Como a crise do Estreito de Ormuz está remodelando o comércio global
Após a assinatura de um memorando de entendimento entre os EUA e o Irã em meados de junho, a navegação comercial foi retomada brevemente no Estreito de Ormuz criando esperanças de que a tensão arrefeceria na região. Mas as esperanças logo se dissiparam com o retorno do confronto militar direto. Agora, grandes preocupações seguem pairando sob o ponto de estrangulamento energético mais importante do mundo.
Para governos e empresas, a questão principal não é mais quando as condições em Ormuz se normalizarão. A grande pergunta a ser respondida é: a crise marca uma mudança duradoura na forma como países e empresas encaram a segurança energética, o transporte marítimo e as cadeias de abastecimento globais? Essa questão tem sido a prioridade para especialistas em comércio que trabalham no centro de commodities de Genebra e além.
Os mercados de energia, no entanto, têm se mostrado até agora mais resilientes do que muitos esperavam.
“Nós nos enganamos”, disse Neil Atkinson, pesquisador sênior do National Center for Energy Analytics e ex-chefe da divisão de petróleo da Agência Internacional de Energia. “Caímos demais na armadilha de ver assistir esse desastre… pensando: ‘Ah, não, isso é terrível’. Mas o sistema se adaptou”.
Rotas alternativas de exportação, maior produção fora do Golfo, liberação estratégica de estoques e menor demanda reduziram o que inicialmente parecia formar um cenário catastrófico de escassez de produtos. Em março, o Goldman Sachs havia alertado que uma interrupção prolongada no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz poderia elevar os preços a até US$ 200 (CHF 161) por barril no pior cenário possível, mas o petróleo Brent acabou atingindo um pico de cerca de US$ 126 por barril em 30 de abril, antes de cair, à medida que as interrupções no abastecimento se mostraram menos graves do que se temia.
Em uma apresentação feita em um evento do setor em junho, em Genebra, Atkinson mostrou como a ameaça a quase um quinto do comércio global de petróleo bruto que passava pelo Estreito de Ormuz foi amenizada por uma série de “compensações”, tanto do lado da oferta quanto da demanda.
“O setor é o primeiro a reagir”, disse Atkinson à Swissinfo em uma entrevista em Genebra, após um encontro de operadores de commodities organizado pelo London Stock Exchange Group, um provedor global de infraestrutura e dados para mercados financeiros. “Os atores do mercado pensaram: ‘Como podemos contornar essa interrupção?’ Então, eles encontram uma maneira de contorná-la.”
A Arábia Saudita, maior exportadora mundial de petróleo, aumentou a quantidade de petróleo exportada por meio de seu oleoduto leste-oeste para Yanbu, no Mar Vermelho, enquanto os Emirados Árabes Unidos enviaram mais petróleo bruto por Fujairah, no Golfo de Omã, permitindo que os barris contornassem completamente o Estreito de Ormuz.
China, Japão, Coreia do Sul e Índia reduziram as importações do Golfo, em parte recorrendo às reservas estratégicas e contendo a demanda. Ao mesmo tempo, produtores como EUA, Brasil, Canadá, Cazaquistão, Rússia e Venezuela aumentaram as exportações para preencher parte da lacuna.
Mas Atkinson alerta que não se pode confundir a resiliência de curto prazo com uma transformação de longo prazo no mercado. Recorrendo a uma famosa anedota sobre o ex-primeiro-ministro chinês Zhou Enlai — a quem supostamente perguntaram sobre o significado da Revolução Francesa e ele respondeu que era “muito cedo para dizer” —, Atkinson argumenta que o mesmo se aplica a Ormuz.
“Essa guerra eclodiu no final de fevereiro”, disse ele. “Ainda estamos muito longe do fim desse trauma.”
Mesmo assim, algumas mudanças de longo prazo já estão se tornando evidentes. É provável que os exportadores do Golfo invistam mais fortemente em infraestrutura alternativa de exportação e em armazenamento no exterior, buscando maior proximidade dos clientes asiáticos, enquanto os compradores estão reconsiderando o grau de dependência em relação a um único fornecedor ou rota.
Durante a crise, o Japão e a Coreia do Sul, por exemplo, substituíram grande parte do petróleo bruto importado do Golfo por importações dos EUA, do Brasil e da Noruega. Mesmo após a normalização dos suprimentos, Atkinson duvida que eles voltem aos níveis anteriores de dependência.
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“Eles vão sentar e pensar: ‘Não queremos voltar a depender em 90% do Golfo do Oriente Médio’”, aponta. Mas uma maior diversificação não diminui o papel central da região nos mercados globais de energia.
“A importância fundamental do Golfo do Oriente Médio como região fornecedora — isso não muda”, disse Atkinson, observando que os Emirados Árabes Unidos, agora livres do sistema de cotas da OPEP, retomaram a produção aos níveis pré-crise e que a demanda por petróleo deve permanecer forte por décadas, particularmente nas economias em desenvolvimento.
Atkinson também não acredita que a crise vá acelerar a transição energética. “A ideia de que, de repente, como resultado dessa guerra, vamos dizer ‘meu Deus, não, isso é terrível, não podemos mais usar todos esses combustíveis fósseis, vejam os riscos para a economia global’… isso simplesmente não é realista”.
O que pode mudar é a forma como as empresas gerenciam os riscos de levar o petróleo ao mercado. Mesmo que o Estreito fosse totalmente reaberto amanhã, disse Atkinson, o transporte marítimo não voltaria imediatamente ao normal. As minas marítimas e a proposta do Irã de cobrar taxas de trânsito só aumentam a incerteza.
“É preciso haver confiança”, disse Atkinson. “Armadores, tripulações e seguradoras – todos precisam acreditar que os navios não serão atacados. Desde o memorando de entendimento, às segundas, quartas e sextas-feiras parece que a paz está próxima. Às terças, quintas e sábados, o conflito recomeça. No domingo, talvez eles tenham um descanso.”
O trânsito no Estreito de Ormuz foi dividido em corredores separados, parte sendo controlada pelos EUA e parte pelo Irã, que provavelmente não vai afrouxar seu domínio sobre o estreito. Na quarta-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o cessar-fogo entre os EUA e o Irã havia “acabado” e que as forças americanas provavelmente fariam novos ataques.
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Navios sob ataque
Dados do Sistema de Identificação Automática (AIS) a normalização do tráfego ainda é uma meta longínqua na região.
Antes do conflito, cerca de 125 a 135 navios transitavam pelo estreito diariamente. Durante o auge da tensão, as travessias diárias caíram para um número de um dígito, já que muitas embarcações evitavam a via navegável ou desligavam seus equipamentos de geolocalização. A UK Maritime Trade Operations registrou pelo menos 16 ataques a navios somente nas duas primeiras semanas do conflito, e mais três embarcações foram atingidas nesta semana.
A MSC, sediada em Genebra e maior companhia de transporte de contêineres do mundo, é uma das empresas que foi forçada a suspender temporariamente as travessias pelo Estreito. Um de seus seus navios foi alvo de tiros, enquanto outro foi apreendido pelas forças iranianas. A empresa não quis comentar.
A rival CMA CGM, sediada na França, alertou contra a expectativa de um retorno rápido à normalidade. “Mesmo que uma solução de paz seja implementada nas próximas semanas, não há garantia de que não haverá outra crise mais tarde e não podemos ficar reféns de Ormuz”, disse o diretor-executivo Rudolphe Saadé a legisladores francesesLink externo em junho. “Não vou ficar fixado na ideia de que o Estreito de Ormuz vai reabrir e tudo voltará a ser como era.”
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Um memorando de entendimento entre os EUA e o Irã, assinado em 17 de junho, havia gerado esperanças de que o tráfego marítimo pelo Estreito pudesse gradualmente voltar ao normal. Mas os ataques a navios comerciais nesta semana, somados aos ataques dos EUA a alvos iranianos, levaram vários navios a mudarem de rota e renovaram as preocupações de que Ormuz continuará sendo um ponto crítico.
Como cerca de 80% das mercadorias globais comercializadas são transportadas por mares, interrupções no transporte marítimo se propagam rapidamente pelas cadeias de abastecimento. Antes da crise, cerca de um quinto do petróleo mundial, juntamente com volumes significativos de gás natural liquefeito, petroquímicos e fertilizantes que sustentam a indústria e a agricultura, transitava pelo Estreito de Ormuz.
“O Estreito de Ormuz é extremamente importante para o mundo inteiro e para o comércio global”, afirmou Luz María de la Mora, diretora da Divisão de Comércio Internacional e Commodities da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), à Swissinfo. Mas os custos das interrupções não são distribuídos nem absorvidos de maneira uniforme, observou ela.
A UNCTAD identificou 61 países vulneráveis, que estão expostos simultaneamente a preços mais altos de combustíveis e a choques nas importações de alimentos. A maioria é importadora tanto de petróleo quanto de cereais, o que obriga os governos a arcar com o aumento das taxas de frete, dos custos de seguro e das contas de energia. Quase um bilhão de pessoas vivem nessas economias, com mais de 30% da população sobrevivendo com menos de US$ 3 por dia.
“Preços mais altos de energia, de transporte e de importações – especialmente de alimentos – têm implicações enormes para o bem-estar da população nesses países”, disse de la Mora.
“Cada dia que passamos nessa situação de incerteza está gerando custos mais altos, especialmente para economias pequenas, vulneráveis e em desenvolvimento.”
Para de la Mora, a crise reforça uma tendência que começou durante a pandemia da Covid-19. Governos e empresas estão diversificando fornecedores, rotas de transporte e mercados para construir cadeias de abastecimento mais resilientes. Mas a reconstrução das cadeias de abastecimento exige tempo e investimento.
“Não é de um dia para o outro que se pode mudar de um fornecedor para outro”, disse ela. “O que estamos vendo com o caso de Ormuz é simplesmente um lembrete de que as cadeias de abastecimento hoje também precisam levar em conta a necessidade de serem resilientes e diversificadas.”
Edição: Virginie Mangin/fh
Adaptação: Clarissa Levy
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