Calor leva Suíça a rever restrições ao ar-condicionado
Depois de um verão marcado por calor extremo, a Suíça discute se deve flexibilizar as regras para instalação de ar-condicionado em casas, hospitais, escolas e casas de repouso. Embora especialistas reconheçam a importância da climatização, alertam que o debate deve incluir também soluções passivas.
Essa foi uma pergunta frequente durante o intenso verão deste ano. Usuários nas redes sociaisLink externo, turistas estrangeiros nas recepções dos hotéis e pacientes internados em hospitais se indagaram: por que se usa tão pouco o ar-condicionado na Suíça?
No país, os aparelhos de climatização são, de fato, uma exceção. Em muitos cantões (estados), a instalação de aparelhos de ar-condicionado do tipo split (sistema dividido em dois módulos, com uma unidade interna evaporadora e outra externa condensadora) é regulada por normas rigorosas de eficiência energética, proteção ambiental e planejamento urbano. Contudo, pesquisas de opinião realizadas na EuropaLink externo e na Suíça indicam que a maioria da população apoia a flexibilização dessas exigências.
“Na Suíça, o calor atualmente já faz mais vítimas do que os acidentes de trânsito”, afirmaLink externo Arno Schlüter, professor de arquitetura e sistemas prediais na Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH). O ar-condicionado ganhará relevância contínua, em especial para resguardar a população mais vulnerável em hospitais, lares de idosos e escolas. Climatizar cada residência e escritório, no entanto, não representa uma saída sustentável, aponta o especialista.
Assim como na França e na Alemanha, a pauta do ar-condicionado ganha peso político no país, motivando projetos de lei em diversos níveis políticos. O Parlamento federal debaterá o tema, em conjunto com outras questões associadas ao calor e à estiagem, durante sessão especial agendada para 30 de setembro.
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Mais climatização para proteger vulneráveis
O Partido do Povo Suíço (SVP, na sigla em alemão) defende a flexibilização das restrições vigentes no país. Por meio de uma iniciativa parlamentarLink externo (proposta de alteração de lei apresentada formalmente por um legislador), o deputado-federal Thomas Burgherr sugere alterar a base jurídica para dispensar de autorização prévia a instalação de climatizadores split.
O parlamentar argumenta que a ausência de ar-condicionado traz impactos negativos para a economia: os trabalhadores iniciam a jornada menos descansados, os hóspedes de hotéis demonstram insatisfação com a infraestrutura suíça e as altas temperaturas nos parques fabris elevam o perigo de acidentes.
Os sistemas modernos de climatização, argumenta ele, operam com impacto ambiental muito inferior ao registrado no passado. Durante o verão, esses equipamentos podem ser alimentados por energia solar fotovoltaica (eletricidade gerada a partir da luz do sol), cuja oferta é abundante no período.
A instalação de sistemas de resfriamento para proteção da população precisa ser tratada como prioridade máxima, segundo o Partido Liberal Radical (PLR). Uma moçãoLink externo (proposição que solicita ao governo a adoção de medidas ou diretrizes específicas) protocolada em meados de setembro pede a criação de um processo simplificado de notificação, nos moldes do procedimento aplicado à instalação de painéis solares.
O objetivo do projeto envolve também desestimular o uso de climatizadores portáteis. Esses modelos móveis dispensam licença, mas registram eficiência energética inferior e consomem mais eletricidade em comparação às instalações fixas.
Os partidos de esquerda e ecológicos, historicamente contrários à disseminação do ar-condicionado, passaram a admitir a tecnologia em contextos específicos. Esse setor reconhece a necessidade de estender a climatização a hospitais, asilos e escolas, conforme analisa a correspondente da RTS (Radiotelevisão Suíça francófona) em Berna.
O ar-condicionado eleva o conforto térmico nas jornadas mais quentes e diminui os riscos de saúde associados ao calor extremo. O uso da tecnologia, por outro lado, expande a demanda elétrica e agravaLink externo o aquecimento global. Em termos mundiais, os equipamentos de ar-condicionado absorvem cerca de 7% de toda a energia elétrica produzida e geram 3% das emissões de CO2 (dióxido de carbono, principal gás do efeito estufa).
Ar-condicionado apenas com laudo médico
Na Suíça, menos de uma em cada dez residências conta com instalação fixa de ar-condicionado. A fatia fica abaixo da média europeia, situada em torno de 20%. Nos Estados Unidos e no Japão, a cobertura chega a quase 90% dos domicílios.
Instalar um ar-condicionado fixo na Suíça pode ser um processo burocrático complexo quando comparado ao dos países vizinhos. Não vigora uma legislação federal unificada: as licenças são reguladas por leis cantonais e por diferentes disposições energéticas e ambientais.
Na maior parte dos cantões, o cidadão precisa obter alvará de construção ou aprovação energética. Genebra adota as normas mais severas: quem pretende instalar uma unidade fixa necessita por vezes comprovar real necessidade mediante atestado médico. Em Friburgo e Neuchâtel, a regra impõe compensar a energia consumida pelo aparelho com energia renovável gerada no próprio local.
Apesar das travas burocráticas, as vendas de modelos split avançam na Suíça em ritmo gradual, com crescimento aproximado de 2% ao ano, segundo dados da Associação Suíça dos Produtores e Fornecedores de Sistemas de Calefação, Ventilação e Climatização.
Pouco ar-condicionado nos hospitais
O ar-condicionado permanece pouco disseminado até mesmo em estabelecimentos dedicados ao cuidado de indivíduos vulneráveis. Uma investigação veiculada em junho pelo portal de notícias Schweiz HeuteLink externo revela que quartos de internação com climatização ainda são exceção nos grandes hospitais suíços. O Hospital Universitário de Genebra registrou temperaturas internas acima de 30 °C em alas estruturalmente antigas.
O impacto atinge pacientes internados e equipes médicas. Algumas unidades hospitalares enfrentaram as ondas de calor com aparelhos portáteis, ventiladores e adaptação de salas refrigeradas provisórias para abrigar enfermos mais debilitados.
O superaquecimento atinge sobretudo edifícios antigos e construções tombadas pelo patrimônio histórico. A adaptação de sistemas de refrigeração precisa acomodar limitações de engenharia civil, exigências sanitárias e parâmetros de segurança dos internados, explica Tomas Honegger, porta-voz do Inselspital, o Hospital Universitário de Berna. Os climatizadores, por exemplo, elevam os riscos de proliferação bacteriana.
Em alas hospitalares recém-construídas, a climatização tornou-se um item padronizado, complementa Honegger. “As áreas de internação nos blocos modernos são em sua quase totalidade, se não plenamente, climatizadas.” Cerca de 75% dos prédios do Inselspital, reformados nos últimos anos, possuem refrigeração central.
Alternativas para proteger idosos
O panorama se repete nos lares de longa permanência. “O uso de climatização generalizada nos quartos dos residentes não configura a regra”, ressalta Christina Zweifel, porta-voz da Curaviva, associação setorial que representa instituições de atendimento a idosos. Diversos lares dão preferência a reestruturações operacionais, proteções solares e outras estratégias de resfriamento passivo (técnicas construtivas e naturais que atenuam o calor sem consumo de eletricidade).
Os asilos detêm capacidade de identificar quais ações atendem às suas particularidades, sejam intervenções arquitetônicas, tecnológicas ou gerenciais, pontua Zweifel. As instituições, entretanto, demandam agilidade regulatória e autorizações para executar mecanismos de proteção aos idosos durante as ondas de calor.
Não limitar a discussão
A Fundação Suíça de Energia (SES), organização voltada a pautas ecológicas, admite que o ar-condicionado pode funcionar como alternativa viável, e em momentos de exceção imprescindível, para combater temperaturas extremas. A entidade defendeLink externo, contudo, que a tecnologia só seja adotada após a implantação de intervenções de resfriamento passivo.
Para Arno Schlüter, professor da ETH, o clima suíço permite obter alívio térmico por meio de ações de baixo custo, como sombreamento preventivo, ventilação cruzada no período noturno, ventiladores para induzir circulação do ar e readequação das rotinas diárias.
A defesa contra o calor extremo requer planejamento urbano integrado ao clima, modernização de infraestruturas e expansão de áreas verdes. Diante disso, avalia Schlüter, o debate não deve focar apenas a compra de ar-condicionado, mas sim a busca do bem-estar térmico global das pessoas no ambiente construído. “Essa mudança exige uma transformação de perspectiva.”
Edição: Balz Rigendinger
Adaptação: Alexander Thoele
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