Ondas de calor aumentam, mas preocupação com o clima diminui na Suíça
Enquanto a Europa enfrenta ondas de calor, secas e incêndios devastadores, muitos consumidores suíços parecem largamente indiferentes. Uma nova pesquisa indica que quatro em cinco adultos afirmam que a crise climática tem pouca ou nenhuma influência em suas decisões de compras e investimentos, uma parcela que tem crescido constantemente nos últimos sete anos.
A pesquisa, publicada no dia 11 de agosto na plataforma de consumo online Comparis, indicaLink externo que 34% dos consumidores suíços não são “nem um pouco” influenciados pela mudança climática, enquanto 46% são apenas “ligeiramente” influenciados.
Apenas uma em cada cinco pessoas afirmou que a questão exerce uma influência significativa nas suas decisões de compra ou investimento.
“Muitas pessoas suíças dizem que estariam preparadas para reduzir viagens aéreas ou o consumo de carne, mas os fatos contam uma história diferente”, disse Michael Kuhn, especialista em finanças na Comparis.
A tendência é visível em todas as faixas de renda, mas mais acentuada entre os que ganham mais. Entre os lares com uma renda bruta mensal acima de 8 mil francos suíços (US$ 9.860), 84% afirmaram que a crise climática tem pouca ou nenhuma influência em suas decisões, em comparação com 75% em lares com renda de até 4 mil francos suíços por mês.
Pais e mães, no entanto, parecem mais receptivos às preocupações climáticas. Cerca de 74% dos participantes com filhos afirmaram que o debate climático influencia suas decisões até certo ponto, em comparação com 62% entre aqueles sem filhos.
Aumento do ‘cansaço climático’
Desde 2019, a Comparis realiza regularmente pesquisas sobre a importância das questões climáticas.
Os resultados indicam uma tendência nítida. Entre o final de 2020 e meados de 2023, 66% a 70% dos participantes afirmavam que preocupações climáticas tinham pouca ou nenhuma influência sobre seus hábitos de consumo. Em 2026, esse número havia subido para 80%.
Enquanto isso, a porcentagem de pessoas que afirmam não serem afetadas pela crise subiu de cerca de 20% para 34%.
Kuhn atribui essa tendência a uma mistura de preocupações concorrentes, incluindo o aumento nos preços de seguro-saúde, aluguéis mais altos, guerras e inflação, somadas ao cansaço decorrente de anos de debate climático e de uma sensação crescente de impotência.
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Suíça relega mudanças climáticas a segundo plano
O que as pessoas dizem – e o que elas fazem
A pesquisa sugere que, para muitos suíços e suíças, suas intenções são mais sustentáveis que seus hábitos. Entre aqueles que afirmam levar a mudança climática em consideração, 40% relatam reduzirem seu consumo de carne e outros produtos animais, enquanto 36% dizem voar com menos frequência.
Mas os dados oficiais pintam um quadro ligeiramente diferente. Segundo o Escritório Federal de Agricultura, o consumo de carne na Suíça caiu para 48 kg per capita em 2023, antes de subir para 50 kg em 2024 e 51 kg em 2025. Desde 2019, o consumo permaneceu estável em cerca de 50 kg por pessoa.
Um padrão similar também é evidente entre outros produtos animais. Segundo o Departamento Federal de Alfândega e Segurança de Fronteiras, o consumo de ovos ultrapassou 200 unidades per capita pela primeira vez em 2025, chegando a 209. O consumo de leite e outros laticínios permaneceu estável nos últimos anos.
As viagens aéreas continuam tão populares quanto antes. O Aeroporto de Zurique registrou 23,2 milhões de passageiros domésticos no último ano, um novo recorde, que anteriormente havia sido de 22,2 milhões em 2019.
Outros dados reforçam essa tendência. O Escritório Federal de Estatística afirmaLink externo que o gasto da população suíça com viagens internacionais aumentou desde 2019. Em 2025, os habitantes gastaram 19,3 bilhões de francos suíços no exterior, um crescimento de 1,9% em comparação a 2024.
Um relatório climático produzido para a cidade de Zurique e publicado neste ano constatou que os habitantes voaram, em média, 10.500 quilômetros por pessoa em 2024, o equivalente a um voo de volta de Zurique para Dubai. Isso representou cerca de 600 quilômetros a mais do que o registrado no ano anterior.
“Gostaríamos que medidas fossem tomadas, mas, quando se trata de abrirmos mão de nossas viagens de avião, roupas e bifes, não estamos preparados para fazer esse sacrifício”, disse Kuhn.
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Fatalismo e desinteresse em relação às mudanças climáticas cresce na Suíça
Fatalismo climático – e confiança nas políticas governamentais
Os resultados da pesquisa da Comparis confirmam sinais mais amplos de um desengajamento e um fatalismo climático crescentes na Suíça. Quase uma em cada três pessoas afirma que já é tarde demais para enfrentar a crise. As preocupações econômicas e de saúde já superaram a mudança climática na lista de prioridades das pessoas.
Uma pesquisa internacional da Ipsos, publicada em abril, identificou uma queda similar no engajamento climático. Nos países onde a pesquisa foi realizada, a parcela de participantes que viam a inação climática como uma falha em relação às gerações futuras caiu de 72% em 2021 para 61%. Na Suíça, esse número caiu para 50%, um declínio de 14 pontos percentuais desde 2021, que colocou o país abaixo de suas vizinhas França (63%) e Itália (62%).
Apesar de ser particularmente vulnerável aos efeitos do aquecimento global, a Suíça está vivendo uma queda significativa na percepção de urgência acerca da questão e um aumento do fatalismo climático, disse o analista da Ipsos Marcus Burke à Swissinfo.
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Suíça aquece o dobro da média global por efeito climático
Em comparação com os países vizinhos, a população suíça parece mais desconectada e menos preocupada com as mudanças climáticas, afirma Burke, que atribui isso a uma combinação de maior fatalismo e, paradoxalmente, maior confiança nas políticas governamentais.
“Apesar da série recorde de novas temperaturas, a disposição das pessoas para agir contra a crise climática está esmorecendo”, afirmou o analista da Ipsos.
Edição: Veronica De Vore/fh
Adaptação: Clarice Dominguez
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