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Ondas de calor expõem falhas na proteção sanitária suíça

Imagem de câmera térmica
Imagem de uma câmera térmica que mostrando pessoas na Paradeplatz, em Zurique, em 30 de julho de 2026. O azul indica as temperaturas mais baixas, o vermelho as mais altas e o branco destaca as temperaturas máximas. Keystone / Gaetan Bally

A Suíça enfrenta um dos verões mais quentes de sua história. Para a epidemiologista Ana Maria Vicedo Cabrera, porém, o país ainda carece de uma estratégia nacional capaz de tratar o calor extremo como risco de saúde pública e preparar a população para verões cada vez mais severos.

“Pode parecer paradoxal, mas sofro mais com o calor na Suíça do que na Espanha”, afirma Ana Maria Vicedo CabreraLink externo. A epidemiologista espanhola e professora da Universidade de Berna estuda os impactos da mudança climática na saúde humana. “Na Espanha certamente faz mais calor do que na Suíça, mas nos acostumamos a conviver com essas condições. Na Suíça ainda não nos adaptamos”.

O atual verão é provavelmente o mais quente já registrado na Suíça. As temperaturas diárias superaram em 5 a 10 °C a média histórica. Em diversas localidades, os termômetros chegaram perto dos 40 °C e os alertas de canícula se estenderam por semanas. Em Lugano, no sul da Suíça, foram registradas 49 noites tropicais (períodos noturnos em que a temperatura mínima não fica abaixo de 20 °C), recorde desde 1865.

Diversas cidades suíças introduziram medidas contra o calor para proteger as pessoas mais vulneráveis, sobretudo homens e mulheres idosos. Essas ações vão desde campanhas de conscientização até a criação de refúgios climáticos. Hoje o calor não é mais considerado apenas um fenômeno meteorológico, mas um problema de saúde pública, ressalta Cabrera.

No entanto, a proteção contra os efeitos do calor excessivo na Suíça permanece “insuficiente”, sustenta a especialista. As medidas de enfrentamento variam significativamente de uma cidade para outra, falta uma estratégia coordenada em nível nacional e alguns grupos de risco permanecem, em grande parte, excluídos da prevenção. “No passado, o calor era visto como um problema restrito a poucos dias por ano e a poucos cantões (estados). Hoje não é mais assim: os efeitos das ondas de calor são sentidos, direta ou indiretamente, em todo o país”, afirma Cabrera.

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Acesso gratuito a piscinas

O cantão do Ticino e a cidade de Genebra foram os primeiros na Suíça a criar instrumentos e planos de ação contra a canícula, respectivamente em 2004 e 2007. Essas estratégias incluem um sistema de alerta precoce, articulação entre serviços sociais e de saúde e garantia de acesso a lugares frescos, como áreas verdes e centros comerciais climatizados.

As altas temperaturas podem provocar fadiga e insolação, desidratação, agravar diversas doenças e, nos quadros mais graves, levar à morte. Idosos, pessoas com patologias crônicas (doenças de longa duração que exigem acompanhamento contínuo), gestantes e crianças pequenas são especialmente vulneráveis.

Em Genebra, pessoas com mais de 65 anos têm acesso gratuito a duas piscinas municipais pela manhã e a três salas de cinema climatizadas à tarde durante os dias mais quentes. Cerca de 8.600 pessoas aproveitaram essas opções entre 18 de junho e 5 de agosto.

Uma pessoa sentada num banco, entre as áreas verdes à beira da estrada
Espaços verdes em vez de parques de estacionamento: uma medida de adaptação ao calor na cidade de Genebra. Keystone / Martial Trezzini

A eficácia dessas intervenções na saúde pública ainda se encontra em fase de avaliação, explica Cabrera. A iniciativa de criar refúgios climáticos, ressalta a pesquisadora, é interessante na Suíça, onde a maior parte das moradias não conta com ar-condicionado nem dispõe de isolamento térmico adequado contra o calor.

Outra vantagem desses espaços reside na oportunidade de estimular o convívio e a socialização, aspecto fundamental em um cenário de ondas de calor cada vez mais prolongadas. “Não se pode pedir às pessoas idosas que permaneçam trancadas em casa durante cinco ou seis dias consecutivos. Elas precisam fazer compras, manter laços sociais e praticar atividade física, caso contrário o seu estado de saúde pode piorar”, afirma Cabrera.

Para a pesquisadora, torna-se essencial oferecer alternativas práticas, indo além das recomendações tradicionais de evitar esforços nas horas mais quentes ou de manter uma hidratação adequada.

Nos últimos anos, outras administrações municipais e cantonais também reforçaramLink externo suas ações de combate ao calor. Berna e Lucerna oferecem contato diário com a população idosa durante as ondas de calor, enquanto Zurique disponibiliza atendimento domiciliar gratuito. Neuchâtel, por sua vez, desenvolveu neste verão um mapaLink externo que indica os bancos públicos localizados à sombra.

Críticas à proteção contra o calor

As cidades suíças têm implementado medidas contra o calor, mas continuam atrasadas em comparação com capitais como Paris, Barcelona ou outras localidades nos Estados Unidos, aponta Vicedo Cabrera. A capital francesa, por exemplo, prepara-se para um cenário extremo (“Paris a 50 °CLink externo“) mediante uma rede de pontos frescos abertos à população, maior presença de vegetação e água nos espaços públicos e planejamento urbano voltado a reduzir as ilhas de calor (fenômeno urbano em que as áreas construídas concentram e retêm mais calor do que as zonas rurais do entorno).

Eleni Myrivili, principal especialista da ONU na mitigação dos impactos do calor, criticou recentemente a adaptação insuficiente da Suíça ao aquecimento global. Em entrevistaLink externo ao jornal Schweiz am Wochenende, afirmou que um país com os recursos da Suíça deveria contar com mecanismos de proteção muito mais sólidos para grupos vulneráveis e que as mortes atribuídas ao calor no início do verão (cerca de 200Link externo) poderiam ter sido evitadas.

Para ela, emitir alertas meteorológicos não basta: é necessário garantir que a informação chegue aos idosos que moram sozinhos e estruturar redes de assistência comunitária aptas a contatá-los, atendê-los e transportá-los a locais mais frescos. “Precisamos ser mais ambiciosos na execução de medidas avançadas, capazes de reduzir ou atenuar a exposição ao calor”, concorda Cabrera.

A primeira forte onda de calor do atual verão coincidiu com um aumento na mortalidade entre a população idosa na Suíça, de acordo com registros preliminares do Departamento Federal de Estatística (FSO, na sigla em inglês). Entre 22 e 28 de junho, o total de mortes (cerca de 200Link externo) superou em aproximadamente 15% o índice esperado para o período.

Não é possível, porém, associar de forma automática esses óbitos exclusivamente ao calor. Para apurar as causas médicas determinantes e confirmar o nexo causal, será preciso aguardar as análises epidemiológicas (estudos de saúde pública que cruzam dados de mortalidade com variáveis ambientais e de saúde ao longo do tempo), cujos relatórios definitivos devem ser concluídos nos próximos anos. No verão de 2015, o excesso de mortalidade atingiu cerca de 18%.

Um estudoLink externo conduzido por Ana Maria Vicedo Cabrera aponta que, entre junho e agosto de 2022 (um dos anos mais quentes da história da Suíça), as temperaturas extremas provocaram 623 mortes no país. Dessas, 370 poderiam ter sido evitadas na ausência do impacto da mudança climática de origem antropogênica (provocada ou intensificada pelas atividades do ser humano).

No restante do continente europeu, o calor também causou impacto relevante na taxa de mortalidade. Conforme dados provisóriosLink externo divulgados pelo jornal britânico The Guardian, as quatro ondas de calor deste verão deixaram ao menos 35 mil vítimas. Apenas em território alemão, francês e espanhol, ocorreram mais de 25 mil mortes atribuídas às altas temperaturas.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa de mortalidade relacionada ao calor na Europa cresceu 30% nas últimas duas décadas.

Atenção às pessoas com transtornos mentais

De acordo com Vicedo Cabrera, é preciso dispensar maior cuidado também a populações vulneráveis até então pouco contempladas nos planos de prevenção, como pessoas com transtornos mentais. Em um projeto de pesquisaLink externo financiado pela seguradora Mobiliar, sua equipe trabalha na formulação de recomendações e diretrizes específicas para fortalecer a proteção dessa categoria durante períodos de temperaturas extremas.

Um estudoLink externo conduzido no cantão de Berna demonstra que a elevação das temperaturas coincide com um aumento expressivo no risco de internações hospitalares de pessoas com quadros psiquiátricos. Há também correlação estatística entre o calor excessivo e o crescimentoLink externo das taxas de suicídio.

Mudança de hábitos

A adaptação às altas temperaturas diz respeito a toda a sociedade e não unicamente aos grupos de risco, reforça Vicedo Cabrera. Torna-se imperativo, portanto, rever de modo gradual diversos hábitos: desde os métodos de isolamento e refrigeração das construções até as rotinas de deslocamento, além da organização dos horários e das atividades ao longo do verão.

A especialista cita o exemplo da rotina escolar. Em diversos cantões, as aulas recomeçam no início de agosto, período que neste ano coincidiu com uma onda de calor. “Deveríamos refletir se não é o momento de rever o calendário das escolas”, avalia.

Cabrera enfatiza também a urgência de aumentar a proteção a quem realiza trabalhos ao ar livre. Para a pesquisadora, fazem-se necessárias normas mais precisas para determinar quando e sob quais condições as tarefas podem continuar durante períodos de canícula, acompanhadas de monitoramento regular da saúde dos trabalhadores mais expostos às temperaturas elevadas.

O plano de contingência contra o calor de Genebra, por exemplo, estabelece a interrupção das atividades externas sob sol direto entre as 13h e o pôr do sol.

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Estratégia nacional

Atualmente, as ações de proteção contra o calor variam bastante entre cidades e cantões, a depender do orçamento disponível e das prioridades das administrações locais.

Vicedo Cabrera defende que a Confederação formule uma diretriz nacional e forneça orientações mais claras, maior volume de recursos e apoio financeiro para que cantões e municípios desenvolvam medidas adaptadas à realidade de sua população. “Todos deveriam ter acesso a um nível mínimo de proteção, independentemente do local onde moram”, afirma.

Reivindicações semelhantes partem da aliança suíça “Chega de verões a 50 graus!Link externo“, que congrega cerca de 70 organizações dedicadas às áreas de clima, saúde, meio ambiente e agricultura. O coletivo cobra a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis e uma redução expressiva nas emissões de gases de efeito estufa em todos os setores produtivos.

“A mudança climática não é uma ameaça do futuro”

A canícula e a estiagem devem assumir papel de destaque na pauta política. Um debate em regime de urgência está previsto para a sessão de outono das Câmaras Federais (o parlamento bicameral da Suíça), com início em 14 de setembro.

Para Vicedo Cabrera, as ocorrências deste verão devem servir de sinal de alerta. “Precisamos aprender com o que aconteceu e admitir claramente que a mudança climática não é uma hipótese distante, mas uma realidade que já enfrentamos”, conclui.

A pesquisadora recomenda não relaxar as medidas preventivas com a proximidade do outono e do inverno. “É fundamental não ignorar o problema assim que os termômetros caírem. O planejamento para o próximo verão precisa começar agora”.

Edição: Gabe Bullard / VdV

Adaptação: Alexander Thoele

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