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O curador que quer reinventar a arquitetura suíça com o pensamento da arte

Um novo começo: depois de ter dirigido várias instituições artísticas de prestígio, Adam Szymczyk assume agora a direção do Museu de Arquitetura de Basileia.
Um novo começo: depois de ter dirigido várias instituições de prestígio, Adam Szymczyk assume a direção do Museu Suíço de Arquitetura. ©Gina Foll

Adam Szymczyk é mais conhecido como o curador de arte contemporânea que supervisionou a edição de 2017 da documenta, a primeira edição da exposição que foi dividida entre Atenas e Kassel, local original do evento, na Alemanha. Em janeiro, ele assumiu um novo cargo como diretor do Museu Suíço de Arquitetura, na Basileia. A Swissinfo conversou com ele sobre essa passagem da arte para a arquitetura – e por que essa mudança não representa nenhuma ruptura.

Quando o curador de arte contemporânea Adam Szymczyk se candidatou para dirigir uma das instituições de arquitetura mais prestigiadas do mundo, ele não viu isso como uma reviravolta drástica em sua carreira. “Eu não tive a sensação de que estava tomando uma grande decisão ou mudando algo de maneira profunda”, afirma, descartando a ideia de que trocou a arte pela arquitetura. Na verdade, o curador experiente considera esse passo uma continuação natural de uma carreira que sempre atravessou fronteiras disciplinares.

“Vejo a arquitetura mais como uma forma possível de expressão”, conta à Swissinfo durante uma conversa realizada próximo à sua casa, em Zurique, quando ele se resguardava devido a uma gripe.

“Há afinidades e interseções entre arte e arquitetura, então com certeza não estou abandonando a arte pela arquitetura. Nem saberia como. Acredito que fui muito aberto a outras disciplinas na minha abordagem da arte – sempre estava explorando a música ou a literatura. Acho que isso foi articulado de forma mais plena na documenta, quando realmente tentamos abordar todos os campos imagináveis”.

Nascido na Polônia, Szymczyk estudou história da arte em Varsóvia. Nos anos 1990, ele se juntou à Galeria Foksal, uma galeria de arte contemporânea não comercial que desafiava as estruturas tradicionais do mercado da arte.

Desde 2002, quando se tornou diretor da Kunsthalle, na Basileia, ele tem passado a maior parte de seu tempo na Suíça. Diferentemente de um museu, a Kunsthalle não possui acervo permanente. Em vez disso, trata-se de um espaço público que recebe exposições de arte temporárias. Szymczyk tem agora cidadania suíça e considera Basileia seu lar.

Ele ganhou notoriedade como o diretor artístico de uma edição da documenta, uma exposição quinquenal que frequentemente serve como indicador para novas direções de arte contemporânea.

Szymczyk montou parte da edição de 2017 em Atenas, realizando, assim, a primeira edição da documenta que não ocorreu exclusivamente em Kassel, na Alemanha. Em janeiro, ele começou a trabalhar como diretor do Museu Suíço de Arquitetura, que agora divide um edifício com a Kunsthalle, na Basileia.

Adam Szymczyk (ao centro) discursa em frente a uma faixa que expressa gratidão no encerramento da documenta 14, em Kassel, em setembro de 2017. Além disso, ou talvez devido ao seu peculiar prestígio mundial, a documenta também expõe os seus responsáveis a todo o tipo de críticas.
Szymczyk (ao centro) discursa em frente a uma faixa que expressa gratidão no encerramento da documenta 14, em Kassel, em setembro de 2017. Além disso, ou talvez devido ao seu peculiar prestígio mundial, a documenta também expõe os seus responsáveis a todo o tipo de críticas. KEYSTONE/DPA/Uwe Zucchi

Um museu sem objetos

O Museu Suíço de Arquitetura, cujo foco inicial era principalmente a arquitetura suíça, foi fundado em 1984 como uma iniciativa privada. Desde 2006, ele expandiu seus horizontes e se tornou mais internacional. A instituição monta cerca de quatro exposições por ano.

Não é “um tipo tradicional de museu, que geralmente é uma grande instituição com um acervo próprio”, afirma Szymczyk. Até mesmo suas iniciais públicas (S AM) são mais uma assinatura construtivista do que um acrônimo. “Ele não tem acervo. Não é um museu de objetos, é mais uma ideia de um museu que deveria propor uma compreensão ou diferentes formas de entender a arquitetura por meio de exposições e, com sorte, também de publicações e outros formatos”.

Vista da exposição «O que foi, poderia ser: Experiências entre a preservação e a arquitetura (2025)» no Museu Suíço de Arquitetura (S AM).
A exposição do Museu Suíço de Arquitetura intitulada «O que foi, poderia ser: experiências entre a preservação e a arquitetura» (2025). Tom Bisig

A ausência de um acervo dá “muita liberdade” ao museu, diz Szymczyk. “Cada um dos quatro diretores anteriores tentou materializar algo de sua compreensão acerca do que é importante dentro do campo da arquitetura e a respeito dele, então, de certa forma, o museu é feito dessa sobreposição de exposições desde 1984 e das diferentes formas de pensar sobre arquitetura. É como um receptáculo virtual no qual podemos imaginar diferentes ideias e formas de mostrar e discutir arquitetura”.

Questionando a necessidade de construir

A atual exposiçãoLink externo no museu, Groundwork, foi concebida antes de Szymczyk chegar, mas aborda muitas das questões que o interessam.

Ela examina a arquitetura frente às crises sociais e aos desafios ecológicos por meio de três filmes sobre o trabalho de três arquitetos: Xu Tiantian, que busca equilibrar pressões do patrimônio histórico, do turismo e da ecologia marinha na ilha de Meizhou, no sudeste da China; o coletivo de Berlim bplus.xyz, que está lançando uma Iniciativa de Cidadania Europeia para promover a manutenção e a reabilitação de edificações existentes em detrimento do desenvolvimento urbano; e Carla Juaçaba, que está criando pavilhões para apoiar comunidades no Brasil que resistem à agricultura extrativista.

Embora as três abordagens “não se relacionem muito entre si formalmente”, diz Szymczyk, “há a mesma atitude de questionar as condições do local e tentar entendê-lo. Tenho mais interesse em práticas sensíveis ao contexto da produção arquitetônica, e não estou tão preocupado em apenas construir um edifício excelente após o outro”.

Vista da exposição «Groundwork» da S AM
«Groundwork», atualmente em exibição no Museu Suíço de Arquitetura. Tom Bisig

Isso reflete um movimento mais amplo na arquitetura, de afastamento dos edifícios “icônicos”, afirma. O debate atual está “questionando a própria ideia de construir, e se movendo para perguntas sobre como modificar, como realizar ‘a intervenção mínima’, que é um termo cunhado por Lucius Burckhardt”, um sociólogo e economista suíço que foi um importante pensador da teoria arqueológica.

“Estou interessado em como o local molda as decisões de quem constrói e como essas pessoas podem mudar de ideia, e como podem, na verdade, evitar construir algo excessivamente imponente e, em vez disso, fazer algo sensível a diversos aspectos”, afirma Szymczyk.

A estreia

A primeira exposição concebida por Szymczyk para o museu estreia em setembro e foca em Tony Fretton, arquiteto residente em Londres que construiu centros de arte e museusLink externo no Reino Unido, na Dinamarca, nos Países Baixos e na Noruega. Uma dessas construções é o Museu FuglsangLink externo, na ilha dinamarquesa de Lolland. “Ele é saturado de luz, que é redirecionada arquitetonicamente de uma forma que cria as melhores condições possíveis para observar suas coleções”, conta Szymczyk.

Ele é particularmente fascinado pela forma como Fretton escreve sobre seus projetos, tanto os já construídos quanto os que não saíram do papel. “Você pode ver a quantidade de reflexão exigida em cada pequena decisão”, explica. “Gira tudo em torno de questionar – por que vou construir essa porta dessa forma ou por que essa janela precisa estar aqui e não lá, por que fazê-la desse tamanho, por que usar esse material”.

Museu Fuglsang, Lolland, Dinamarca (2008).
Museu Fuglsang, Lolland, Dinamarca (2008). Uncube

Os desenhos de Fretton, acrescenta, “atacam, quase obsessivamente ou de forma muito teimosa, certas questões minúsculas e às vezes técnicas, como maçanetas ou dobradiças”.

O público do Museu Suíço de Arquitetura é uma mistura de profissionais de arquitetura e apreciadores de arte, afirma Szymczyk. A entrada para o museu está incluída no valor pago para acessar o museu vizinho, a Kunsthalle. Szymczyk afirma ser realista quanto à quantidade de visitantes que o museu pode esperar atrair. “É mais uma questão de construir uma programação pública interessante, em diferentes camadas, algo que eu acho que o museu tem”, conclui. 

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Edição: Virginie Mangin & Eduardo Simantob/fh
Adaptação: Clarice Dominguez

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