Energia solar nos Alpes cresce com apoio local, mas empresas hesitam
Lançado em 2022, o programa Solar Express busca ampliar a geração de energia solar nos Alpes suíços, mas enfrenta entraves técnicos e econômicos que devem impedir o cumprimento da meta inicial de 2 terawatts-hora por ano.
O governo federal suíço lançou a iniciativa “Solar Express” há pouco mais de três anos (veja o infográfico abaixo).
Há cerca de 30 parques solares de grande porte planejados nos Alpes suíços, em diferentes estágios de licenciamento e implantação. Um número similar de projetos foi rejeitado.
>> Centrais solares na Suíça (passe o cursor sobre a categoria de cor para ver mais detalhes)
O prazo original para o registro de projetos era o fim de 2025, mas os prazos e a legislação foram estendidos e alterados no primeiro semestre do ano passado.
Diante das preocupações com a crise climática e o abastecimento de energia, o parlamento suíço aprovouLink externo em 2022 uma lei para simplificar e acelerar a construção de grandes parques solares em regiões de alta montanha, com o objetivo de aumentar a produção de eletricidade no inverno. A legislação reduziu os obstáculos à construção – incluindo normas ambientais rigorosas – e ofereceu subsídios generosos (60% dos custos do projeto). Os operadores precisavam começar a fornecer eletricidade à rede até o fim de 2025 para garantir o financiamento estatal. O programa foi prorrogado pelo parlamento em março de 2025, e o prazo original foi abolido.
As legisladoras e legisladores suíços decidiram estender o apoio federal para manter o ímpeto do momento; vários projetos apresentados enfrentam recursos judiciais e desafios técnicos, o que tem provocado atrasos na sua execução.
Cerca de 30 parques solares de grande porte estão planejados nos Alpes suíços, enquanto um número similar de projetos foi rejeitado. No cantão do Valais, onde o programa teve origem, nenhuma instalação havia sido construída nem obtido autorização legal até o final de 2025.
Ainda assim, o projeto Solar Express revelou vários pontos essenciais:
Implementação rápida
Um dos aspectos mais marcantes do Solar Express é a velocidade de implementação. Três anos atrás, os primeiros parques solares alpinos só existiam no papel.
Agora, há quatro parques em construção e gerando eletricidade nos cantões de Grisões e Uri, nas regiões sudeste e central da Suíça, respectivamente. Há muitos outros em fase de planejamento ou implementação em diversas partes dos Alpes.
Isso mostra que o país ainda é capaz de implementar grandes projetos de energia rapidamente. Mas é necessária a cooperação de todos e todas: políticos, autoridades, empreendedores, organizações ambientais, e a sociedade em geral.
Apoio da população local
O apoio político na região escolhida é essencial. A população local aprovou cerca de metade de todos os projetos planejados. Nitidamente, o povo aceita a existência de tais instalações nos seus arredores.
O argumento reiterado de que ninguém quer parques solares perto de casa parece ser refutado pelas experiências do Solar Express.
Mostrar mais
Suíça constrói primeiro parque solar de grande escala nos Alpes
Também é verdade que certos projetos não teriam avançado tanto sem a intervenção de organizações ambientais. Elas não rejeitaram os projetos de forma categórica, mas insistiram em destacar questões específicas em determinadas localidades.
Nesse sentido, é frequentemente esquecido que há diferenças significativas entre a qualidade dos projetos, por exemplo, no que diz respeito à escolha de locação ou ao desenho do parque.
Meta nacional de energia ainda está longe
O Solar Express também revelou certas limitações. A ideia de utilizar parques solares nos Alpes para produzir grandes quantidades de energia durante o inverno provavelmente não dará certo. As instalações sendo construídas atualmente, assim como as que ainda estão em fase de planejamento, não alcançarão a meta original do governo: uma capacidade de produção anual total de dois terawatts-hora (2 TWh).
A estratégia energética de longo prazo do governo suíço estabelece metas muito mais ambiciosas para as energias renováveis (excluída a energia hidrelétrica): 35 TWh até 2035 e 45 TWh até 2050.
Empresas de energia freiam projetos
A dificuldade em atingir essa meta por meio de parques solares alpinos se deve, em parte, à relutância das empresas de energia.
Para as empresas de energia, o Solar Express é ao mesmo tempo um desafio e uma oportunidade de ouro. Por anos, o setor reclamou que era muito difícil implementar novos projetos de energia renovável na Suíça devido à resistência da população local. Com o Solar Express, autoridades diminuíram os entraves a esse tipo de empreendimento.
Mostrar mais
Suíça quer quadruplicar energia solar até 2050 com inovações
No entanto, fica cada vez mais claro que as empresas de energia estão usando esse modelo com grande cautela – e relutância. Os custos dos parques solares alpinos são muito elevadosLink externo (veja o quadro), e é difícil achar compradores para a eletricidade mais cara. A infraestrutura de aço utilizada para sustentar os painéis nos Alpes é um dos principais fatores de custo. Nesse caso, o terreno alpino e as condições climáticas extremas são problemas centrais.
Cantões e municípios precisam enfrentar falhas
Embora alguns fornecedores de energia estejam construindo parques solares para evitar críticas por não aproveitarem a oportunidade política, do ponto de vista econômico, eles não demonstram grande interesse em desenvolver outros projetos.
Os donos das empresas de energia – geralmente municípios e cantões suíços – precisam enfrentar essa questão. É necessário esclarecer qual preço o fornecimento de eletricidade deveria, ou poderia, ter no futuro, ou se dividendos elevados são, em última instância, mais importantes. Até o momento, os proprietários têm, em grande medida, se esquivado dessa responsabilidade.
Em muitos aspectos, a experiência suíça do Solar Express serve como modelo para a expansão das energias renováveis, mostrando com clareza o que é viável e quais são exatamente os limites.
Defensores dos parques solares alpinos afirmam que eles oferecem algumas vantagens. As montanhas recebem muita luz solar, especialmente no inverno, e as instalações podem gerar energia solar acima das nuvens. Isso significa que elas conseguem produzir eletricidade mesmo durante o inverno, quando a demanda está alta e a neblina cobre muitos painéis solares em regiões de planície.
Painéis solares são mais eficientes em baixas temperaturas, como as dos Alpes, e painéis bifaciais podem ser instalados na vertical para aproveitar os raios refletidos na neve e no gelo.
Especialistas da Universidade de Ciências Aplicadas de Berna estimamLink externo que um módulo fotovoltaico instalado em altas altitudes pode produzir cerca de 50% mais energia por ano do que sistemas instalados em regiões de planície.
Também estimam que as instalações solares alpinas fornecem cerca de quatro a cinco vezes mais eletricidade durante os “meses de inverno” (dezembro, janeiro e fevereiro) do que os painéis nas planícies. Para o semestre de inverno (outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro e março), esse fator é de cerca de dois.
No entanto, o custo de um parque solar alpino é significativamente mais elevado do que o de uma instalação em regiões de planície, principalmente devido a desafios estruturais e logísticos. Christof Bucher, professor de sistemas fotovoltaicos, estima que a eletricidade gerada por instalações solares alpinas é de duas a quatro vezes mais cara que a energia fotovoltaica produzida em áreas mais baixas.
Entre outras críticas, grupos ambientais afirmam que os parques solares descaracterizam a paisagem e têm impactos negativos sobre a biodiversidade. A necessidade de grandes áreas e locais específicos também levanta questionamentos.
Parques solares desse tipo já existem em algumas regiões da China e, em menor escala, em montanhas da França e da Áustria.
Adaptação: Clarice Dominguez
Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.