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Brics investigam domínio de tradings no comércio de grãos

grão
EPA/RAMINDER PAL SINGH

Autoridades de concorrência dos Brics criaram em Genebra uma força-tarefa para investigar a dominância das maiores tradings no comércio global de grãos. Liderada por Brasil e Egito, a apuração mira multinacionais do setor.

Em 9 de julho, autoridades de defesa da concorrência dos países do BRICS reuniram-se a portas fechadas em Genebra, na sede da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). O objetivo da reunião era enfrentar o domínio de mercado dos maiores operadores do comércio mundial de cereais: ADM, Bunge, COFCO, Cargill e LDC (conhecidas coletivamente como ABCD+). A questão é de importância estratégica para os países do BRICS, que respondem por cerca de 44% da produção mundial de grãos e 25% do consumo.

O BRICS é uma associação informal de 11 mercados emergentes composta pelo Brasil, China, Egito, Etiópia, Índia, Indonésia, Irã, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul e Emirados Árabes Unidos. Juntos, eles representam metade da população mundial e um quarto da economia global. O grupo foi criado em 2006, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. A primeira cúpula do BRICS foi realizada em 2009, em Ecaterimburgo, na Rússia.

O BRICS busca atuar como contrapeso à influência das potências ocidentais em instituições globais como o Conselho de Segurança da ONU e o Banco Mundial, e é visto por alguns como uma alternativa ao G7. O grupo também procura reduzir a dependência ao dólar como moeda global e promover uma maior cooperação entre os países do chamado Sul Global nas áreas de política econômica e comércio.

Em 2025, dez países parceiros passaram a integrar o BRICS: Bielorrússia, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã. Eles não são membros, mas podem participar das cúpulas do BRICS.

O resultado da reunião em Genebra foi a criação de uma força-tarefa do BRICS que preparará a primeira investigação setorial em conjunto sobre o comércio global de grãos. A força-tarefa será copresidida pelos chefes das autoridades de defesa da concorrência do Brasil e do Egito. A investigação é uma iniciativa inédita para o BRICS e representa a primeira cooperação multilateral desse tipo a desafiar o domínio de mercado no setor de matérias-primas.

Os resultados da investigação deverão ser apresentados na próxima Conferência Internacional do BRICS sobre Concorrência, prevista para acontecer no Brasil em setembro de 2027. O objetivo é melhorar a cooperação entre as autoridades de defesa da concorrência dos países do BRICS e identificar eventuais medidas adotadas pelas tradings de grãos que possam lhes conferir uma vantagem indevida. Dependendo do resultado da investigação, os membros do BRICS também poderão coordenar ações antitruste contra os grandes comerciantes de grãos.

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“Um pequeno número de empresas domina tanto pontos específicos da cadeia de abastecimento, como a compra de grãos, quanto tem negócios em várias etapas dessa cadeia. Simplificando: elas compram o cereal, produzem a farinha ou a ração e também são proprietárias da padaria ou do confinamento que compra a mercadoria processada”, afirma Sophia Murphy, diretor-executivo do Instituto de Comércio e Políticas Agrícolas (IATPLink externo), uma ONG internacional que promove sistemas sustentáveis de alimentação, agricultura e comércio.

Diversas estimativas indicam que as ABCD+ controlam entre 70% e 90% do comércio mundial de grãos. A Suíça é um polo importante desse comércio: estima-se que entre 35% e 50% dos cereais do mundo sejam comercializados a partir de escritórios sediados em Genebra ou nos arredores da cidade e em Zug, no centro da Suíça. Essas empresas atuam como intermediárias entre grandes exportadores de grãos do BRICS, como Rússia (trigo), Brasil (milho) e Índia (arroz), e grandes importadores do BRICS, como Egito (trigo), China (arroz) e Indonésia (trigo).

Embora suas margens sejam normalmente baixas (entre 1% e 3%), as grandes tradings de grãos compensam isso com a enorme escala de suas operações. Segundo um estudo recenteLink externo do coletivo de pesquisa ETC, a capacidade de armazenamento de grãos apenas da ADM, Bunge e COFCO equivale ao consumo anual combinado de trigo dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Turquia. Os grandes lucros são obtidos em períodos de volatilidade, como ocorreu durante a invasão russa da Ucrânia, em 2022.

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“Estamos diante de uma situação paradoxal em que os agricultores de países como Brasil e Rússia recebem uma remuneração insuficiente por seu trabalho, enquanto os consumidores do Egito pagam preços excessivamente elevados pelo pão. Onde se acumula a margem de lucro e quem se apropria de lucros desproporcionais ao longo das cadeias globais de valor dos grãos? Essas são as perguntas que nossa investigação setorial deverá responder”, afirmou Mahmoud Momtaz, presidente da Autoridade Egípcia de Concorrência (ECA), segundo relato citado durante a reunião do BRICS em Genebra.

Maior consolidação

Uma das razões pelas quais as autoridades reguladoras têm dificuldade para acompanhar as atividades das tradings de grãos é a complexidade e a falta de transparência de suas estruturas societárias. A maioria delas tem várias subsidiárias em diferentes partes do mundo para tirar partido de alíquotas tributárias mais baixas, taxas de câmbio favoráveis ou tarifas mais reduzidas. Segundo um relatório de 2023 da UNCTAD, órgão da ONU para o comércio, apenas três tradings (Cargill, ADM e COFCO) possuem, juntas, um total de 2.339 subsidiárias.

“Essa fragmentação permite que as tradings explorem pontos cegos da regulamentação, consolidando seu controle sobre infraestruturas essenciais, como transporte marítimo, armazenamento e dados”, afirma um estudoLink externo elaborado pelo Centro de Direito e Política da Concorrência dos BRICS, uma instituição de pesquisaLink externo apoiada pela Rússia e por outras agências antitruste dos países do BRICS.

Essa consolidação se acelera ainda mais quando duas grandes tradings unem forças. Em julho do ano passado, a trading suíça de grãos Bunge se fundiu com a holandesa Viterra, criando a maior fusão já realizada no setor agrícola mundial.

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A aprovação da autoridade de concorrência da China foi o último obstáculo antes que o acordo pudesse avançar. As regras chinesas de controle de fusões não se aplicam apenas às empresas chinesas, mas também a fusões entre empresas estrangeiras que possam afetar a concorrência nos mercados chineses. A Administração Estatal de Regulação do Mercado da China (SAMR) afirmou que a fusão poderia reduzir potencialmente a concorrência no mercado chinês de soja, canola e cevada importadas. A autoridade impôs condições para aprovar a operação, entre elas a garantia de um abastecimento confiável do mercado chinês mesmo em períodos de escassez de grãos e a apresentação trimestral dos volumes de vendas aos clientes chineses.

Plataformas digitais

Uma das áreas em que os países do BRICS veem vantagens na fiscalização conjunta são as plataformas digitais, como a Covantis, sediada em Genebra, que foi criada e financiada conjuntamente pelas tradings de grãos. A Covantis foi criada em 2020 pela ADM, Bunge, Cargill, COFCO International, LDC e Viterra para comercializar soja e milho do Brasil. Atualmente, é uma plataforma global de negociação digital, com mais de 945 milhões de toneladas métricas em volume de transações em 2025, abrangendo 63% dos volumes globais de grãos, oleaginosas e óleos vegetais. O relatório do Centro de Direito e Política da Concorrência dos BRICS critica essas plataformas digitais por aumentarem a capacidade das tradings de fazer previsões e monitorar o mercado. O relatório do ETC (Comerciantes de grãos, Ganância e Poder oligopolísticoLink externo) também chama a atenção para essas plataformas digitais.

“Usando análises impulsionadas por IA e plataformas de blockchain como a Covantis, elas monitoram as cadeias de abastecimento em tempo real e antecipam mudanças no mercado muito antes de seus concorrentes ou das autoridades reguladoras. Essa inteligência comercial exclusiva, inacessível a governos ou organismos multilaterais, confere às tradings uma vantagem decisiva para influenciar os mercados, enquanto permanecem em grande medida fora do escrutínio público”, afirma o estudo.

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Procurada pela Swissinfo, a Covantis negou que a plataforma confira uma vantagem competitiva às empresas que a fundaram.

“A Covantis é uma plataforma de alcance setorial, oferecida a um grande número de diferentes participantes e utilizada por eles em diversas funções no setor de comercialização de commodities de grãos e oleaginosas. Operamos de acordo com o princípio da igualdade de tratamento e não concedemos acesso privilegiado, direitos ou vantagens comerciais aos nossos acionistas ou às empresas a eles afiliadas”, afirmou a CEO da Covantis, Petya Sechanova.

Bolsa de cereais do BRICS

Os países do BRICS também trabalham na criação de um mercado próprio de grãos, com o objetivo de reduzir o domínio das tradings de commodities. Em 2023, a União Russa de Exportadores e Produtores de Cereais propôs a criação de uma bolsa de negociação de grãos entre os países do BRICS, cujo valor, segundo suas estimativas, poderia superar um trilhão de dólares. A ideia foi endossada na Declaração de Kazan da cúpula do BRICS de 2024 e pelos ministros da Agricultura do BRICS em 2025.

A proposta é concebida como um ecossistema digital que conectará plataformas nacionais de negociação. A bolsa definirá seus próprios preços de referência para os grãos, independentemente das bolsas ocidentais, como a ICE, e permitirá o uso de moedas locais na compra e venda de grãos, em vez do dólar. Até o momento, porém, a iniciativa permanece em fase conceitual, enquanto seus aspectos tecnológicos e operacionais ainda estão sendo definidos.

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Segundo Murphy, do IATP, uma bolsa de grãos é um passo poderoso e útil rumo à transparência dos preços, mas retirar as tradings de commodities da equação não eliminará a assimetria de poder entre vendedores e compradores de grãos.

“Preços transparentes são, por natureza, mais justos. Mas preços justos são, em certa medida, determinados de forma subjetiva, e a bolsa não mudará os desequilíbrios inerentes, como o inevitável desequilíbrio entre um número relativamente pequeno de vendedores e um número muito maior de compradores, a menos que estes agreguem seus interesses”, afirma.

Há também aspectos práticos que ainda não foram resolvidos. Entre eles estão a definição de quais as moedas que serão utilizadas, a forma como será administrado o risco cambial, quem prestará os serviços de compensação das transações e como serão garantidos os pagamentos internacionais.

Edição: Virginie Mangin/gw

Adaptação: Karleno Bocarro

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