The Swiss voice in the world since 1935

Quase mil mortos e mais de 50 mil desaparecidos após terremoto duplo na Venezuela

afp_tickers

Quase mil mortos e mais de 50 mil desaparecidos é o saldo do duplo terremoto na Venezuela, enquanto cresce a sensação de impotência diante da falta de ajuda oficial para resgatar rapidamente os sobreviventes.

Os terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5, ocorridos na quarta-feira (24) com menos de um minuto de intervalo, deixaram um cenário de devastação. Centenas de edifícios desabaram, especialmente em La Guaira, uma cidade costeira vizinha a Caracas, onde a população denuncia a escassa presença do governo nas operações de resgate.

Em La Guaira, parece que uma bomba nuclear caiu sobre a cidade. Prédios altos desabaram como castelos de cartas e se transformaram em montanhas de areia e escombros.

“Aqui estamos revoltados, precisamos de ajuda. Há pessoas vivas e faltam mãos e ferramentas”, disse Marlon Ochoa, sobrevivente do desabamento de um edifício. “Estou procurando minha mãe, minha esposa e meu filho.”

O governo militarizou La Guaira e restringiu o acesso.

As primeiras equipes estrangeiras de socorro já começaram a atuar neste país em crise, com um sistema de saúde colapsado e equipes de resgate precárias. Mas as operações de salvamento avançam lentamente, e ainda há corpos visíveis sob os escombros.

A população clama por ajuda à medida que o tempo passa e a possibilidade de encontrar sobreviventes desaparece.

Familiares, vizinhos e voluntários fazem o que podem em meio à destruição, mas precisam de maquinário especializado para cortar vergalhões de aço ou remover grandes blocos.

– Colapso total –

Equipes internacionais de busca e resgate de pelo menos 17 países foram mobilizadas para ajudar.

Socorristas do Chile, El Salvador, México, Colômbia, Suíça e Equador já estão no país.

O cenário é sombrio. A brigada chilena encontrou as ruínas de um conjunto habitacional em La Guaira.

“O colapso é total e há poucas chances de encontrar pessoas com vida”, disse à AFP o chefe da equipe, Nadiomar Polanco.

Em Caracas, trabalhadores iluminados por um refletor golpeavam, durante a madrugada, os escombros de um edifício desabado com marretas. “Silêncio absoluto”, gritou de repente um deles para tentar ouvir possíveis pessoas presas sob os destroços. “Uma lanterna, uma lanterna”, disse outro.

O governo da presidente interina, Delcy Rodríguez, comemora alguns resgates, embora sem informar quantos. Seu irmão, Jorge Rodríguez, presidente do Parlamento, divulgou o balanço mais recente de vítimas fatais: 920.

Mas o governo contabiliza apenas algumas centenas de desaparecidos, número muito inferior ao informado pelas Nações Unidas.

O chefe da ajuda humanitária da ONU, Tom Fletcher, disse à AFP, em Genebra, que o paradeiro de mais de 50 mil pessoas é desconhecido. “Trata-se de uma operação de resgate extremamente complexa”, afirmou.

Uma lista não oficial de desaparecidos que circula nas redes sociais reúne os nomes de mais de 52 mil pessoas.

Pelas redes sociais, são divulgadas fotos de desaparecidos, a maioria em La Guaira, enquanto os hospitais exibem listas dos sobreviventes que recebem atendimento médico.

– “As autoridades não servem para nada” –

Histórias trágicas surgem a cada minuto: algumas pessoas perderem suas casas, suas famílias; outras perderem tudo.

“Ele está ali”, soluça Alessandro del Giudice, de 23 anos, enquanto procura o pai sob uma montanha de escombros.

Sua avó, Amparo, tenta retirar os destroços com as próprias mãos. “São muitas pedras e, com as mãos, não dá”, lamenta.

“As autoridades não servem para nada. Os militares deveriam estar aqui com todo o maquinário que têm”, acrescenta.

A presidente, que assumiu interinamente o poder após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos em janeiro, declarou La Guaira “zona de desastre”. A AFP constatou saques no local na quinta-feira.

– “Venham ajudar” –

A líder da oposição e vencedora do Nobel da Paz María Corina Machado pediu a libertação de “todos os presos políticos”, civis e militares, “para que possam ser recebidos por suas famílias nestas horas trágicas”.

Após o presidente Donald Trump prometer ajudar seus “novos e grandes amigos”, os Estados Unidos anunciaram o envio de 150 milhões de dólares (R$ 819 milhões), além de dois navios de guerra, aviões de transporte e helicópteros para apoiar a Venezuela.

A força dos terremotos foi sentida até na Colômbia. Desde então, mais de 130 réplicas foram registradas. A Venezuela é um país sujeito à atividade sísmica, mas não registrava um terremoto de grande magnitude desde 1997.

Os jogos da Copa do Mundo de futebol desta sexta-feira respeitaram um minuto de silêncio em homenagem às vítimas na Venezuela.

bur-jt/lbc/lm/aa/am

Mais lidos

Os mais discutidos

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR