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Voto por correio restrito, guerra EUA vs. Canadá, e reflexões de um ganhador do Nobel

A cantora norte-americana Dolly Parton (1946-2026).
A cantora norte-americana Dolly Parton (1946-2026). Keystone/Swissinfo

Bem-vindos à nossa análise da cobertura da imprensa sobre os acontecimentos nos Estados Unidos. Todas as quintas-feiras, analisamos como a imprensa suíça tem noticiado e reagido a três notícias importantes nos EUA na política, economia e ciência.

No dia em que Dolly Parton comemorava seu 28º aniversário – talvez brindando a “Jolene”, que estava subindo rapidamente nas paradas –, do outro lado do Atlântico, em Londres, nascia um futuro jornalista da Swissinfo. Mas, além de compartilharmos a mesma data de nascimento, Dolly e eu temos muito pouco em comum. A cantora, atriz e filantropa “reescreveu o sonho americano”, afirmou um jornal suíço na terça-feira, após sua morte aos 80 anos. “Ela conseguia unir toda a América”, disse outro.

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Os opositores de Trump consideram os seus esforços para restringir o voto por correspondência como uma tentativa de influenciar o resultado.
Os opositores de Trump consideram os seus esforços para restringir o voto por correspondência como uma tentativa de influenciar o resultado. Copyright 2020 The Associated Press. All Rights Reserved

A Suprema Corte decidiu que o presidente dos EUA, Donald Trump, pode seguir adiante com seus planos de restringir o voto por correspondência. “Aumentam os temores de caos”, segundo um jornal suíço.

“Em cerca de dois meses, serão realizadas as eleições de meio de mandato para o Congresso nos Estados Unidos, e o país […] ainda está debatendo as regras”, escreveu o Tages-Anzeiger na terça-feira. “Em março, Donald Trump emitiu novas medidas. O jornal de Zurique explicou que, por meio de um decreto presidencial, Trump determinou que os correios só possam enviar cédulas eleitorais por correspondência para pessoas inscritas no cadastro eleitoral. Esses cadernos eleitorais seriam compilados pelas autoridades federais.

“Trump citou o desejo de tornar as eleições mais seguras como motivo”, afirmou o jornal. “Desde sua derrota para Joe Biden, ele vem falando em ‘fraude eleitoral’. Ele alega que, no passado, um grande número de estrangeiros participou das eleições e distorceu o resultado. Isso só foi comprovado em casos isolados. Não há evidências que sugiram que eleitores inelegíveis tenham participado das eleições em grande número.”

De acordo com o Tages-Anzeiger, os oponentes de Trump veem seus esforços para restringir o voto por correspondência e assumir o controle das eleições nos estados como uma tentativa de influenciar o resultado. “A base democrata vota por correspondência com mais frequência do que a base republicana”, afirmou o jornal.

Na terça-feira, a emissora pública suíça SRF informou que uma coalizão de 23 estados governados predominantemente por democratas e a capital, Washington, D.C., havia entrado com uma ação judicial contra essa medida. “Eles argumentam que, segundo a Constituição, os estados são responsáveis pelas regras que regem a elegibilidade dos eleitores. Uma juíza federal em Boston decidiu a favor deles em junho. Ela concluiu que Trump não tinha autoridade para alterar a organização das eleições federais dessa forma”, escreveu a emissora. “Os estados também alertaram que mudar as regras pouco antes das eleições poderia fazer com que muitas pessoas não pudessem exercer seu direito de voto.”

Na segunda-feira, a maioria conservadora da Suprema Corte não se pronunciou sobre a legalidade da ordem de Trump – ela decidiu que os estados que entraram com a ação não tinham o direito legal de contestá-la.

O Tages-Anzeiger concluiu apontando que organizações de direitos civis temem que o governo coloque agentes da agência de imigração ICE do lado de fora das seções eleitorais para intimidar cidadãos americanos de origem migrante e dissuadi-los de votar. “Quase ninguém espera que as eleições transcorram sem contratempos – e certamente não que Trump aceite o resultado sem reclamar, seja qual for o desfecho.”

Tempos mais felizes: Mark Carney e Donald Trump na Sala Oval, em outubro de 2025.
Tempos mais felizes: Mark Carney e Donald Trump no Salão Oval, em outubro de 2025. Keystone

“O primeiro-ministro canadense Mark Carney não é louco”, diagnosticou o Tages-Anzeiger na segunda-feira. “Ele está fazendo a coisa certa” ao enfrentar Donald Trump na guerra comercial que vem se intensificando, afirmou o jornal, acrescentando que isso poderia ser uma solução para outros países também.

Na segunda-feira, o Wall Street Journal avaliou que Carney seria “completamente louco se achasse que seu país prosperaria ao se distanciar dos EUA”. O Tages-Anzeiger respondeu que Carney de fato assumiu um risco ao rejeitar os termos propostos pelos EUA para um acordo e anunciar tarifas retaliatórias em termos inequívocos. “Os EUA podem causar mais danos ao Canadá do que o contrário. Isso se aplica à maioria dos países e é a base sobre a qual Donald Trump chantageia o mundo”, afirmou o jornal.

Mas o presidente dos EUA tem sido “particularmente descarado” em suas negociações com o Canadá, acrescentou. “Desde o início de seu segundo mandato, ele vem dizendo que quer anexar o país. Carney está fazendo algo que nem todos em sua posição fariam: ele está enfrentando a superpotência.”

De acordo com pesquisas, dois terços dos canadenses apoiam uma postura firme em relação aos EUA, continuou o Tages-Anzeiger. “Os americanos que passaram suas férias de verão no Canadá dizem estar impressionados com a forma consistente e alegre como os produtos norte-americanos estão sendo boicotados por lá”, afirmou o jornal.

“Às vezes, não é a parte mais forte que vence, mas a mais determinada. Além disso, o segundo mandato de Trump até agora mostrou que aceitar suas condições não é garantia de paz. Portanto, Carney não está louco. Ele está demonstrando ao mundo uma maneira alternativa de lidar com Trump.”

O jornal Neue Zürcher Zeitung (NZZ) considerou que a abordagem linha-dura de Trump não deixou outra escolha a Carney: o Canadá prefere sofrer a capitular, afirmou o jornal na segunda-feira, com Carney preferindo não fechar nenhum acordo com Washington a fechar um acordo ruim. “Ao fazer isso, ele está assumindo grandes riscos econômicos. Mas, como líder da resistência contra Trump, ele não tem outra opção política”, afirmou o jornal.

O NZZ observou que o Canadá exporta cerca de 70% de suas mercadorias para os Estados Unidos, enquanto os EUA enviam apenas cerca de 15% de suas exportações para o Canadá. Carney disse que o Canadá estava disposto a abandonar suas tarifas retaliatórias sobre aço, alumínio e automóveis caso os EUA reduzissem “substancialmente” seus direitos de importação de até 50% nesses setores. No entanto, o Canadá não estava disposto a comprometer “sua soberania” ou “a proteção da língua francesa”. Segundo Carney, Washington havia exigido, entre outras coisas, que seu governo reduzisse o apoio estatal à língua francesa em Quebec. Carney, portanto, instruiu seus negociadores a se retirarem das negociações comerciais na semana passada.

“Outros países, incluindo a Suíça, provavelmente estarão observando de perto para ver o que acontecerá a seguir”, concluiu o Tages-Anzeiger. “No Fórum Econômico Mundial em Davos, Carney afirmou, em um discurso amplamente comentado, que os EUA não eram mais um garantidor da estabilidade. As potências médias teriam que unir forças para sobreviver. Agora seria um bom momento para fazê-lo.”

Kurt Wüthrich recebe o Prémio Nobel da Química em Estocolmo, na Suécia, em 2002.
Kurt Wüthrich recebendo o Prémio Nobel de Química em Estocolmo, na Suécia, em 2002. Keystone

É provável que a China ultrapasse os Estados Unidos em certos campos da ciência, afirma o ganhador suíço do Prêmio Nobel Kurt Wüthrich em entrevista ao Neue Zürcher Zeitung (NZZ).

Wüthrich, de 87 anos, ganhou o Prêmio Nobel de Química em 2002 por seu trabalho pioneiro na determinação da estrutura das proteínas por meio da espectroscopia de ressonância magnética nuclear (RMN). Por muitos anos, ele conduziu suas pesquisas paralelamente em Zurique e no Scripps Research, na Califórnia. Desde 2013, ele também mantém seu próprio grupo de pesquisa na Universidade de Tecnologia de Xangai, na China.

“Na pesquisa biomédica, a China está diminuindo a diferença em relação aos EUA e a outros países”, disse Wüthrich ao jornal NZZ no domingo. “Mas eles também fizeram progressos bastante surpreendentes na indústria, por exemplo, no tratamento do câncer. Existem novos medicamentos contra o câncer vindos da China que estão entre os melhores. O maior problema no momento é que as empresas chinesas estão testando medicamentos em grupos de pacientes chineses. O próximo passo será que elas também utilizem grupos de teste de populações não chinesas para os ensaios clínicos.”

O NZZ destacou que, de acordo com o Nature Index, um ranking elaborado pela editora científica Springer Nature, a China já é líder mundial em muitas áreas de especialização. Oito das dez melhores universidades do ranking são chinesas. A China já ultrapassou os EUA?

“Eu colocaria isso em perspectiva, já que esse índice leva em conta apenas pesquisas publicadas nas revistas da Nature”, respondeu Wüthrich. “Além disso, essas revistas ganham muito dinheiro com publicidade proveniente da China. Mas é verdade que a China já está no mesmo nível dos EUA em áreas como a ciência dos materiais. Na química, a China está, na verdade, à frente dos EUA. E na biologia e nas ciências da vida, o país está se aproximando muito rapidamente.”

O jornal NZZ informou que, de acordo com um relatório da OCDE, em 2024 a China gastou mais dinheiro em pesquisa e desenvolvimento do que os EUA pela primeira vez, quando ajustado pelo poder de compra. A China estaria prestes a ultrapassar os EUA como a nação líder em ciência em um futuro próximo?

“Sou mais adequado para analisar fatos históricos do que para fazer previsões”, disse Wüthrich. “Mas agora há um novo plano quinquenal na China para o período de 2026 a 2030, e nesse plano, o financiamento para pesquisa e desenvolvimento foi drasticamente aumentado. Estamos falando de bilhões de dólares. No entanto, a grande maioria desses bilhões está sendo canalizada para um punhado de grandes projetos. E, portanto, é provável que a China ultrapasse os EUA em certas áreas.”

A próxima edição de “Notícias dos EUA” será publicada na quinta-feira, 3 de setembro de 2026. Até lá!

Comentário ou críticas? Envie sua mensagem ao seguinte endereço: english@swissinfo.ch

Adaptação: Eduardo Simantob

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