The Swiss voice in the world since 1935

Ataques de Trump à imprensa, alta dos juros e mortes por sarampo

Sala de imprensa da Casa Branca
A sala de imprensa da Casa Branca, no sábado. Keystone/Swissinfo

Bem-vindos à nossa análise da cobertura da imprensa suíça sobre os principais acontecimentos nos Estados Unidos. Todas as quintas-feiras, acompanhamos como s mídia suíça noticia e interpreta três temas de destaque da atualidade norte-americana — na política, na economia e na ciência.

A imprensa internacional há muito tempo enfrenta o desafio de separar os disparates do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de suas declarações com impacto real, escreveu o jornal suíço Le Temps nesta semana. Apesar disso, os veículos de comunicação seguem firmes e, “como em qualquer democracia, continuam cumprindo sua missão: informar”.

Ajude-nos a melhorar a revista de imprensa
Como leitor da nossa revista de imprensa semanal, a sua opinião é importante para nós. Reserve dois minutos para responder a um breve questionário e nos ajudar a melhorar o nosso jornalismo. Este questionário é anônimo e todos os dados são confidenciais.
👉 [Participe aquiLink externo]

Meios de comunicação
Jornalistas na Sala Oval na sexta-feira. Copyright 2026 The Associated Press. All Rights Reserved.

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de proibir a presença de vários veículos de comunicação na Casa Branca reflete uma “surpreendente deriva autoritária nos mais altos escalões do Estado americano”, na avaliação de um jornal suíço.

“CNN, Politico e MS NOW estão processando Trump”, informou a emissora pública suíça RSI na segunda-feira, após o anúncio feito pelo presidente na sexta-feira de que proibiria os três veículos de cobrir a Casa Branca por divulgarem o que classificou como notícias falsas.

“Os três grupos de mídia buscam defender os direitos garantidos pela Primeira Emenda da Constituição americana. […] Em apoio à CNN, as outras quatro emissoras que integram o chamado ‘pool’ presidencial, CBS, ABC, NBC e Fox News, decidiram suspender sua cobertura.”

Para o jornal suíço Le Temps, porém, esse boicote em solidariedade aos veículos afetados “não é suficiente para eclipsar a surpreendente deriva autoritária observada nos mais altos escalões do Estado americano, que tampouco tem muito a ganhar com essa decisão”.

Em uma análise publicada na terça-feira, o Le Temps afirmou que a imprensa internacional foi “desestabilizada” por Trump e que “há muito tempo tenta distinguir os disparates do presidente de suas declarações com consequências reais”.

“Queiram ou não, diante do desprezo da administração, da desconfiança do público e de um ambiente digital saturado de desinformação, os meios de comunicação continuam resistindo. Talvez a estratégia presidencial de inundar o debate público com informações tenha vencido. Talvez a imprensa pudesse fazer melhor. Mas, ao menos, como em qualquer democracia, ela continua cumprindo sua missão: informar”, escreveu o jornal.

“A tarefa, contudo, torna-se cada vez mais complexa.”

O diário de Genebra observa que uma das consequências imediatas da proibição foi a inauguração, na segunda-feira, do novo helicópteroporto da Casa Branca por Trump.

Segundo o Le Temps, o presidente acabou “falando para o vazio, inaudível, porque não havia veículos de comunicação presentes para registrar suas declarações”.

“E isso é apenas o começo”, acrescentou o jornal.

“A visita de Xi Jinping a Washington, prevista para quarta e quinta-feira, poderá ocorrer em um vazio informativo, sem perspectiva de mudança. Pode haver certa satisfação em ver o feitiço virar contra o feiticeiro. Mas, embora seja verdade que um presidente obcecado pela própria imagem tenha pouco a ganhar com essa decisão, os Estados Unidos também saem perdendo. O ‘farol do mundo livre’ apagou-se. Sem som, sem imagens.”

Kevin Warsh
O presidente da Reserva Federal, Kevin Warsh, fala com os jornalistas após o aumento das taxas de juro em um quarto de ponto, a 16 de setembro. Keystone

A decisão do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, de elevar sua taxa básica de juros vai muito além de uma medida de política monetária. Para a emissora pública suíça SRF, trata-se de uma “demonstração clara da independência da instituição”.

Kevin Warsh, que está à frente do banco central americano desde maio, “também aproveitou a oportunidade para se distanciar claramente do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump”, afirmou a SRF em uma análise.

O Tages-Anzeiger explica que o Fed elevou sua taxa básica de juros em 16 de setembro pela primeira vez desde o verão de 2023, em resposta à inflação persistente. O aumento foi de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para a faixa entre 3,75% e 4,00%.

Segundo a SRF, durante a coletiva de imprensa de quarta-feira, Warsh foi questionado diversas vezes sobre qual mensagem pretendia enviar a Trump com a alta dos juros, já que o presidente vinha defendendo taxas mais baixas. Os jornalistas também perguntaram quando havia sido sua última conversa com Trump.

“Warsh reagiu às perguntas com bom humor, sem demonstrar desconforto, e preferiu explicar os motivos da decisão”, relatou a emissora.

Entre as justificativas apresentadas pelo presidente do Fed estavam a estabilidade do mercado de trabalho, a situação próxima do pleno emprego e a solidez da economia americana.

A SRF observa que praticamente todas as ações de Warsh desde que assumiu o cargo têm sido interpretadas à luz de sua relação com Trump, “alimentando a impressão de que ele não consegue agir de forma independente da Casa Branca”.

Na avaliação da emissora suíça, a decisão sobre os juros foi justamente uma tentativa de afastar essa percepção.

“Warsh enviou um sinal claro”, concluiu a SRF.

Mas isso será suficiente para dissipar as dúvidas sobre sua independência?

“É bem possível que essas suspeitas acompanhem Warsh como uma maldição enquanto Donald Trump permanecer na presidência.”

O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa enquanto o secretário da Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., o observa no Salão Oval, no mês passado.
O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa enquanto o secretário da Saúde e dos Serviços Sociais dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., o observa no Salão Oval, no mês passado. Keystone

O anúncio das primeiras mortes relacionadas ao sarampo na Pensilvânia em décadas desencadeou uma disputa pública entre políticos e autoridades de saúde que divergem sobre o papel da doença nos óbitos, segundo a imprensa suíça.

As autoridades da Pensilvânia confirmaram na terça-feira passada uma quarta morte associada ao sarampo, informou a emissora pública suíça RTS.

“Este é o episódio mais recente de um surto que atingiu níveis não vistos no país há 35 anos.”

Segundo o Departamento de Saúde estadual, todas as vítimas não haviam sido vacinadas.

A RTS lembra que o sarampo foi considerado erradicado nos Estados Unidos em 2000 graças à vacinação, mas vem registrando forte retorno nos últimos anos, em meio à queda das taxas de imunização e ao aumento da desconfiança em relação às autoridades de saúde.

“Embora a vacinação seja obrigatória nos Estados Unidos, grande parte dos estados permite exceções por motivos religiosos ou até filosóficos”, explicou a emissora.

“Essas dispensas não médicas se multiplicaram desde a pandemia de Covid-19 e a disseminação de desinformação sobre vacinas. Como resultado, quando o sarampo chega a comunidades com baixa cobertura vacinal, surtos podem ocorrer.”

Desde o início de 2026, os Estados Unidos registraram mais de 3.294 casos confirmados de sarampo até 10 de setembro, o maior número desde 1991, segundo a RTS.

Os estados mais afetados foram Carolina do Sul, com 670 casos, Pensilvânia, com 637, e Utah, com 526.

As mortes também alimentaram um embate político entre o governador democrata da Pensilvânia, Josh Shapiro, e o secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert Kennedy Jr., conhecido por suas posições críticas às vacinas, destacou o jornal suíço Le Temps.

“Na terça-feira, Shapiro acusou Kennedy na rede social X de alimentar temores infundados sobre a vacina e minimizar a gravidade dessas mortes.”

Segundo o governador, Kennedy teria orientado a principal agência de saúde do país a não incluir os quatro óbitos nas estatísticas oficiais, “provavelmente porque eles não se encaixam em sua narrativa enganosa”.

O Le Temps afirma que Kennedy rejeitou as acusações e denunciou o que classificou como uma “politização” das mortes. O secretário também questionou se alguns dos óbitos podem ser efetivamente atribuídos ao sarampo.

A próxima edição de “Notícias dos EUA” será publicada na quinta-feira, 1° de outubro de 2026. Até lá!

Comentário ou críticas? Envie sua mensagem ao seguinte endereço: english@swissinfo.ch

Adaptação: Fernando Hirschy

Mostrar mais

Fique informado com a nossa newsletter!

Você procura uma maneira simples de se manter atualizado sobre as notícias relacionadas aos EUA a partir de uma perspectiva suíça?

Assine nosso boletim semanal gratuito e receba diretamente em sua caixa postal os resumos dos principais artigos políticos, econômicos e científicos publicados nas mídias suíças.

👉Inscreva-se inserindo o e-mail no formulário abaixo!

Conteúdo externo
Your subscription could not be saved. Please try again.
Almost finished… We need to confirm your email address. To complete the subscription process, please click the link in the email we just sent you.

*When you register, you will receive a welcome series and up to six updates per year.

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR