Ataques de Trump à imprensa, alta dos juros e mortes por sarampo
Bem-vindos à nossa análise da cobertura da imprensa suíça sobre os principais acontecimentos nos Estados Unidos. Todas as quintas-feiras, acompanhamos como s mídia suíça noticia e interpreta três temas de destaque da atualidade norte-americana — na política, na economia e na ciência.
A imprensa internacional há muito tempo enfrenta o desafio de separar os disparates do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de suas declarações com impacto real, escreveu o jornal suíço Le Temps nesta semana. Apesar disso, os veículos de comunicação seguem firmes e, “como em qualquer democracia, continuam cumprindo sua missão: informar”.
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A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de proibir a presença de vários veículos de comunicação na Casa Branca reflete uma “surpreendente deriva autoritária nos mais altos escalões do Estado americano”, na avaliação de um jornal suíço.
“CNN, Politico e MS NOW estão processando Trump”, informou a emissora pública suíça RSI na segunda-feira, após o anúncio feito pelo presidente na sexta-feira de que proibiria os três veículos de cobrir a Casa Branca por divulgarem o que classificou como notícias falsas.
“Os três grupos de mídia buscam defender os direitos garantidos pela Primeira Emenda da Constituição americana. […] Em apoio à CNN, as outras quatro emissoras que integram o chamado ‘pool’ presidencial, CBS, ABC, NBC e Fox News, decidiram suspender sua cobertura.”
Para o jornal suíço Le Temps, porém, esse boicote em solidariedade aos veículos afetados “não é suficiente para eclipsar a surpreendente deriva autoritária observada nos mais altos escalões do Estado americano, que tampouco tem muito a ganhar com essa decisão”.
Em uma análise publicada na terça-feira, o Le Temps afirmou que a imprensa internacional foi “desestabilizada” por Trump e que “há muito tempo tenta distinguir os disparates do presidente de suas declarações com consequências reais”.
“Queiram ou não, diante do desprezo da administração, da desconfiança do público e de um ambiente digital saturado de desinformação, os meios de comunicação continuam resistindo. Talvez a estratégia presidencial de inundar o debate público com informações tenha vencido. Talvez a imprensa pudesse fazer melhor. Mas, ao menos, como em qualquer democracia, ela continua cumprindo sua missão: informar”, escreveu o jornal.
“A tarefa, contudo, torna-se cada vez mais complexa.”
O diário de Genebra observa que uma das consequências imediatas da proibição foi a inauguração, na segunda-feira, do novo helicópteroporto da Casa Branca por Trump.
Segundo o Le Temps, o presidente acabou “falando para o vazio, inaudível, porque não havia veículos de comunicação presentes para registrar suas declarações”.
“E isso é apenas o começo”, acrescentou o jornal.
“A visita de Xi Jinping a Washington, prevista para quarta e quinta-feira, poderá ocorrer em um vazio informativo, sem perspectiva de mudança. Pode haver certa satisfação em ver o feitiço virar contra o feiticeiro. Mas, embora seja verdade que um presidente obcecado pela própria imagem tenha pouco a ganhar com essa decisão, os Estados Unidos também saem perdendo. O ‘farol do mundo livre’ apagou-se. Sem som, sem imagens.”
A decisão do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, de elevar sua taxa básica de juros vai muito além de uma medida de política monetária. Para a emissora pública suíça SRF, trata-se de uma “demonstração clara da independência da instituição”.
Kevin Warsh, que está à frente do banco central americano desde maio, “também aproveitou a oportunidade para se distanciar claramente do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump”, afirmou a SRF em uma análise.
O Tages-Anzeiger explica que o Fed elevou sua taxa básica de juros em 16 de setembro pela primeira vez desde o verão de 2023, em resposta à inflação persistente. O aumento foi de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para a faixa entre 3,75% e 4,00%.
Segundo a SRF, durante a coletiva de imprensa de quarta-feira, Warsh foi questionado diversas vezes sobre qual mensagem pretendia enviar a Trump com a alta dos juros, já que o presidente vinha defendendo taxas mais baixas. Os jornalistas também perguntaram quando havia sido sua última conversa com Trump.
“Warsh reagiu às perguntas com bom humor, sem demonstrar desconforto, e preferiu explicar os motivos da decisão”, relatou a emissora.
Entre as justificativas apresentadas pelo presidente do Fed estavam a estabilidade do mercado de trabalho, a situação próxima do pleno emprego e a solidez da economia americana.
A SRF observa que praticamente todas as ações de Warsh desde que assumiu o cargo têm sido interpretadas à luz de sua relação com Trump, “alimentando a impressão de que ele não consegue agir de forma independente da Casa Branca”.
Na avaliação da emissora suíça, a decisão sobre os juros foi justamente uma tentativa de afastar essa percepção.
“Warsh enviou um sinal claro”, concluiu a SRF.
Mas isso será suficiente para dissipar as dúvidas sobre sua independência?
“É bem possível que essas suspeitas acompanhem Warsh como uma maldição enquanto Donald Trump permanecer na presidência.”
O anúncio das primeiras mortes relacionadas ao sarampo na Pensilvânia em décadas desencadeou uma disputa pública entre políticos e autoridades de saúde que divergem sobre o papel da doença nos óbitos, segundo a imprensa suíça.
As autoridades da Pensilvânia confirmaram na terça-feira passada uma quarta morte associada ao sarampo, informou a emissora pública suíça RTS.
“Este é o episódio mais recente de um surto que atingiu níveis não vistos no país há 35 anos.”
Segundo o Departamento de Saúde estadual, todas as vítimas não haviam sido vacinadas.
A RTS lembra que o sarampo foi considerado erradicado nos Estados Unidos em 2000 graças à vacinação, mas vem registrando forte retorno nos últimos anos, em meio à queda das taxas de imunização e ao aumento da desconfiança em relação às autoridades de saúde.
“Embora a vacinação seja obrigatória nos Estados Unidos, grande parte dos estados permite exceções por motivos religiosos ou até filosóficos”, explicou a emissora.
“Essas dispensas não médicas se multiplicaram desde a pandemia de Covid-19 e a disseminação de desinformação sobre vacinas. Como resultado, quando o sarampo chega a comunidades com baixa cobertura vacinal, surtos podem ocorrer.”
Desde o início de 2026, os Estados Unidos registraram mais de 3.294 casos confirmados de sarampo até 10 de setembro, o maior número desde 1991, segundo a RTS.
Os estados mais afetados foram Carolina do Sul, com 670 casos, Pensilvânia, com 637, e Utah, com 526.
As mortes também alimentaram um embate político entre o governador democrata da Pensilvânia, Josh Shapiro, e o secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert Kennedy Jr., conhecido por suas posições críticas às vacinas, destacou o jornal suíço Le Temps.
“Na terça-feira, Shapiro acusou Kennedy na rede social X de alimentar temores infundados sobre a vacina e minimizar a gravidade dessas mortes.”
Segundo o governador, Kennedy teria orientado a principal agência de saúde do país a não incluir os quatro óbitos nas estatísticas oficiais, “provavelmente porque eles não se encaixam em sua narrativa enganosa”.
O Le Temps afirma que Kennedy rejeitou as acusações e denunciou o que classificou como uma “politização” das mortes. O secretário também questionou se alguns dos óbitos podem ser efetivamente atribuídos ao sarampo.
A próxima edição de “Notícias dos EUA” será publicada na quinta-feira, 1° de outubro de 2026. Até lá!
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Adaptação: Fernando Hirschy
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