As derrotas de Lula, vitórias da extrema-direita, e o Mercosul mais perto da Europa
A entrada em vigor, provisória, do acordo de livre-comércio entre os países do Mercosul e da União Europeia ocupou todas as mídias suíças nesta semana. As duas derrotas seguidas inflingidas pelo Congresso ao governo Lula também foram destaque.
Além desses assuntos, matéria do Neue Zürcher Zeitung analisa o futuro do mercado de açúcar – e como isso pode afetar o Brasil, um dos maiores exportadores mundiais do produto. E, por fim, uma boa notícia: governo português anuncia investimento bilionário contra catástrofes ambientais.
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Mercosul e UE: ainda tem chão pela frente
Duramente criticado pela França e pelo setor agrícola, mas amplamente apoiado por Bruxelas, Espanha e Alemanha: o acordo comercial entre a União Europeia e os países latino-americanos do Mercosul entra em vigor nesta sexta-feira, a título provisório.
O tratado, fruto de mais de 25 anos de árduas negociações, criará uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com mais de 700 milhões de consumidores. As primeiras consequências de sua aplicação são imediatas, segundo Bruxelas.
A partir desta sexta-feira, os direitos aduaneiros sobre automóveis, produtos farmacêuticos ou vinho, que a UE exporta para a Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai, serão “eliminados ou consideravelmente reduzidos”.
Mas ainda há muitas vozes contrárias dentro do bloco europeu. Como relata o diário genebrino Le Temps, “Esse acordo comercial passou por inúmeras reviravoltas desde o início das negociações, iniciadas no final da década de 1990. E não é à toa: os dois lados estão fundamentalmente divididos quanto aos seus efeitos.”
Para seus defensores, com Berlim e Madri à frente, esse texto permitirá relançar a economia europeia, que vem sofrendo com a concorrência da China e as tarifas alfandegárias dos Estados Unidos.
Para seus críticos, o risco é, ao contrário, abalar a agricultura europeia com produtos importados mais baratos e que nem sempre respeitam as normas da UE, devido à falta de controles suficientes. Entre eles estão a França, a Polônia e muitos agricultores.
Na esperança de apaziguar esse grupo, Bruxelas fez uma série de concessões nos últimos meses, incluindo garantias reforçadas para os produtos mais sensíveis.
O programa Zoom Info da TV pública suíça de língua francesa RTS produziu uma reportagem em três partes, analisando quem sai perdendo e quem sai ganhando.
Fontes: Le Temps,Link externo BlickLink externo, RTS Link externo(francês), WatsonLink externo (alemão) em 1° de maio.
Duelo na Praça dos Três Poderes
“Luta pelo poder no Brasil: Congresso reduz drasticamente a pena de prisão do ex-presidente Bolsonaro.” Assim manchetou o Berner Zeitung (BZ), diário da capital suíça, o segundo golpe dado pelo chamado Centrão do Congresso Brasileiro contra o presidente Lula. No dia anterior, o Senado havia reprovado a indicação do governo para o Supremo Tribunal Federal (STF), o advogado Jorge Messias.
Mas o BZ e demais mídias que reproduziram a notícia, salientaram que esta não foi a última palavra no caso. Bolsonaro cumpre atualmente uma pena de mais de 27 anos por tentativa de golpe de Estado e está em prisão domiciliar por motivos de saúde. Com a nova regulamentação, os cálculos centrais da pena poderiam sofrer alterações, o que poderia afetar a duração do cumprimento da pena.
Segundo avaliação do jornal «Folha de São Paulo», sua pena poderia ser reduzida em alguns anos. No entanto, uma adaptação concreta só ocorrerá após uma análise pelo Supremo Tribunal Federal e não é automática. Além disso, a lei ainda pode ser contestada perante esse tribunal – tal medida é considerada provável.
Novas regras alteram fundamentalmente o cálculo da pena
A nova regulamentação diz respeito às condenações relacionadas aos distúrbios de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores do então presidente invadiram prédios do governo em Brasília.
O ponto central da nova regulamentação é que, em caso de múltiplos crimes, as penas não serão mais somadas integralmente. Em vez disso, será aplicada apenas a pena correspondente ao crime mais grave, que poderá ser aumentada dentro de um determinado limite. Além disso, sob certas condições, são possíveis outras reduções de pena.
Fonte: Le TempsLink externo (francês), Berner ZeitungLink externo, Basler ZeitungLink externo, Nau.chLink externo (alemão), em 1° de maio de 2026.
Lula na corrida
Enquanto isso, a edição francesa do jornal Blick foi um pouco além na cobertura, publicando uma análise do estado das coisas na corrida eleitoral para a presidência.
“Atrás nas pesquisas, Lula busca uma estratégia para enfrentar a direita brasileira”, diz o diário. “A seis meses das eleições presidenciais no Brasil, Lula enfrenta a ascensão do conservador Flávio Bolsonaro, que o ultrapassa nas pesquisas. Um alerta para o presidente em fim de mandato, já enfraquecido por escândalos.”
Entre os desafios de Lula elencados pelo jornal, estão em primeiro lugar a ascenção do filho de Jair Bolsonaro, Flavio, nas recentes pesquisas de intenção de voto. Segundo as sondagens, Flavio e Lula encontram-se em empate técnico, com vantagem para o candidato da extrema-direita.
A esquerda teve que lançar a contra-ofensiva. Lula, que por lei não pode fazer campanha antes de agosto, destaca suas reformas nas áreas da saúde e da educação. E apresenta medidas para conter os efeitos da guerra no Oriente Médio, endurecendo o tom em relação ao seu homólogo americano, Donald Trump.
O descontentamento dos jovens, e a percepção de que os grandes escândalos de corrupção em curso (Banco Master e INSS, por exemplo) ocorreram no atual governo Lula acumulam um peso enorme nas campanhas governistas.
Fonte: BlickLink externo, em 25.04.2026 (francês).
Açúcar amargo
A ameaça de um imposto sobre a saúde, cigarras vorazes e preços baixos no mercado afetam o maior fabricante de açúcar da Europa, noticia o zuriquenho Neue Zürcher Zeitung (NZZ).
A grande fábrica de Offstein, perto de Mannheim, é uma das maiores unidades da Südzucker, o maior fabricante de açúcar da Europa, com uma produção anual de quase quatro milhões de toneladas. A empresa completa cem anos este ano, no entanto as comemorações dificilmente ocorrerão de forma despreocupada.
No mercado, há um excesso de oferta que deve aumentar ainda mais nos próximos anos, também devido a acordos comerciais como o Mercosul. O preço da matéria-prima doce já caiu drasticamente por causa disso. Paralelamente, os lucros da Südzucker desmoronaram como algodão-doce sob chuva forte.
Novas tendências também podem reduzir ainda mais a demanda. Por exemplo, a popular injeção para emagrecer Ozempic também deve, de quebra, tirar a vontade dos consumidores de comer doces. Mas, acima de tudo, há a política. Em outras empresas, os responsáveis reclamam que ela não faz o suficiente contra a burocracia crescente e os altos preços da energia.
Um slide com texto denso, projetado pelos executivos da Südzucker, mostra que,após a invasão da Ucrânia pela Rússia, a UE abriu suas portas ao açúcar isento de impostos proveniente da Ucrânia, e o Acordo do Mercosul permite importações isentas de impostos do Brasil. É possível que a Índia, outro grande produtor, venha a se juntar a essa lista em breve. Além disso, as regras europeias sobre o regime de aperfeiçoamento ativo estariam sendo usadas como brecha para a importação de açúcar barato do exterior.
Os agricultores alemães dificilmente conseguiriam competir nessa situação, afinal, eles precisam cumprir exigências relacionadas à proteção climática e à jornada de trabalho que não existem em outros países. E, ao mesmo tempo, enfrentam desafios cada vez novos. Por exemplo, o cigarrinha-de-asas-de-vidro. Esse inseto discreto vem se espalhando na Alemanha há alguns anos, infestando campos inteiros e, assim, colocando em risco as colheitas. Entretanto, já se conseguiu controlá-lo a ponto de não haver mais risco de perdas totais.
Fonte: NZZLink externo, em 28.04.2026 (alemão).
Para perder o medo da chuva e do fogo
Portugal investirá 22,6 bilhões de euros para reconstruir as infraestruturas destruídas pelas tempestades de inverno e reforçar sua resiliência diante de desastres naturais, anunciou o primeiro-ministro Luís Montenegro nesta terça-feira.
Com cerca de uma centena de medidas a serem implementadas até 2034, este programa representa “um investimento na segurança coletiva”, declarou o primeiro-ministro Luis Montenegro. “O valor total do plano ascende a 22,6 bilhões de euros, repartidos entre investimentos públicos e privados. Seu financiamento é majoritariamente nacional, mas também incorpora uma parcela de fundos europeus”, precisou ele.
A primeira das três vertentes deste programa diz respeito à reconstrução das regiões afetadas, onde as tempestades e as enchentes causaram prejuízos estimados em 5,3 bilhões de euros. O segundo prevê um orçamento de 15 bilhões de euros para proteger melhor o país contra os efeitos das catástrofes naturais, incluindo, em particular, uma reforma do sistema de emergências médicas, o reforço das redes de distribuição de água e energia, ou ainda a construção de quatro novas barragens.
A terceira vertente, no valor de 2,3 bilhões de euros, concentra-se em medidas destinadas a melhorar as respostas a esse tipo de intempéries, com, por exemplo, a criação de um “fundo para catástrofes naturais e sísmicas destinado a um sistema de seguro obrigatório para residências e empresas”, explicou o chefe do governo de centro-direita.
Entre 22 de janeiro e 15 de fevereiro, Portugal foi atingido por sete tempestades sucessivas, acompanhadas por ventos que chegaram a 130 km/h, chuvas intensas, inundações e deslizamentos de terra.
Fonte: BlickLink externo, em 28.04.2026 (francês).
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