basileia (FHNW). O objetivo era criar mensagens visuais destinadas a informar, e não a seduzir ou persuadir o espectador.
“Essa ênfase na objetivação das mensagens visuais foi, por um lado, uma reação à experiência da propaganda e, por outro, um esforço para estabelecer o design gráfico como uma disciplina distinta da arte”, afirmou.
Essas ideias foram posteriormente estendidas à imagem em movimento e continuaram a moldar o design em movimento, evoluindo das primeiras animações cinematográficas para a tecnologia de vídeo e, mais recentemente, para as plataformas digitais e as redes sociais. Hoje, o motion design está em toda parte, orientando os usuários em aplicativos, sites, sistemas de transporte, campanhas publicitárias e muito mais.
“O surgimento das grandes corporações, a expansão da indústria cinematográfica e a crescente necessidade de explicar um mundo que se tornava cada vez mais complexo contribuíram para a importância do design em movimento suíço como parte da tradição mais ampla do design gráfico suíço”, afirmou Renner.
O curso de cinema e design da Escola de Design de Basileia também contribuiu para essa influência ao atrair alunos de diversas partes do mundo. Muitos retornaram a seus países de origem levando consigo elementos da abordagem suíça e incorporando-os às suas próprias práticas profissionais.
Entre os nomes ligados à escola estão designers como April Greiman, Philip Burton e Terry Irwin. Outra ex-aluna é a artista multidisciplinar e ativista norte-americana Marlene McCarty, que mais tarde criaria sequências de créditos para filmes como Psicopata Americano (American Psycho), Hedwig and the Angry Inch e Velvet Goldmine.
“Quando você observa a lista de estudantes que passaram por lá e o que fazem hoje, encontra artistas plásticos, designers gráficos, cineastas, diretores de fotografia, criadores de sequências de créditos e até arquitetos que aplicam tais técnicas na criação de modelos. O alcance é realmente muito amplo”, disse Herren.
No momento, não há planos para apresentar a exposição em outros locais, mas Herren espera que os filmes continuem repercutindo para além de sua temporada em Nova York e despertem interesse duradouro pelo design em movimento suíço.
Segundo ele, a expectativa é que os visitantes saiam da exposição com vontade de explorar mais o tema. “Talvez procurem ler sobre o assunto. Talvez visitem o arquivo digital e utilizem esses materiais em algum momento. Talvez isso os inspire.”
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Edição: Catherine Hickley/ds
Adaptação: Karleno Bocarro
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