Sudeste Asiático vira prioridade estratégica para a Suíça
Em meio às tensões entre China, Estados Unidos e Europa, a ASEAN vem consolidando sua posição como um dos polos estratégicos do mundo multipolar. A Suíça intensifica sua aproximação com o bloco asiático em busca de novos mercados, estabilidade econômica e alternativas à dependência chinesa.
Qual é o papel da ASEAN no cenário global de tensões entre a China, os Estados Unidos e a Europa?
O interesse dos países europeus pela Associação das Nações do Sudoeste Asiático – a ASEAN, com seus 11 estados-membros – está crescendo. Isso é confirmado por Cristina de Esperanza Picardo, pesquisadora assistente para a região indo-pacífica do centro de estudos madrilenho Real Instituto Elcano: “Crises internacionais e a crescente instabilidade reforçam a busca por parcerias econômicas para além dos atores tradicionais, enquanto o Sudoeste Asiático passa a ser visto cada vez mais como uma região relevante para a diversificação dessas relações.”
Esse desenvolvimento faz parte de uma aproximação europeia mais ampla em direção ao espaço indo-pacífico, que inclui também considerações de segurança. “Devido à sua posição estratégica, bem como às reivindicações territoriais sobrepostas de vários estados-membros da ASEAN e da China no Mar do Sul da China, o Sudoeste Asiático figura entre as principais zonas de tensão da região”, afirma Picardo.
A Associação das Nações do Sudeste Asiático – ASEAN – é uma aliança geopolítica e econômica fundada em 1967 no Sudoeste Asiático. Seu principal objetivo é promover crescimento econômico, progresso social e estabilidade regional.
Atualmente, a comunidade reúne 11 Estados-membros: Brunei, Indonésia, Camboja, Laos, Malásia, Mianmar, Timor-Leste, Filipinas, Singapura, Tailândia e Vietnã. Em conjunto, o bloco soma mais de 680 milhões de habitantes. Sua produção econômica anual alcança cerca de 4 trilhões de dólares, fazendo da ASEAN a quinta maior região econômica do mundo.
“O Sudoeste Asiático é considerado relativamente estável em comparação com a Ásia Ocidental e a Ásia do Sul”, afirma Dinna Prapto Raharja, professora associada de Relações Internacionais da Bina Nusantara University, na Indonésia. As tensões existentes há anos entre a Tailândia e o Camboja, por exemplo, não seriam escaladas por nenhuma das partes, já que não existe interesse em uma desestabilização regional. Em nível informal, representantes da ASEAN reúnem-se regularmente, a fim de coordenar ações destinadas a garantir a estabilidade da região.
Ao mesmo tempo, o choque energético desencadeado pela guerra com o Irã pesa sobre várias economias do Sudoeste Asiático, sobretudo as mais abertas e dependentes de importações.
Com a “Visão ASEAN 2045”, contudo, o bloco dispõe de um quadro estratégico para aprofundar a cooperação tanto na região quanto com a Europa, afirma Raharja. Esse plano estratégico também poderia servir de orientação para a Suíça.
Como a erosão da ordem internacional influencia o futuro do Sudoeste Asiático?
Na visão de Picardo, a situação geopolítica acelerou a reflexão sobre o futuro do Sudoeste Asiático. “Mas a ASEAN continua sendo uma organização de estruturas deliberadamente flexíveis, concebidas para proteger a soberania de seus estados-membros. Os interesses nacionais ficam em primeiro plano, enquanto a própria instituição dispõe apenas de autonomia limitada.”
Combinada à grande diversidade interna do bloco, essa configuração desacelera os processos decisórios e restringe a capacidade de ação da ASEAN.
A ASEAN procura posicionar-se como um ator central na diversificação global das cadeias de suprimento e adota o que se chama de ‘multialinhamento estratégico’. O bloco beneficia-se da abordagem “China+1” adotada por empresas ocidentais – isto é, da busca por um segundo fornecedor como forma de proteção, sem se comprometer com um alinhamento geopolítico definitivo: o comércio com a China cresceu cerca de 15% em 2024; com os EUA, aproximadamente 12%; enquanto as relações comerciais com a União Europeia permaneceram estáveis. A ASEAN é o terceiro maior parceiro comercial da União Europeia fora da Europa.
Segundo a Câmara de Comércio Suíça-Ásia, as tensões entre os Estados Unidos e a China, as tarifas alfandegárias e as regras contra o chamado transshipment – por exemplo, uma tarifa norte-americana de 40% sobre supostos redirecionamentos de produtos chineses via Vietnã ou Malásia – vêm ganhando importância para a ASEAN, já que valorizam a região como base alternativa de produção e exportação.
Ao mesmo tempo, a região continua fortemente integrada às cadeias de valor chinesas, sobretudo nos setores de eletrônicos e minerais críticos.
A ASEAN aproveita essa conjuntura para impulsionar seu próprio crescimento, fortalecer a integração intrarregional e estabelecer novas parcerias. O crescimento do PIB, entre 4% e 6% nos últimos anos, foi significativamente superior ao da UE ou dos EUA.
Como a Suíça é atualmente percebida dentro da ASEAN?
A União Europeia tornou-se parceira estratégica da ASEAN em 2020; a Suíça, por sua vez, é parceira de diálogo setorial desde 2016.
“Quando fui, entre 2016 e 2018, representante da Indonésia na Comissão Intergovernamental de Direitos Humanos da ASEAN, valorizei muito a cooperação suíça, especialmente na iniciativa de combate ao tráfico humano na região”, afirma a renomada cientista política indonésia Dinna Prapto Raharja.
O volume bilateral de comércio alcançou cerca de 28,3 bilhões de dólares em 2024. A Suíça vem aprofundando ativamente suas relações com a região, entre outras formas por meio de novos acordos de livre comércio da European Free Trade Association (EFTA) com a Malásia e Tailândia (ambos em 2025), além das negociações em andamento com o Vietnã.
“Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que a presença da Suíça dentro da ASEAN ainda é relativamente pouco conhecida”, afirma Raharja. Isso poderia ser atribuído a uma comunicação insuficiente com atores estatais e não estatais da ASEAN.
O Sudoeste Asiático está pronto para se tornar um importante parceiro econômico da Suíça?
“O Sudoeste Asiático é uma região dinâmica e de forte crescimento – tanto do ponto de vista social quanto econômico. Por isso, é promissor intensificar ainda mais a cooperação entre a Suíça e os países do Sudoeste Asiático”, afirma Dinna Prapto Raharja.
Os países da região mostram-se abertos ao intercâmbio de ideias sobre como as empresas suíças poderiam integrar-se mais fortemente ao capital humano do Sudoeste Asiático.
“A ASEAN oferece à Suíça – um pequeno estado neutro e com forte vocação exportadora, especialmente nos setores farmacêutico, de engenharia de precisão, construção de máquinas e relojoaria – uma alternativa à dependência unilateral da China”, escreve a Câmara de Comércio Suíça-Ásia.
Quais países da ASEAN são economicamente mais importantes para a Suíça?
Entre os principais parceiros destacam-se: Cingapura (o mais importante centro comercial e financeiro, com exportações suíças de cerca de 7,2 bilhões de dólares por ano); Tailândia (segundo maior parceiro comercial suíço no Sudoeste Asiático, com exportações de aproximadamente 6,2 bilhões de dólares e importante destino de investimentos); Vietnã (comércio bilateral de 2,46 bilhões de francos suíços em 2024, mais de 100 empresas suíças e forte crescimento industrial); Malásia (alto volume de investimentos diretos suíços, estimado em cerca de 7,7 bilhões de dólares, além de um recente acordo de livre comércio); e Indonésia (maior economia da região, também com mais de 100 empresas suíças e elevado potencial nas áreas de energias renováveis e infraestrutura).
Esses cinco países representam a maior parte do volume comercial da Suíça, estimado em cerca de 28 bilhões de dólares. Enquanto em Singapura e Tailândia predominam as exportações de bens suíços de alto valor agregado, no Vietnã e na Malásia importações e produção local desempenham importante papel; a Indonésia, por sua vez, é considerada um importante mercado do futuro.
Isso, contudo, reflete apenas parcialmente a importância do bloco. O espaço ASEAN vem ganhando peso como um todo graças à integração regional e à sua atratividade como “hub China+1”. Ainda assim, os países diferem profundamente entre si – basta comparar Singapura, centro de alta tecnologia, com polos industriais emergentes como o Vietnã.
Quais riscos as empresas suíças devem considerar ao investir na ASEAN?
Entre os principais riscos destacam-se as incertezas geopolíticas e comerciais, como as tarifas norte-americanas sobre os chamados transshipments – especialmente no Vietnã, na Malásia ou na Tailândia -, além da contínua dependência de componentes chineses. Também permanecem como fator de risco as possíveis tensões no Mar do Sul chinês.
“As condições regulatórias e políticas variam fortemente de país para país”, enfatiza a Câmara de Comércio Suíça-Ásia. A burocracia, os riscos de corrupção em determinados estados e a proteção desigual da propriedade intelectual representam desafios sobretudo para setores intensivos em conhecimento, como o farmacêutico e o relojoeiro.
Somam-se a isso deficiências estruturais em infraestrutura e mão de obra qualificada. Nesse contexto, ganha importância uma entrada gradual nos mercados, assim como uma ampla diversificação geográfica dentro da ASEAN, a fim de minimizar riscos.
Na visão da Câmara de Comércio, o governo suíço deveria apoiar de maneira mais direcionada os investimentos na ASEAN – especialmente por meio da ampliação dos acordos de livre comércio, de um reforço à promoção de exportações e investimentos e de maior presença diplomática.
“O essencial são condições estruturais confiáveis, redes de contato funcionais e uma estreita parceria entre setor público e privado”, declara a entidade.
Edição: Marc Leutenegger
Adaptação: Karleno Bocarro
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