Restrições drásticas ao transporte público entram em vigor em Cuba
Restrições drásticas ao transporte interprovincial entram em vigor nesta quinta-feira (18) em Cuba, afetada pela falta de combustível e onde os assentos em trens e ônibus – cada vez mais escassos – são reservados para doentes, funerais e outras emergências.
A ilha de 9,6 milhões de habitantes funciona praticamente sem combustíveis desde janeiro, quando os Estados Unidos cortaram suas importações de petróleo como parte de uma campanha de pressão destinada a forçar uma mudança de regime.
O transporte, que já enfrentava a pior crise econômica de sua história recente, foi praticamente paralisado por completo enquanto os postos de gasolina ficam sem combustível.
A partir desta quinta-feira, os trens que partem de Havana com destino às cidades do leste passaram a circular apenas a cada 16 dias, em vez de cerca de três por semana como antes.
Os ônibus estatais, que antes operavam pelo menos uma vez por dia para as capitais provinciais, passarão agora a fazê-lo entre uma e três vezes por semana.
O vice-ministro de Transporte, Luis Ladrón de Guevara, enfatizou que não serão necessárias permissões para viajar, mas que funcionará como um “sistema de prioridades”. Os passageiros deverão solicitar suas viagens com sete dias de antecedência.
Cuba prometeu resistir à pressão dos Estados Unidos enquanto anuncia reformas para atrair investimentos e compensar a saída de capital estrangeiro.
“Impulsionaremos o transporte elétrico vinculado a fontes renováveis”, assegurou o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, durante uma reunião da alta direção do Partido Comunista (único), transmitida pela TV estatal nesta quinta-feira.
– Vidas em jogo –
As novas restrições ao transporte interprovincial afetam o sistema estatal, do qual a maioria dos cubanos depende.
Embora pequenos grupos de táxis e caminhões privados continuem operando para outras cidades, suas tarifas até 200 vezes superiores às do transporte estatal acabam sendo proibitivas.
Em frente a um escritório estatal de venda de passagens em Havana, Madelaine Montero, de 51 anos, esperava na quarta-feira uma passagem para levar seu pai, um paciente oncológico com mais de 80 anos, para sua casa em Granma, cerca de 750 km a leste.
Ela disse à AFP que seu pai precisa estar ali 20 dias antes de sua próxima consulta para fazer exames, “caso contrário não pode receber tratamento”.
A poucos metros, José Manuel García, de 60 anos, que é cego de um olho e recebe tratamento por um deslocamento de retina no outro, procurava uma passagem para voltar para Santiago de Cuba.
Ele teme ter que interromper seu tratamento, disponível apenas em Havana, se continuar “tão difícil” de se deslocar.
– Fora do alcance –
Em Havana, os ônibus urbanos praticamente desapareceram, deixando muitos sem outra opção a não ser ir a pé para o trabalho ou para a escola sob temperaturas próximas a 40ºC.
Com o combustível à venda no mercado informal por até 8 dólares (cerca de 40 reais) por litro, mesmo um trajeto curto de táxi pode consumir a maior parte do salário de um trabalhador estatal, enquanto algo tão básico como viajar dentro do país se tornou incerto.
“O transporte está péssimo”, comenta Alexi Martínez, uma trabalhadora da saúde pública de 56 anos, que destina quase todo seu salário para pagar transporte de ônibus para sua mãe idosa e diabética na capital. “Tenho que fazer isso porque sou filha única”, diz.
“Com os preços tão altos (…), as pessoas ficam em casa”, queixa-se Julio César Padrón, de 30 anos, motorista de um caminhão Chevrolet adaptado para o transporte de passageiros com 40 assentos.
Na quarta-feira, dezenas de pessoas permaneciam à beira de uma rodovia com oito faixas de rolamento na saída de Havana, tentando parar veículos ao mostrar maços de cédulas.
Para muitos cubanos, as novas restrições implicam também em se afastar de suas famílias.
Guadalupe Pérez, de 54 anos, chegou a Havana de trem, vinda de Holguín, com parte de sua família, dois dias antes das restrições entrarem em vigor. Ela se despediu “do resto da família e de tudo” em sua terra natal, sem saber quando poderá voltar.
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