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Trump, Lula e o Brasil entre cartéis, floresta e trabalho

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Um homem observa os corpos das pessoas mortas no dia anterior durante uma operação policial contra o Comando Vermelho no Complexo da Penha, em 29 de outubro de 2025. Keystone/Swissinfo

A decisão dos Estados Unidos de classificar facções brasileiras como organizações terroristas abriu uma nova frente de tensão diplomática com o governo Lula. Enquanto isso, o Brasil aparece na imprensa suíça também por avanços ambientais na Amazônia e por uma histórica reforma trabalhista que pode acabar com a semana de seis dias de trabalho.

Com o calor tomando conta da Suíça nesta última semana — e termômetros ultrapassando os 30 graus em várias cidades do país — a imprensa do país voltou os olhos para um Brasil atravessado por disputas muito diferentes entre si. De um lado, o embate diplomático entre Donald Trump e Lula sobre o combate ao crime organizado. De outro, sinais positivos na queda do desmatamento amazônico. E, no meio disso tudo, uma mudança histórica nas regras de trabalho que pode transformar a rotina de milhões de brasileiros. Nesta edição da Revista de Imprensa, reuni alguns dos temas que mais repercutiram nos jornais suíços nos últimos dias.

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Washington endurece contra facções brasileiras

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como “organizações terroristas estrangeiras” dominou a cobertura da imprensa suíça sobre o Brasil. Jornais como Le TempsLink externo, Tages-AnzeigerLink externo e 24HeuresLink externo destacam que a medida foi tomada apesar da oposição explícita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo o governo Trump, as duas facções estão entre as organizações criminosas mais violentas da América Latina e atuam para além das fronteiras brasileiras, inclusive com ramificações ligadas ao tráfico internacional de drogas que chegam aos Estados Unidos e à Europa. O secretário de Estado Marco Rubio afirmou que os grupos “orquestraram ataques brutais” contra policiais, funcionários públicos e civis.

Os jornais suíços observam que a decisão vai muito além de uma questão simbólica. A classificação como organização terrorista permite aos EUA ampliar sanções financeiras, restringir circulação internacional e até abrir espaço jurídico para operações militares externas no futuro. É justamente esse o temor do governo brasileiro.

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Homem dentro de contâiner.

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Demografia

Suíça: um centro insuspeito no comércio internacional de cocaína

Este conteúdo foi publicado em Portos suíços no Reno são cruciais para o comércio entre Roterdã e Basileia. Alfândega de Basileia realiza inspeções seletivas, especialmente em contêineres da América do Sul devido ao tráfico de cocaína. Desafio constante para garantir segurança nas fronteiras e no comércio internacional.

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A imprensa suíça enfatiza que Lula tentou impedir a medida argumentando que, segundo a legislação brasileira, CV e PCC não possuem motivação ideológica ou política — requisito tradicionalmente associado ao terrorismo. Brasília teme que a nova classificação sirva de justificativa para ações mais agressivas dos Estados Unidos na região.

O Le Temps também chama atenção para o fator político interno brasileiro. A decisão veio dias depois de Flavio Bolsonaro ter se reunido informalmente com Donald Trump na Casa Branca e pedido pessoalmente que as facções fossem enquadradas como terroristas. O jornal destaca que a aproximação reforça os laços políticos entre o trumpismo e o bolsonarismo em plena campanha presidencial brasileira.

Os jornais suíços também lembram que Trump vem ampliando sua estratégia militar contra cartéis latino-americanos. Venezuela, México e Equador já tiveram grupos classificados como organizações terroristas pelos EUA. A criação de uma “coalizão militar” regional para combater o narcotráfico, anunciada por Trump em março, é vista na Europa com preocupação crescente.

Fonte: Le TempsLink externo, 24HeuresLink externo, 29.05.2026 (francês); Tages-AnzeigerLink externo, 29.05.2026 (alemão)

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Apesar da queda recente no desmatamento, a Amazônia continua perdendo áreas gigantescas de floresta sob pressão da expansão agrícola e da exploração ilegal. Copyright 2022 The Associated Press. All Rights Reserved

Amazônia registra menor desmatamento desde 2019

Em contraste com a tensão diplomática envolvendo segurança e narcotráfico, a imprensa suíça também destacou uma notícia positiva para o governo Lula: a queda do desmatamento na Amazônia brasileira.

Jornais como 24HeuresLink externo e Le TempsLink externo repercutiram os novos dados divulgados pela rede de monitoramento MapBiomas, que apontam uma redução de mais de 20% da área desmatada no Brasil em 2025. Pela primeira vez desde 2019, a devastação anual ficou abaixo de um milhão de hectares.

Na Amazônia, a redução foi ainda mais expressiva: quase 24% em relação ao ano anterior. Os jornais destacam que se trata do menor nível de devastação desde o início dos levantamentos recentes, embora o ritmo continue preocupante — equivalente, segundo o relatório, à perda de cerca de cinco árvores por segundo.

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A imprensa suíça relaciona diretamente essa melhora ao retorno das políticas de fiscalização ambiental reforçadas pelo governo Lula após os anos Jair Bolsonaro. O coordenador técnico da MapBiomas, Marcos Rosa, afirmou que o aumento das sanções e do controle estatal teve impacto direto na redução do desmatamento em praticamente todos os biomas brasileiros.

Apesar dos números positivos, os jornais também ressaltam as contradições da política ambiental brasileira. Ambientalistas demonstram preocupação com projetos aprovados recentemente pela Câmara dos Deputados que flexibilizam regras ambientais e reduzem mecanismos de controle. O Cerrado continua sendo o bioma mais afetado pela expansão agrícola, concentrando mais da metade da área desmatada do país.

A cobertura suíça destaca ainda que Lula tenta consolidar uma imagem ambiental forte antes da eleição presidencial de outubro, embora continue sendo criticado por apoiar projetos de exploração de petróleo na região amazônica.

Fonte: 24HeuresLink externo, Le TempsLink externo, 27.05.2026 (francês)

Brasil pode acabar com semana de seis dias de trabalho

Outro tema que chamou atenção da imprensa suíça foi a aprovação, pela Câmara dos Deputados, da proposta que reduz a jornada semanal de trabalho no Brasil e estabelece dois dias obrigatórios de descanso.

Jornais como 24Heures Link externoe Berner Zeitung Link externodestacaram a votação histórica da Câmara dos Deputados, que abre caminho para a adoção oficial da semana de 40 horas sem redução salarial.

Caso o Senado confirme a medida, será a primeira grande redução da jornada de trabalho no país desde a Constituição de 1988. Atualmente, muitos brasileiros trabalham no sistema conhecido como “6×1”, com apenas um dia de descanso semanal.

Os jornais suíços ressaltam o forte impacto social da proposta. Segundo os dados citados pela imprensa, cerca de 37 milhões de trabalhadores seriam diretamente afetados pela mudança. A nova regra garantiria dois dias consecutivos de descanso, preferencialmente sábado e domingo.

O Berner Zeitung enfatiza que as empresas terão apenas 14 meses para adaptar suas escalas de trabalho, apesar da pressão do setor empresarial por um prazo de transição muito maior. Já o 24Heures destaca o discurso do presidente Lula em defesa da reforma e o argumento dos sindicatos de que o atual modelo prejudica a saúde mental e a qualidade de vida dos trabalhadores.

Os jornais também deram espaço às críticas do empresariado e de setores conservadores, que alertam para aumento de custos, perda de competitividade e possíveis impactos negativos no emprego. A imprensa suíça observa ainda que a reforma ganhou forte dimensão eleitoral, tornando-se uma das principais bandeiras sociais de Lula antes da eleição presidencial de outubro.

A cobertura suíça contextualiza o Brasil dentro de um movimento regional mais amplo. México e Chile também caminham para jornadas semanais de 40 horas, enquanto a Argentina do presidente Javier Milei discute propostas para ampliar a carga horária e flexibilizar ainda mais as relações de trabalho.

Fonte: 24HeuresLink externo, 28.05.2026 (francês) e Berner ZeitungLink externo, 28.05.2026 (alemão)

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