Lula e Flávio de olho nas mulheres, enquanto Portugal proíbe o véu
Assuntos do Brasil e de Portugal ocuparam uma boa parte da mídia suíça nos últimos dias, da política ao cinema. Nossa Revista de Imprensa desta semana oferece um resumo das principais notícias. Confira.
E foi dada a largada: o início oficial da campanha eleitoral no Brasil repercutiu na imprensa suíça, onde foram levantados diversos aspectos da disputa para a presidência da República entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (preso por tentativa de golpe de Estado). Leia o nosso resumo abaixo.
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A disputa pelas mulheres
O diário genebrino Le Temps destacou a corrida pelo voto feminino. Lula lançou sua última campanha em São Bernardo do Campo, onde defendeu a igualdade entre homens e mulheres. Na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, o senador Flávio Bolsonaro, por sua vez, prometeu “proteger as mulheres deste país”. Não se trata de retórica, afinal as mulheres constituem 53% do eleitorado no Brasil. Além disso, elas votam mais do que os homens e contribuíram para a vitória apertada de Lula em 2022.
Uma pesquisa do instituto Quaest divulgada na sexta-feira passada atribui ao presidente em fim de mandato 43% das intenções de voto, contra 40% para o filho de Bolsonaro, na hipótese de um segundo turno. Diante das tarifas impostas por Donald Trump, aliado da família Bolsonaro, Lula se apresenta como defensor da “soberania” brasileira, mas manteve discrição sobre o tema no domingo.
A emissora pública SRF por sua vez destacou as promessas econômicas de Lula de criação de empregos, em um discurso emotivo no mesmo lugar onde, quando líder sindical, enfrentou a ditadura militar e foi uma das principais caras da campanha pela redemocratização do país. Do lado de Flávio, discursando no mesmo dia em Copacabana, a SRF reproduziu um dos principais motes do senador: “Vou garantir que haja juízes íntegros na Suprema Corte, homens e mulheres que sejam contra o uso de drogas e respeitem nossa Constituição.”
Fontes: srf.ch, Link externo18.08.2026 (alemão); Le TempsLink externo, 17.08.2026 (francês)
Marco na defesa das mulheres, Lei Maria da Penha se expande
Independentemente de Lula ou de Flávio, o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil deu um passo importante na proteção das mulheres, conforme relatou o diário Blick.
O STF reforçou as medidas de proteção às mulheres contra a violência de gênero, em um país onde o número de feminicídios não parou de aumentar nos últimos anos. Em uma sessão plenária na quarta-feira, os dez juízes da mais alta instância judicial do Brasil decidiram por unanimidade que as medidas de proteção previstas em lei devem ser aplicadas também fora do âmbito da violência doméstica.
De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma ONG de referência, o número de feminicídios aumentou 14,5% nos últimos cinco anos, chegando a 1.571 mortes em 2025, ou seja, mais de quatro por dia. Não é à toa que os candidatos à presidência levem o assunto tão à sério.
Fonte: Blick.chLink externo, 20.08.2026 (francês)
Portugal proíbe o uso do véu integral
O presidente português António José Seguro sancionou uma lei aprovada por iniciativa da extrema direita que proíbe a ocultação do rosto em público e que, na prática, visa as mulheres muçulmanas que usam o véu integral.
“O rosto deve ser considerado um elemento central da identidade e da comunicação humanas”, explicou o chefe de Estado em um comunicado divulgado na noite de terça-feira.
O ex-líder do Partido Socialista reconheceu, no entanto, que se tratava de um assunto “de grande sensibilidade social e cultural”.
As infratoras estão sujeitas a multas que variam de 150 a 3.000 euros. Estão previstas isenções, principalmente por motivos de saúde, profissionais, artísticos ou climáticos, bem como em locais de culto, representações diplomáticas e aeronaves.
Fontes: Blick.chLink externo, Tribune de GenèveLink externo, 24HeuresLink externo, 19.08.2026 (francês)
Festival de Cinema de Locarno: Basil da Cunha entrega a última parte de sua trilogia da Reboleira
O diretor luso-suíço, nascido em Morges de pais imigrantes, consolidou uma carreira cinematográfica singular fora dos círculos estabelecidos tanto de Portugal quanto da Suíça.
Depois de estudar cinema na Suíça, da Cunha se mudou para Lisboa, mas, sem um tostão, acabou indo parar no distrito da Reboleira, à época uma favela habitada principalmente por imigrantes caboverdeanos e seus descendentes. Logo começou a filmar independentemente com os próprios locais, amalgamando suas histórias pessoais.
Daí saíram seus primeiros dois longa-metragens, O Fim do Mundo (2020) e Manga d’Terra (2023). Agora, no 79° Festival de Locarno, que encerrou-se no último domingo, o terceiro filme da trilogia, O Jacaré, concorria ao Pardo d’Oro, o principal prêmio do festival.
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Mesmo sem levar nada, Basil da Cunha já firmou seu nome não apenas no circuito lusófono como também no europeu, e agora parte para o desafio de realizar séries.
O jornal online WatsonLink externo publicou uma entrevista com o diretor, que não foi o único destaque lusófono do festival, onde brasileiros e portugueses “fizeram bonito”: o diretor português Edgar Pêra trouxe seu mais recente filme, o sensacional Guerrilha no Asfalto, mas infelizmente o filme não estava em competição.
Já o Brasil levou dois prêmios para casa: o Prêmio Especial do Júri foi para A Margem do Rio, dos recifenses Enock Carvalho e Matheus Farias, enquanto a realizadora Ana Vaz levou uma Menção Especial por Hanabi. A Swissinfo estava lá e conferiu:
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A pequena cidade espanhola que Portugal reivindica como sua
Uma disputa fronteiriça secular ressurge repetidamente. Reportagem da rede pública SRF faz uma visita a Olivenza, provavelmente a cidade mais portuguesa da Espanha.
Quem não conhece bem a cidade poderia facilmente concluir que Olivenza é uma pequena cidade portuguesa. Principalmente no centro histórico: muitas ruelas, calçadas e praças são pavimentadas com os típicos padrões em preto e branco. “Isso é o que se chama de pavimentação portuguesa”, diz o historiador local Luis Alfonso Limpo.
Limpo trabalhou durante anos no arquivo municipal e conhece a história de sua cidade de cor e salteado. De fato, Olivenza esteve sob a coroa portuguesa por cinco séculos; só a partir de 1801 é que a cidadezinha passou a ser espanhola.
Em Portugal, ainda hoje há vozes que consideram Olivenza (ou Olivença, como se escreve em português) parte de seu país. Há cerca de dois anos, o então ministro da Defesa português, Nuno Melo, ganhou as manchetes. À margem de uma visita a uma base militar próxima à fronteira – ou seja, em missão oficial –, ele declarou à imprensa: “Olivença é portuguesa e deveria ser devolvida ao Estado português.”
Em Olivença, a visão é diferente, embora muitos moradores tenham consciência de suas raízes portuguesas. Há alguns anos, as pessoas de famílias de origem portuguesa podem adquirir a nacionalidade portuguesa, além da espanhola.
A disputa fronteiriça, que de vez em quando volta a se acirrar, não tem, de qualquer forma, importância no dia a dia das pessoas. As relações entre Olivenza e Elvas, a pequena cidade portuguesa do outro lado da fronteira, são boas. O prefeito de Olivenza é até casado com uma mulher de Elvas.
Fonte: SRFLink externo, 17.08.2026 (alemão)
O petróleo é nosso?
Alguns dias antes dos comícios, Lula celebrava a descoberta de imensas reservas de petróleo em águas profundas a 175 kms da costa da Amazônia – a chamada “margem equatorial” – mas a exploração dessa bacia ainda é controversa.
Como destaca o jornal Le Temps de Genebra, “organizações de defesa do meio ambiente alertaram sobre um risco para uma região rica em biodiversidade localizada na costa da maior floresta tropical do mundo.”
O petróleo descoberto é “um passaporte para o futuro deste país e, ao dizer isso, não renego minha luta para que, um dia, não precisemos mais de combustíveis fósseis”, afirmou Lula na segunda-feira na base de operações da Petrobras, vestindo um macacão laranja. Ele considerou que a exploração de novas reservas fortalecerá a “soberania nacional”.
“A descoberta de petróleo não resolve os problemas identificados no processo de concessão da licença ambiental”, afirmou à AFP Suely Araujo, coordenadora da rede de ONGs Observatório do Clima. Segundo a especialista, as populações indígenas da região não foram consultadas antes da autorização das perfurações e houve erros de cálculo sobre as consequências de um possível derramamento de óleo.
Fonte: Le TempsLink externo, 18.08.2026 (francês)
O destino do planeta em um punhado de árvores
O tabloide Blick repercutiu um estudo publicado em julho, que concluiu que, na Amazônia, entre 15 e 25 espécies de árvores pioneiras desempenham um papel fundamental na regeneração de áreas desmatadas. Essas árvores absorvem carbono e promovem a biodiversidade.
Fernando Elias, pesquisador do Museu Emilio Goeldi (Pará),
conduziu um estudo publicado no mês passado pela revista científica Global Change Biology, com o objetivo de analisar as florestas secundárias que surgem em áreas desmatadas na Amazônia brasileira.
Segundo ele, as espécies pioneiras identificadas pelo estudo “possuem uma capacidade de colonização rápida”, o que permite, posteriormente, o retorno de outras espécies que, em particular, precisam de sombra para crescer, como ocorre nas florestas nativas. As florestas secundárias surgem em pastagens abandonadas, em propriedades agrícolas que faliram ou quando o proprietário de um terreno é legalmente obrigado a restaurá-lo.
Os pesquisadores identificaram, entre as espécies pioneiras, a Cecropia palmata, de tronco cinza-claro e folhas enormes em forma de mãos, bem como a Inga alba, cujas longas vagens contêm uma polpa branca, doce e comestível.
Espécies de palmeiras, como a imponente inaja e o babassu — há muito apreciado pelas comunidades rurais por suas nozes ricas em óleo —, também desempenham um papel fundamental na regeneração. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), órgão público brasileiro, uma área praticamente equivalente à da Espanha foi desmatada no Brasil nas últimas quatro décadas.
Fonte: Blick.chLink externo, 19.08.2026 (francês)
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Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 28 de agosto. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!
Até a próxima semana!
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