“Trabalhamos para pagar as contas”
Apesar de terem empregos estáveis e uma renda decente, cada vez mais suíços enfrentam dificuldades para fechar as contas no final do mês.
O aumento dos custos fixos, o receio de despesas inesperadas e os cortes nas atividades de lazer: a pressão financeira já não poupa a classe média, que começa a manifestar sua frustração.
Na cidade de Vevey, situada no cantão (estado) de Vaud, o consenso entre os barraqueiros na feira é nítido: o custo de vida transformou-se em um fardo cada vez mais pesado. “Os preços estão ficando insuportáveis. No ano que vem, haverá algo que simplesmente não poderei pagar”, diz um cliente.
Outro resume o sentimento geral: “Queremos comprar duas ou três coisas, mas parece que estamos tentando comprar ouro!”
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Na Suíça, até economizar é um desafio
Os aposentados e aqueles que recebem rendas muito baixas estão entre os mais atingidos. Com uma aposentadoria de 1.700 francos (cerca de 2.040 dólares) por mês, uma moradora de Vevey tomou a medida drástica de vender o próprio carro. “Já não posso arcar com o estacionamento, com o seguro e tudo o mais”, disse.
A alta dos custos não afeta mais apenas as camadas mais vulneráveis. A classe média, considerada o motor econômico do país, também vê seu poder de compra se desgastar.
Em Lucens, localidade também situada no cantão de Vaud, a enfermeira Sabrina Meriem e seu parceiro Mathieu Rochat, jardineiro municipal, possuem uma renda líquida conjunta de 11.200 francos mensais. No entanto, quando somam tributos, hipoteca, mensalidades do seguro de saúde, alimentação e combustível, suas despesas fixas superam sete mil francos.
Disparada no preço do óleo
A forte elevação no preço do óleo de aquecimento é uma das principais fontes de preocupação. Diante disso, Mathieu Rochat decidiu não abastecer os reservatórios de sua casa por completo. “Pelo preço atual, espero passar o inverno inteiro com o que sobrou e aguardar que o valor caia significativamente”, afirmou.
Para além das cifras, o desgaste psicológico também afeta a família. “Conseguimos pagar nossas contas; não temos problemas quanto a isso. Mas olhamos para o que sobra no fim do mês e vemos que é cada vez menos. Todas as atividades extras que podemos fazer em família estão sendo cortadas”, acrescentou.
Para a companheira, a indignação é ainda mais evidente: “A classe média paga a conta de todo mundo”, declarou ela. “Somos vacas leiteiras (expressão que designa quem é constantemente explorado financeiramente). Se você é rico, pode ter tudo. Se é pobre, tem a sorte de receber assistência. Se você está no meio, paga a conta tanto do topo quanto da base. Isso não é correto para a sociedade em que vivemos.”
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Custo de vida precário revela ilusão salarial suíça
Menos férias
De acordo com uma pesquisa de opinião realizada pela empresa de pesquisas de opinião Qualinsight em janeiro de 2026, 89% dos habitantes da Suíça francófona monitoram de perto os gastos mensais. Mais da metade tem cortado atividades de lazer e viagens de férias, enquanto 47% dos entrevistados fazem concessões na alimentação.
O mesmo cenário repete-se em Poliez-Pittet (Vaud). Aurore e Lionel Carrard administram uma propriedade rural familiar. Apesar de uma renda bruta anual de aproximadamente 280 mil francos, as despesas fixas do casal atingem com regularidade a marca de 20 mil francos por mês.
“Trabalhamos para pagar as contas, só isso”, diz Aurore Carrard. “É triste viver num país rico e não ter como dizer para si mesmo: ‘neste fim de semana, vamos jantar num restaurante’.”
Seu marido, Lionel, compartilha a mesma frustração. “No passado, meu avô empregava meu pai, e este ainda tinha seus próprios funcionários. No meu caso, trabalho sozinho. Tenho apenas um empregado que me substitui um domingo por mês.”
“É frustrante. Nossa propriedade costumava ser menor e sustentava duas famílias, talvez até mais. Hoje, estamos atolados em trabalho e, no fim do dia, nossa situação financeira não melhora.”
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Custo de vida
Quais são as soluções?
Na capital suíça as opiniões sobre os caminhos a seguir dividem-se. O deputado-federal Benoît Gaillard (Partido Socialista) avalia que uma aplicação mais rígida da lei poderia frear os valores dos aluguéis e permitir um controle mais efetivo sobre as margens de lucro dos combustíveis.
Por outro lado, Yvan Pahud, do Partido do Povo Suíço (SVP, na sigla em alemão), defende a redução de impostos como forma de dar fôlego aos lares. Essa proposta inspira-se no êxito recente de uma iniciativa popular local (mecanismo de democracia direta suíço em que cidadãos propõem e votam leis via plebiscito) que conquistou uma redução de 12% nos impostos sobre renda e patrimônio no cantão de Vaud.
No entanto, o horizonte permanece nebuloso. Aluguéis, transporte público, serviços postais e custos de energia mantêm a trajetória de alta. Para muitos suíços, consolida-se a sensação de um padrão de vida em constante declínio.
Adaptação: Alexander Thoele
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