Extradição alimenta debate
A imprensa suíça, em sintonia com os países ocidentais, aplaude a extradição de Slobodan Milosevic, o "carniceiro dos Bálcãs", acusado de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade. Destaca porém que Milosevic foi "comprado sob pressão financeira" e que foi desrespeitado o direito de um país redemocratizado.
O ex-líder sérvio, Slobodan Milosevic, será levado, no início da semana que vem, perante os juízes do Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, cidade em que se encontra preso desde a manhã de sexta-feira, 29/6.
A extradição foi acelerada pelas autoridades iugoslavas, no sentido evidente de satisfazer às exigências dos Estados Unidos e outros países ocidentais, que impuseram como condição de ajuda econômica a Belgrado, a entrega de Milosevic, que se encontrava preso em Belgrado desde abril. Os EUA chegaram a ameaçar não participar do encontro. A entrega do ex-presidente sérvio aconteceu na véspera da reunião dos países doadores, na sexta-feira, 29/6, em Bruxelas.
Milosevic foi então “vendido” ao TPI por um pacote de dólares, fato que é destacado pelos principais jornais suíços e europeus, por exemplo, no Tages Anzeiger, de Zurique. O Neue Zürcher Zeitung (também de Zurique) aponta uma contradição na medida: para aplicar a Justiça, pisoteria-se a Justiça, alusão ao fato de ter sido ignorada a decisão do Parlamento e do Supremo Tribunal iugoslavos que se pronunciaram contra a medida.
O jornal Le Temps, de Genebra, estima que a entrega de Milosevic pelo governo iugoslavo faz com que “o nacionalista de Belgrado responda de sua política criminosa”. Realça que a medida pode ter “efeito preventivo e pedagógico” na Macedônia e em Kosovo (que estão no mesmo caminho) indicando que os criminosos de guerra não ficarão impunes. Mas questiona as “condições discutíveis dessa transferência”.
O jornal La Liberté, de Fribourg, destaca que para “uma Iugoslávia arruinada” tratava-se de uma questão de sobrevivência. Com a guerra em Kosovo e a intervenção da OTAN (a aliança militar ocidental), a Sérvia está em frangalhos: fábricas e estradas destruídas, serviços públicos miseráveis, desemprego que ultrapassa os índices oficiais de 28% e uma dívida externa de 12 bilhões de dólares, num país de 10 milhões de habitantes.
Em conseqüência, a extradição de Slobodan Milosevic à Holanda não se justifica do ponto de vista jurídico, mas se entende. E apresenta-se como apenas um capítulo na tragédia iugoslava, desencadeada há dez anos pelas ambições de Milosevic, hoje no banco dos réus, de criar uma Grande Sérvia pela guerra e a limpeza étnica.
No momento, a principal preocupação do governo iugoslavo é receber US$ 1.3 bilhão de dólares dos países doadores. As necessidades nos 4 próximos anos exigiriam o triplo.
J.Gabriel Barbosa
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