FIFA enfrenta ameaça inédita de boicote europeu e Trump amplia guerra comercial
Da ameaça de boicote europeu à Copa do Mundo às novas tarifas de Donald Trump contra Suíça e Brasil, passando pelo agravamento da crise entre Lula e Javier Milei, a imprensa suíça acompanhou uma semana marcada por confrontos que podem ter consequências muito além de suas fronteiras.
Quem imaginava que, encerrada a Copa do Mundo de 2026, o futebol sairia das manchetes se enganou. Nesta semana, o principal torneio do planeta voltou ao centro do debate, mas por motivos bem diferentes dos gols e das comemorações. Ao mesmo tempo, Donald Trump abriu uma nova frente da guerra comercial, atingindo dezenas de parceiros comerciais — entre eles Suíça e Brasil — enquanto a campanha eleitoral brasileira provocou um dos maiores atritos diplomáticos entre Brasília e Buenos Aires das últimas décadas. A imprensa suíça acompanhou de perto esses três movimentos, revelando como esporte, economia e política internacional estão cada vez mais interligados.
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Europa ameaça esvaziar as próximas Copas do Mundo
A maior crise institucional do futebol mundial desde a criação da UEFA dominou as páginas esportivas da imprensa suíça.
A Tribune de GenèveLink externo revelou que as 55 federações nacionais filiadas à UEFA aprovaram, por unanimidade, a ameaça de boicotar todas as competições organizadas pela FIFA enquanto permanecer sobre a mesa o projeto de criar uma empresa comercial aberta a investidores privados. Na prática, a entidade presidida por Gianni Infantino pretende vender parte dos direitos comerciais das competições, incluindo a Copa do Mundo, para captar bilhões de dólares destinados ao desenvolvimento global do futebol.
Para a UEFA, porém, a proposta ultrapassa um limite considerado inegociável. Em comunicado divulgado após uma reunião de emergência, a entidade europeia afirmou que “ninguém tem o direito moral de vender algo que administra apenas temporariamente para entregá-lo às próximas gerações”. O texto deixa claro que, mesmo que a maioria das 211 federações nacionais da FIFA aprove a proposta, os europeus não pretendem legitimá-la.
O jornal de Genebra chama atenção para um detalhe importante: o primeiro grande torneio afetado pode ser justamente a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil. Caso o impasse continue, seleções como Espanha, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Holanda, Portugal e Suíça poderiam simplesmente não disputar a competição, esvaziando tecnicamente o torneio.
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O WatsonLink externo concentrou sua cobertura na posição suíça. O portal destacou que a Associação Suíça de Futebol aderiu integralmente ao movimento europeu e que seu presidente, Peter Knäbel, saiu impressionado com o consenso entre as federações após conhecer os detalhes da proposta da FIFA.
Segundo Knäbel, o futebol realmente precisa de mais recursos para continuar crescendo, mas isso não pode acontecer às custas da transparência, da governança e dos mecanismos democráticos que historicamente orientam as entidades esportivas.
O portal suíço também lembra que Gianni Infantino vive seu momento mais delicado desde que assumiu a presidência da FIFA, há mais de uma década. A venda parcial dos direitos comerciais foi apresentada pelo dirigente como “uma oportunidade única” para acelerar o desenvolvimento do futebol mundial. A UEFA, entretanto, acusa a FIFA de ter elaborado praticamente todo o projeto em segredo, sem consultar as federações nacionais nem outros atores importantes do esporte.
O confronto vai muito além de uma simples disputa administrativa. Pela primeira vez, a Europa sinaliza que está disposta a abrir mão da própria Copa do Mundo para impedir mudanças que considera irreversíveis. Para um torneio cuja força esportiva depende justamente da presença das maiores seleções do planeta, trata-se de uma ameaça sem precedentes.
Fonte: Tribune de GenèveLink externo & WatsonLink externo em 30.07.2026 (francês)
Trump amplia a guerra comercial e Suíça reage às acusações
Enquanto o futebol vivia sua maior crise política em décadas, a economia internacional também entrou em uma nova fase de tensão.
O WatsonLink externo explicou que Donald Trump elevou de 10% para 12,5% as tarifas sobre diversos produtos suíços exportados para os Estados Unidos. A justificativa apresentada pela Casa Branca foi a de que a Suíça, assim como dezenas de outros parceiros comerciais, não combate de maneira suficientemente eficaz o trabalho forçado em suas cadeias de suprimentos.
Segundo o jornal, a medida decorre de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que analisou se diferentes países eliminaram completamente produtos associados ao trabalho forçado.
A reação suíça foi imediata.
O Departamento Federal da Economia rejeitou “com firmeza” as acusações americanas, lembrando que o trabalho forçado é proibido pela Constituição suíça, pelo direito civil e pela legislação penal do país. A entidade empresarial Economiesuisse classificou as novas tarifas como “incompreensíveis” e “injustificadas”, alertando que elas reduzem a competitividade das empresas suíças justamente em relação a concorrentes europeus, que permaneceram sujeitos a tarifas menores.
O 24 HeuresLink externo ampliou o foco da cobertura e mostrou que a reação internacional foi praticamente imediata. Noruega, Japão, China, Austrália, Nova Zelândia e Filipinas também criticaram duramente as novas tarifas americanas, todas rejeitando a acusação de que permitiriam a entrada de produtos oriundos de trabalho forçado.
A União Europeia, por outro lado, recebeu a decisão com relativo alívio. O jornal explica que Bruxelas conseguiu manter o teto tarifário previsto no acordo comercial firmado anteriormente com Washington, preservando vantagens importantes para produtos europeus.
Fonte: WatsonLink externo & 24 HeuresLink externo em 24.07.2026 (francês)
Brasília leva disputa à OMC
Se a Suíça respondeu com indignação às novas tarifas americanas, o Brasil decidiu partir para o confronto jurídico.
O 24 HeuresLink externo informa que o governo brasileiro apresentou uma nova queixa contra os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC), argumentando que as tarifas impostas por Donald Trump violam as regras do comércio internacional. Segundo o jornal de Lausanne, Brasília considera que Washington utiliza argumentos ligados ao combate ao trabalho forçado para justificar medidas que, na prática, têm forte componente político e econômico.
Mas a disputa vai além das tarifas.
O Le TempsLink externo mostra que o Brasil passou a ocupar um papel estratégico na crescente rivalidade entre Estados Unidos e China por minerais considerados essenciais para a economia do futuro. O foco está nas chamadas terras raras, grupo de elementos indispensáveis para a fabricação de semicondutores, baterias, carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos militares e tecnologias de inteligência artificial.
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A reportagem explica que investidores americanos e dos Emirados Árabes Unidos negociam o controle de uma mineradora brasileira detentora de importantes reservas desses minerais. O movimento faz parte da estratégia de Washington para reduzir sua dependência da China, responsável hoje pela maior parte da produção e, principalmente, do processamento mundial das terras raras.
Para o Le Temps, o Brasil deixou de ser apenas um exportador de matérias-primas e tornou-se peça-chave na nova disputa pela liderança tecnológica global. Ao mesmo tempo em que busca atrair investimentos estrangeiros, o país tenta transformar suas reservas minerais em vantagem estratégica para desenvolver sua própria indústria de alta tecnologia.
Nesse contexto, a ação brasileira na OMC ganha um significado ainda maior. Mais do que contestar tarifas, Brasília procura reafirmar sua posição em um cenário internacional cada vez mais marcado pela competição entre grandes potências, em que comércio, segurança e acesso a recursos estratégicos passaram a caminhar lado a lado.
Fonte: 24 HeuresLink externo & Le TempsLink externo em 28.07.2026 (em francês)
Milei leva a campanha brasileira para uma crise diplomática
A política sul-americana também ocupou espaço importante nos jornais suíços.
O Berner ZeitungLink externo destacou que o presidente argentino Javier Milei participou, em São Paulo, da oficialização da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e aproveitou o discurso para atacar diretamente Luiz Inácio Lula da Silva.
Sem citar o presidente brasileiro pelo nome, Milei voltou a chamá-lo de “ladrão” e “prisioneiro”, além de fazer duras críticas ao Supremo Tribunal Federal e ao ministro Alexandre de Moraes, que classificou como “lixo careca”. Para o jornal da capital suíça, a reação brasileira foi inevitável.
O Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos e chamou de volta para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires — um dos gestos diplomáticos mais fortes entre dois países que mantêm uma das relações econômicas mais importantes da América do Sul.
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O 20 MinutesLink externo acrescenta que Milei ainda acusou o governo brasileiro de financiar uma suposta campanha internacional contra a Argentina durante a Copa do Mundo, sem apresentar qualquer prova para sustentar a acusação.
O jornal também lembra que Lula respondeu sem citar diretamente o presidente argentino, afirmando apenas que “no Brasil ninguém mete o nariz onde não foi chamado”. A declaração reforça o clima de distanciamento entre os dois líderes, que nunca realizaram um encontro bilateral desde que Milei assumiu a Presidência argentina, no fim de 2023.
Para a imprensa suíça, a crise acontece justamente quando Brasil e Argentina vivem momentos políticos decisivos. Enquanto Lula busca um novo mandato em outubro, Milei aposta no fortalecimento da direita latino-americana e transforma a eleição brasileira em mais um capítulo da disputa ideológica que atravessa o continente.
Fonte: Berner ZeitungLink externo (alemão) & 20 MinutesLink externo (francês) em 27.07.2026
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Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 7 de agosto. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!
Até a próxima semana!
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