ONU cobra ação global para garantir acesso à água até 2030
Em sua missão de elevar o tema da água ao topo das prioridades políticas globais, a enviada especial da ONU, Retno Marsudi, alerta para os riscos de colapso se investimentos e cooperação internacional não forem ampliados.
“Escassez, inundações, poluição… a lista de desafios é longa”, reconhece Retno Marsudi, enviada especial do secretário-geral da ONU para a Água, quando lhe perguntamos sobre suas preocupações, durante uma entrevista durante um fórum realizado em um hotel no centro de Jacarta.
Nomeada em setembro de 2024 por António Guterres, esta ex-ministra de relações exteriores da Indonésia é a primeira pessoa a ocupar este novo cargo, criado na sequência da Conferência das Nações Unidas sobre a Água, em março de 2023, em Nova Iorque.
“Quando o secretário-geral me ofereceu este cargo, foi, naturalmente, algo novo para mim. Sou diplomata, não especialista em recursos hídricos. Mas pensei: a água é essencial para todos os seres vivos, para a natureza, para o planeta; a água é vida. Isso me motivou a aceitar”, explica ela.
Seu papel é levar as questões de água e saneamento ao mais alto nível político, tanto dentro quanto fora da ONU, a fim de mobilizar os Estados e o financiamento necessário para avançar nessa questão.
Reforçar a infraestrutura
Uma das prioridades de Retno Marsudi é promover o acesso à água potável, visto que mais de dois bilhões de pessoasLink externo em todo o mundo ainda não têm acesso seguro a esse recurso. Segundo ela, isso exige o fortalecimento da infraestrutura, a melhoria do acesso à tecnologia e o aumento do investimento, principalmente do setor privado.
“A infraestrutura é a espinha dorsal do acesso à água”, explica ela. “Os dados mostram que as instalações que temos são geralmente inadequadas, antigas, obsoletas ou até mesmo inexistentes. Isso leva a perdas de água estimadas em 30% globalmente, chegando a 50% em alguns países. Isso é muito preocupante.”
Diante dessa situação, a modernização da infraestrutura é uma prioridade, que não deve ofuscar a preservação de sistemas naturais como zonas úmidas, aquíferos ou bacias hidrográficas.
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Tecnologias para o Sul
A diplomata de 63 anos acredita que os países em desenvolvimento deveriam ter melhor acesso às tecnologias que estão em grande parte concentradas nos países ricos. “A tecnologia é muito importante para resolver problemas relacionados à água”, explica ela. “No entanto, a maior parte da tecnologia utilizada está obsoleta.”
Melhores soluções, por exemplo, para irrigação no setor agrícola, responsável por 72% da captação de água doce, ou para refrigeração de data centers, permitiriam um uso mais responsável dos recursos. “Precisamos cooperar com empresas e países desenvolvidos para tornar essas tecnologias acessíveis a todos”, observa Retno Marsudi.
Ela também enfatizou a importância de angariar os fundos necessários para as melhorias. “Para investimentos em abastecimento de água e saneamento, precisamos de aproximadamente 600 bilhões de dólares a um trilhão por ano, enquanto apenas cerca de 300 a 400 bilhões são investidos”, explicou. “91% dos investimentos provêm de fundos públicos. Devemos, portanto, explorar oportunidades de parceria com o setor privado, garantindo, ao mesmo tempo, a preservação do interesse público.”
Água, no topo da agenda
Como parte de seu mandato, Retno Marsudi viaja pelo mundo reunindo-se com inúmeras partes interessadas, incluindo líderes políticos. “Meu objetivo é mobilizar todos os Estados-membros e pedir que coloquem a água no topo de suas prioridades políticas”, afirma ela. “Precisamos harmonizar as diversas iniciativas e atividades relacionadas à água para aumentar seu impacto sobre as populações.”
Segundo ela, trata-se também de acelerar a implementação dos compromissos assumidos em reuniões como a última conferência sobre água, que gerou mais de 800 compromissos voluntários. “O que as pessoas esperam são resultados, não palavras.”
Conferência em 2026
A próxima conferência da ONU sobre água acontecerá em dezembro de 2026 nos Emirados Árabes Unidos. Os participantes incluirão governos, agências da ONU, ONGs, o setor privado e povos indígenas.
Cooperação, multilateralismo e investimento serão alguns dos temas principais deste encontro, do qual Retno Marsudi espera “ações”, particularmente no que diz respeito ao envolvimento do setor privado. “Envolver o setor privado é inevitável. A questão é como fazer com que as pessoas acreditem na nossa mensagem de que essas parcerias são importantes. Porque elas temem que isso leve à privatização ou à comercialização. Temos que convencê-las de que não é esse o caso”, explica.
“Temos objetivos”, acrescenta Retno Marsudi. Entre eles está o sexto Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS 6), que visa garantir o acesso à água e ao saneamento para todos até 2030.
“É uma das metas mais atrasadas”, lamenta Retno Marsudi, que admite estar “preocupada”. Se não for atingida, as outras metas também sofrerão, porque a água é essencial para alcançá-las, acrescenta. “Se estamos falando de energia, alimentos e mudanças climáticas, também precisamos pensar na água.”
Multilateralismo e água
O multilateralismo está paralisado. Seja em relação às mudanças climáticas ou à poluição plástica, os Estados têm dificuldade em chegar a um consenso sobre problemas que, no entanto, são globais. Será que a água pode ser uma força unificadora?
“Quanto mais incerta for a situação global, mais devemos enfatizar a importância do multilateralismo e da cooperação. Se você perguntar às pessoas se elas acham que podem resolver seus problemas sozinhas, a resposta certamente será não”, afirma Marsudi.
“A água não é uma questão interna”, enfatizou a diplomata. “Em primeiro lugar, porque todos precisam dela, mas também por causa das águas transfronteiriças. É um assunto delicado para alguns, mas o fato é que a água flui através dos países. Não podemos impedi-la. Portanto, precisamos de cooperação.”
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Em alguns casos, a água é até mesmo fonte de tensão. Isso é particularmente verdadeiro entre o Egito e a Etiópia, que construiu uma enorme barragem no Nilo. Diante de tais situações, os acordos internacionais são realmente necessários?
“Isso existe, sim, no âmbito da Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa (CENUE)”, responde Retno Marsudi. “A maioria dos seus membros é da Europa, mas o secretário-executivo está trabalhando para atrair cada vez mais países, na esperança de que a questão das águas transfronteiriças possa ser resolvida pacificamente.”
Um ano depois
Um ano após assumir o cargo, Retno Marsudi considera as reações ao seu compromisso como “muito positivas”.
“Fico satisfeita em ver que estamos progredindo, com maior atenção voltada para a questão da água, que está ganhando cada vez mais espaço na agenda política. Há também uma crescente disposição para coordenar iniciativas e acelerar compromissos”, afirma. “Mas, é claro, dada a magnitude dos desafios, esse progresso ainda está longe de ser suficiente. Portanto, precisamos intensificar nossos esforços.”
Edição: Virginie Mangin/sj
Adaptação: DvSperling
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