The Swiss voice in the world since 1935
Principais artigos
Democracia suíça
Newsletter

Rossellini fala de cinema, animais e etarismo em Locarno

Isabella Rossellini a segurar o seu «Prémio de Excelência 2026» no 79.º Festival de Cinema de Locarno.
Isabella Rossellini a segurar o seu «Prémio de Excelência 2026» no 79.º Festival de Cinema de Locarno. Keystone / Jean-Christophe Bott

Homenageada no Festival de Cinema de Locarno, Isabella Rossellini revisitou a herança dos pais Ingrid Bergman e Roberto Rossellini, sua carreira como modelo e atriz e sua guinada para a etologia. Swissinfo a encontrou no evento.

Ao chegar a Locarno para a abertura do festival de cinema, Isabella Rossellini tinha bons motivos para estar irritada. Devido a um overbooking, a companhia aérea americana com a qual viajava rebaixou sua passagem de Nova York para Milão da classe executiva para a econômica. Ainda assim, cumpriu com elegância uma agenda repleta de entrevistas, palestras, apresentações de filmes e uma gala na Piazza Grande.

Filha da atriz Ingrid Bergman e do cineasta Roberto Rossellini, Isabella cresceu em meio à crème de la crème do cinema italiano e europeu do pós-guerra: Federico Fellini, Pier Paolo Pasolini e Vittorio De Sica – entre muitos outros – eram visitantes frequentes de sua casa. Quando fala de sua infância, é como se os sets de filmagem tivessem sido seu parque de diversão.

“Eu fui a mais sets de filmagem do meu pai do que aos da minha mãe, porque era sempre o produtor ou o diretor quem mandava”, diz ela. “Vincente Minnelli (diretor americano), especialmente, era muito gentil e deixava nós, crianças, entrar no set, como aconteceu em A Matter of Time (1976), que foi filmado em Roma. Mamãe adorava trabalhar em Roma, onde morávamos, porque o conflito entre família e trabalho é sempre muito forte para qualquer mulher, mas especialmente para as atrizes”.

O realizador italiano Roberto Rossellini e a sua esposa, a atriz Ingrid Bergman, reúnem-se em torno das suas gémeas, Isotta e Ingrid, que observam os seus primeiros bolos de aniversário durante uma celebração familiar em Roma, Itália, a 18 de junho de 1953. A atriz segura o seu primeiro filho, Robertino, enquanto, ao fundo, no centro, se encontra Renzo Rossellini, o filho do realizador de um casamento anterior.
O realizador italiano Roberto Rossellini e a sua esposa, a atriz Ingrid Bergman, reúnem-se em torno das suas gémeas, Isotta e Ingrid, que observam os seus primeiros bolos de aniversário durante uma celebração familiar em Roma, Itália, a 18 de junho de 1953. A atriz segura o seu primeiro filho, Robertino, enquanto, ao fundo, no centro, se encontra Renzo Rossellini, o filho do realizador de um casamento anterior. Copyright 2020 The Associated Press. All Rights Reserved.

É por isso que ela se recusa a atuar em séries, que, normalmente, exigem passar muitos meses longe de casa. “Participações especiais, sim, mas papéis principais, definitivamente não”, afirma.

Ao atravessar o Atlântico no fim dos anos 1970, conquistou – e se casou com – as duas costas da indústria cinematográfica americana. Em Nova York, conheceu Martin Scorsese, com quem se casou em 1979; em Hollywood, colaborou e casou-se com David Lynch, além de ter sido orientada profissionalmente por John Schlesinger e Robert Redford. Entre seus filmes mais conhecidos estão Blue Velvet (1986), de Lynch, e Conclave (2024), pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar. Durante décadas, também foi o rosto da gigante dos cosméticos Lancôme.

Tentando escapar da sombra da mãe famosa – “no começo, eu me sentia muito intimidada pela enorme reputação da minha mãe”, confessa – Isabella estudou design de figurinos e começou a trabalhar como modelo. Só muito mais tarde se entregaria ao cinema. “Eu sempre chego atrasada”, diz ela. “Comecei a trabalhar como modelo aos 20 anos, como atriz aos 32 e como etóloga aos 55”.

Conteúdo externo

A fazenda dos animais

Aos 74 anos, Rossellini vive em uma fazenda no interior do estado de Nova York, cercada de animais, sua grande paixão na vida. – “Comecei a recolher cães e gatos abandonados pelas ruas, até que meus pais disseram: “Basta!” Então, quando eu tinha cerca de 14 anos, meu pai me deu um livro de Konrad Lorenz, fundador da ciência da etologia, que estuda o comportamento animal. O livro se chamava King Solomon’s Ring (O Anel do Rei Salomão) e, na época, era um best-seller”.

Aos 20 anos, não havia cursos de etologia disponíveis. “Mas isso se tornou uma carreira quando eu tinha cerca de 50 anos, então voltei à universidade e me formei em etologia”, observa.

Imagem promocional da série «Green Porno», de Rossellini, com a Mosca, o Caracol, a Minhoca, a Anchova, o Camarão e a Lula.
Imagem promocional da série «Green Porno», de Rossellini, com a Mosca, o Caracol, a Minhoca, a Anchova, o Camarão e a Lula. Courtesy Isabella Rossellini

No século 21, Isabella estreou como diretora, unindo sua paixão pelos animais ao seu habitat natural, o cinema. As séries de minifilmes Green Porno, Mammas e Seduce Me foram concebidas no início do YouTube, a partir de uma sugestão de Redford, o ator, diretor e empresário independente que fundou o Festival de Cinema de Sundance e o Sundance Channel, ambos dedicados a produções independentes.

“Bob me disse que, nessa nova época em que as pessoas assistiam a filmes em celulares, a série só faria sentido se cada episódio tivesse no máximo dois minutos”.

A série Green Porno começou em 2009 e continua até hoje: Rossellini afirma que uma nova série de curtas está sendo produzida atualmente, intitulada The Survival of the Friendliest, sobre como os animais selvagens se tornaram animais domésticos.

Conteúdo externo

Swissinfo: O que inspirou a senhora a fazer a série Green Porno, dedicada exclusivamente à vida sexual dos animais?

Isabella Rossellini: Acho que é a diferença que torna tudo tão interessante, porque, em geral, você sempre pensa: mamãe + papai = bebês. Há animais que mudam de sexo no decorrer da vida. Começam como machos e depois se tornam fêmeas, ou vice-versa. Há animais que são hermafroditas, dotados de ambos os sexos. Portanto, não era propriamente o sexo em si que me interessava; os filmes de Green Porno não são muito pornográficos.

Swissinfo: É tudo uma questão de comportamentos diferentes, certo?

I.R.: Sim. Então fiz outra série sobre o instinto materno (Mammas) e outra sobre estratégias de sedução, nas quais há canto, dança ou perfumes. Mas, de alguma maneira, Green Porno permaneceu como o título que une todas elas. A fascinação vem do fato de que essas coisas podem ser tão diferentes. E não se trata de tentar aprender com os animais como devemos nos comportar como seres humanos, mas de saber que tudo é possível.

Conteúdo externo

Swissinfo: A senhora teve várias vidas: modelo, atriz, diretora, autora, ativista pelos animais e etóloga. O que conecta todas essas experiências?

I.R.: Meus interesses acompanham minha curiosidade. E, por isso, para mim, estão sempre ligados. Não se pode ser definido por uma coisa só, como, por exemplo, ser mãe ou atriz. O fotógrafo Richard Avedon, com quem trabalhei bastante, costumava dizer que ser modelo é como ser uma estrela do cinema mudo. Não se tem diálogo, mas ainda assim precisa atuar, porque eles fotografam a emoção. Não existe beleza sem emoção.

Swissinfo: Na série Green Porno, a senhora não apenas escreveu e dirigiu, mas também criou os figurinos. É uma compulsão por ter controle total?

I.R.: Sim. Faço todos os storyboards e todos os desenhos dos meus filmes, mas também devo dar crédito aos meus dois colaboradores, Rick Gilbert e Andy Buyers. Quero, sim, ter controle sobre o processo, mas preciso fazê-lo com aquilo que conheço. Por isso, tive de eliminar a tecnologia, porque é algo que não sei fazer. Mal consigo enviar um e-mail.

Os efeitos especiais são sempre feitos com fios; tudo é feito na cozinha, por assim dizer. Não há computador, porque não sei controlá-lo. Minha referência é [o pioneiro do cinema] Georges Méliès. Ele usava uma câmera enorme. Nunca a movia. Às vezes, simplesmente a empurrava um pouco. Meus filmes são assim também. Não há planos invertidos, nem tomadas de cima. É tudo muito simples.

Conteúdo externo

Swissinfo: A senhora tem alguma lembrança especial ou algum vínculo com o Festival de Cinema de Locarno?

I.R.: Devo confessar que esta é a primeira vez que venho ao festival, embora ele tenha uma relação especial com a minha família. Meu pai ganhou o Grande Prêmio de Locarno em 1948 com um filme que adoro, Alemanha, Ano Zero, um filme maravilhoso que ele fez como parte do que a imprensa chama de “trilogia da guerra”. Meu pai primeiro fez Roma, Cidade Aberta, com Anna Magnani, depois Paisà e encerrou a trilogia com Alemanha, Ano Zero. Fomos à Alemanha, a uma Berlim completamente destruída, e acompanhamos a história de uma criança que vive naquela Berlim em ruínas.

Além disso, meu irmão mais velho [o produtor cinematográfico Renzo Passollini], que produziu muitos filmes de Fellini e Ettore Scola, entre muitos outros, também recebeu um Prêmio pelo Conjunto da Obra em Locarno, em 2023. Desde pequena, sempre admirei meu pai e meu irmão mais velho, então não consigo acreditar que esteja no mesmo grupo que eles.

Conteúdo externo

Swissinfo: Voltando à sua carreira de modelo, a senhora esteve no centro de um debate bastante acalorado sobre o etarismo na indústria publicitária. Como encarou isso?

I.R.: Bem, foi de fato um caso claro de etarismo. A Lancôme encerrou minha colaboração depois de muitos anos de sucesso, quando eu tinha 42 anos. Fui falar com o executivo responsável e disse: “Quero entender, porque, geralmente, em qualquer emprego, quando se tem muito sucesso, é-se promovido ou recebe-se bônus. Por que estão me demitindo?” Mas não fui demitida; eles simplesmente não renovaram meu contrato. E o executivo disse: “As mulheres sonham em ser jovens. Portanto, a modelo que representa nosso produto e a mulher ideal não pode ser uma pessoa na casa dos 40 anos. Mesmo que faça sucesso.”

“Como?”, disse eu. “Você tem certeza de que nós sonhamos em ser jovens?” Mas eles fazem pesquisas de mercado. Eu simplesmente perguntei às minhas amigas se elas queriam continuar jovens, e a resposta foi não. Talvez minhas amigas sejam pessoas excepcionais. Ou talvez a Lancôme estivesse fazendo a pesquisa errada ou fazendo as perguntas erradas. E então me contrataram novamente quando eu tinha 63 anos.

O rosto da Lancôme: Rossellini num anúncio da década de 1990.
O rosto da Lancôme: Rossellini num anúncio da década de 1990. Reproduction

Swissinfo: Como foi essa reconciliação?

I.R.: Fiquei muito surpresa. Nos primeiros anos, achei que eles diriam que estavam arrependidos e me chamariam de volta. Depois de 23 anos, eu já tinha desistido. Essa história teve algumas repercussões negativas na imprensa, e essas empresas são muito cuidadosas com sua imagem. Eu disse: “Por que vocês não contratam Meryl Streep ou Helen Mirren? Se me contratarem, a história vai voltar à tona.” “Não, nós queremos você”, disseram. “Queremos fazer as coisas direito.” Está bem. Então fui a Paris, porque queria confrontá-los.

Swissinfo: Eram os mesmos executivos que despediram a senhora?

I.R.: Não, e é isso que é interessante. Vi uma motocicleta parar diante do hotel onde eu tinha a reunião marcada. Era uma mulher com o cabelo à la Brigitte Bardot. Ela veio até mim e disse: “Olá, sou a nova CEO da Lancôme” [ela é agora a ex-CEO Françoise Lehmann]. Eu disse: “Não precisa dizer mais nada.” Ela me disse: “Eu era uma funcionária jovem da Lancôme quando demitiram a senhora e achei aquilo tão injusto. Então, vinte anos depois, tornei-me CEO e disse a mim mesma: vou corrigir isso.”

Edição: Catherine Hickley/ds

Adaptação: Karleno Bocarro

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR