Retorno do grupo sul-coreano BTS relembra o lado obscuro do K-Pop
O K-Pop transborda talento, estilo e trabalho árduo, mas a bem-sucedida indústria musical sul-coreana também tem um lado obscuro, às vezes com resultados trágicos.
De olho no show de retorno do BTS no sábado (21), a AFP analisa a intensa competição, o treinamento exaustivo, o controle sobre a vida das estrelas e o comportamento às vezes obsessivo dos fãs.
– 300 grupos –
As gravadoras sul-coreanas lançam dezenas de novos grupos todos os anos, com a esperança de que se tornem os próximos BTS ou Blackpink, mas, com cerca de 300 grupos já em atividade, alcançar um grande sucesso é difícil.
A pequena minoria dos milhares de jovens aspirantes que superam a fase de audições pode enfrentar jornadas de 15 horas de sessões de academia, aulas de canto, compromissos promocionais e ensaios de dança.
Às vezes não dormem em casa, mas sim em beliches em quartos compartilhados, com um controle rigoroso sobre suas vidas, incluindo o que comem, seus pesos e suas aparências.
Em uma entrevista à AFP em 2020, a ex-integrante do Nine Muses, Ryu Sera, o comparou com um “sistema de produção em massa tipo fábrica”, onde as pessoas são tratadas como “produtos substituíveis”.
Mas os responsáveis da indústria argumentam que esta estrutura competitiva é o que mantém o sucesso do K-Pop.
“Não podemos ajudar aqueles que receberam uma oportunidade de crescimento pessoal, mas não conseguiram seguir o ritmo dos demais”, disse Oh Chang-seok, empresário do Blitzers, à AFP em 2021.
A divisão de poder entre as gravadoras e as estrelas do K-Pop antes era muito desequilibrada, com “contratos de escravidão” que impunham uma divisão desigual de lucros e vinculavam os artistas por mais de uma década.
Após uma batalha judicial que envolveu o grupo TVXQ, a Comissão de Comércio Justo revisou os contratos-padrão e introduziu, em 2009, mudanças que limitam os contratos iniciais a sete anos.
– Sem citações –
Os fãs podem se tornar obsessivos, e a indignação pelos boatos de que suas estrelas favoritas poderiam estar em relações amorosas virou uma característica da indústria.
Quando surgiram rumores de que Jung Kook, do BTS, estava namorando Winter, cantora do Aespa, os fãs enviaram um caminhão com um outdoor para a sede da gravadora HYBE o acusando de “traição”.
Karina, do Aespa, enfrentou problemas similares quando assumiu seu relacionamento com um ator em 2024, provocando a ira de seus seguidores, que também enviaram um caminhão. “Não recebe amor suficiente dos seus fãs?”, dizia a mensagem.
Karina pediu suas “sinceras desculpas”, em uma carta escrita à mão, prometendo que “não os decepcionaria” de novo e, pouco depois, o casal terminou.
Outros levaram as coisas a extremos perigosos.
Em 2024, Sunwoo, do The Boyz, foi agredido quando um fã se escondeu em uma escada de emergência para confrontá-lo. A gravadora do grupo afirmou ter detectado também um dispositivo de rastreamento em seu veículo.
Neste mês, uma mulher brasileira foi acusada de assediar Jung Kook, do BTS. Ela teria tocado a campainha da casa dele e deixado, “por amor”, uma carta 23 vezes em um mês.
Kim Seong-sheen, professor de educação em convergência criativa na Universidade Hanyang de Seul, culpa a forma como a indústria estruturou a relação entre grupos e fãs.
“Os fãs passaram a ocupar o papel não de simples consumidores, mas de participantes que investem suas emoções e tempo”, detalhou Kim à AFP.
“A indústria operou durante muito tempo sob a premissa de controlar a vida privada dos ídolos e manter uma ilusão de intimidade para sustentar este compromisso”, acrescentou.
– Assédio online –
A indústria presenciou vários suicídios suspeitos, o mais recente em 2023, quando Moonbin, de 25 anos, do grupo ASTRO, foi encontrado morto em sua casa.
Embora os profissionais de saúde mental alertem que raramente existe um único fator desencadeante, alguns artistas foram submetidos a um intenso assédio online e a um rigoroso escrutínio de suas vidas pessoais, tanto por parte dos fãs como de seus representantes.
Bang Si-hyuk, criador do BTS e presidente da HYBE, questionou em uma entrevista à CNN em 2023 se tais críticas eram “justificáveis”, sugerindo que as condições não são melhores no pop ocidental.
O comentarista cultural Kim Do-hoon destacou que um problema mais profundo reside na estrutura hierárquica da indústria entre a gestão e os cantores.
Ao contrário de muitos grupos em outros lugares, os grupos de K-Pop são formados por agências que investem tempo e dinheiro para treiná-las em um sistema vertical. O BTS foi criado da mesma maneira.
“É um sistema muito hierárquico que, em sua essência, não mudou com o passar dos anos”, confirmou.
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