“África deixou de ser visível”
Para Mia Couto, trinta anos é pouco tempo para desenvolver Moçambique. O problema da África estaria na perda gradual de soberania.
swissinfo entrevista o escritor, poeta e biólogo, que não esconde os erros dos dirigentes africanos, mas levanta o dedo às injustiças da economia mundial.
“É infindável a soma de argumentos para justificar a cleptocracia e a corrupção dentro do continente africano. Alguns intelectuais africanos vêm na importação de modelos externos a origem de todos os males”.
“Impostas de fora, essas reformas não poderiam ser implementadas. Mas tudo indica que, ao contrário, parte delas foram rápida e profundamente apropriadas por elites nacionais que as usaram a favor do seu próprio enriquecimento.”
Essas são algumas citações de Mia Couto, tiradas do discurso pronunciado na Cooperação Suíça em Berna. O evento ocorreu poucos dias antes das comemorações pelos 30 anos de independência de Moçambique. Na série de conferências intitulada “Traverse”, os funcionários graduados convidam personalidades de todos os cantos do mundo a falar algo sobre o seu país.
O escritor moçambicano não quis fazer o “mea-culpa” do continente que parece uma imensa tragédia. Sua mensagem é de que a injustiça está também no sistema econômico mundial como subsídios à agricultura, protecionismo dos países ricos e no “círculo perpétuo da dívida”.
Nascido em Beira, a segunda maior cidade de Moçambique, em 1955, Antônio Emílio Leite Couto é considerado um dos mais importantes escritores africanos de língua portuguesa da atualidade. Mais conhecido por Mia Couto, uma alcunha que ele conserva desde a infância, o moçambicano branco também estudou medicina e biologia. Além de escrever, ele trabalha como biólogo na reserva natural da Ilha da Inhaca, em Moçambique.
swissinfo entrevista Mia Couto e pergunta se sistemas políticos ocidentais também funcionam numa nova democracia como a moçambicana.
Em Berna, você fala do otimismo que viveu como jovem de 19 anos no dia da independência, porém alerta para a crescente dependência do país. Alguma coisa deu errado em Moçambique?
O que eu quero comunicar com a minha intervenção é que, por melhor, por mais sério ou menos corrupto que seja o governo em Moçambique ou em outro país africano, isso sozinho não resolve. Há um quadro de relações internacionais que impossibilita e asfixia as iniciativas que possam haver nos países pobres. Meu discurso é para funcionar como um alerta, de que precisamos mudar nos dois lados: nos países ricos e pobres. Essa relação tente a aumentar ainda mais o empobrecimento. A ajuda oferecida cria uma relação progressiva de dependência. E cada vez mais Moçambique precisa desse tipo de ajuda.
Metade do PIB moçambicano vem de países doadores. Quando o país será independente da ajuda externa?
Olhamos no horizonte e não vemos essa expectativa. Com a soma da dívida que acumulamos, ou melhor dizendo, que fomos obrigados a acumular, e com a situação do comércio internacional, que hoje é altamente desfavorável aos países pobres, não há saída. Com esse passado, não temos futuro.
Porém o conserto não pode ser feito por dentro? O mercado interno de Moçambique é dominado por produtos importados. Até o leite vem da África do Sul.
Claro que há algumas coisas que podem ser feitas no país. Outras ainda não foram feitas. Mas isso não muda substancialmente o problema. Aquilo que podemos fazer como criação de riqueza, aquilo que são os meios de produção para a exportação, não podem funcionar enquanto esses termos de troca forem tão desiguais.
Mas muitos países europeus já abriram suas fronteiras para produtos fabricados nos países mais pobres.
Essa é uma abertura artificial. Veja o exemplo da África do Sul: há alguns anos ela chegou a exportar queijo para vários países europeus, notoriamente para a Irlanda, a preços competitivos. Logo depois foram tomadas medidas em nível europeu para subsidiar os produtos europeus, o que fez por tirar o queijo sul-africano do mercado. Qualquer país africano que queira furar esse esquema tem as regras do jogo contra ele.
Os problemas da África estão fora das suas fronteiras?
Não quero tirar a culpa dos governos africanos e, sobretudo, o de Moçambique. Existe uma combinação de mudanças a realizar. Uma delas é aquela atitude característica que temos em toda a África de responsabilizar europeus, a história, a globalização, o colonialismo, escravatura, pela situação trágica do continente. Essa é uma atitude que é muito negativa e que ajuda às elites políticas na África, que no geral têm o poder, a justificar eternamente os nossos problemas.
O que eu estou a chamar atenção é que existe uma crença na Europa, sobretudo na Suíça, de que se a ajuda que está sendo dada, que é grande, não está dando resultados, é por que os africanos não sabem usá-la. O que eu estou tentando dizer é que, mesmo com a boa utilização desses recursos, não haveriam grandes mudanças.
Qual crítica que você faria a ajuda que países como a Suíça dão a Moçambique?
Essa é uma ajuda condicionada. Ela é condicionada ao cumprimento de uma série de outros requisitos como a descentralização política, a construção de uma sociedade civil e outros pontos. Mas muitas vezes essa maneira de medir e monitorar a ajuda são feitas de uma forma pouco realista.
Por exemplo, pede-se que se faça à descentralização num país com os recursos e tamanho de Moçambique, enquanto há países europeus muito menores e mais ricos que o nosso e que até hoje não conseguiram realizar uma descentralização efetiva. Não podemos fazer em cinco anos o que esses países não conseguiram fazer em cinco séculos. São processos que vão levar tempo. É preciso ser realista.
Aquilo que nós chamamos de sociedade civil na Europa precisa ter outros contornos em Moçambique. Talvez essa sociedade civil seja aqui representada por trinta ONGs que são da cidade e trabalham no campo, transferindo uma certa centralização arrogante para o camponês, que nem sabe o que está acontecendo.
Você considera que, após a assinatura do tratado de paz em 1992, houve realmente uma democratização do país?
Eu acho que sim, mesmo ainda é o suficiente. A democratização tem de resultar de uma espécie de combinação daquilo que é feito de cima para baixo, mas também de baixo para cima. A pressão popular, a opinião popular podem ajudar a trazer mudanças nas relações de poder. Em Moçambique isso ainda é muito frágil, pois temos diferentes países e diferentes nações num só espaço geográfico.
Temos diferentes lógicas de poder: a do régulo (nota de redação: o chefe da aldeia) é uma lógica completamente diversa em relação ao estado centralizado. E como fazer isso de maneira que não seja uma solução folclórica como a que já está sendo feita: o régulo tem agora uma farda, aparece nas cerimônias, tem uma certa representatividade forma. Mas depois?
Não existe uma contradição entre o poder tradicional do chefe de aldeia e os sistemas políticos que estão sendo introduzidos em Moçambique, como eleições?
Não sei! Ainda estão estudando como esses sistemas de gestão e poder podem se casar. Eles estão casados de fato. Nós não temos a ilusão de que os sistemas tradicionais ficaram intactos nesses últimos anos. Esses chefes já fizeram alianças e se adaptaram às novas condições políticas. Vou te dar um exemplo de uma conversa que eu tive com dois régulos: um deles era a favor de eleições diretas e o outro não. Por que o primeiro defendia o sistema? Pois ele vivia num distrito com grande movimentação demográfica e sabia que uma votação lhe seria favorável. O outro era contra, pois no seu distrito viviam duas etnias que se cruzavam e que ele sabia que podia perder a eleição. A situação é muito mais complexa do que a gente imagina.
swissinfo, Alexander Thoele
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