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‘Não temos culpa de nada’, diz Bolsonaro sobre acusações da CPI por pandemia

Ativista do grupo Rio de Paz realiza protesto em homenagem às vítimas de covid-19 no Brasil em frente ao Congresso Nacional em Brasília, em 18 de outubro de 2021 afp_tickers

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado recomendou nesta quarta-feira (20) acusar o presidente Jair Bolsonaro por vários delitos, entre eles “crimes contra a humanidade”, por sua gestão da pandemia, enquanto o mandatário garante não ter “culpa de absolutamente nada”.

A CPI analisou durante seis meses as ações e omissões do governo durante a pandemia que já deixou mais de 600 mil mortos no Brasil, o segundo país com mais óbitos de covid no mundo depois dos Estados Unidos.

O relator, o senador Renan Calheiros (MDB/AL), apresentou hoje o relatório final, no qual conclui que o governo expôs “deliberadamente a população ao risco concreto de infecção em massa”, o que o levou a pedir o indiciamento de Bolsonaro e outras 67 pessoas e empresas, como diversos ministros e ex-ministros, e três dos filhos do presidente.

Entre os delitos atribuídos ao presidente estão “crime contra a humanidade” e “prevaricação”. Já os crimes de “homicídio” e “genocídio de indígenas” foram retirados no último minuto devido a dissensos no âmbito da CPI.

A Comissão não tem poder de fazer denúncias formais, mas seu relatório será enviado a diferentes órgãos que podem prosseguir com as investigações e apresentar acusações, como a Procuradoria Geral da República, o Tribunal de Contas da União ou uma corte internacional.

Além de “atraso deliberado” na compra de vacinas, “se comprovou a existência de um gabinete paralelo, a intenção de imunizar a população por meio do contágio natural, se deu prioridade a um tratamento precoce sem base científica e foram desestimuladas as medidas não farmacológicas”, como uso de máscara e distanciamento, afirma o relatório.

Tratou-se de uma “estratégia macabra”, acrescentou Calheiros. Se tivessem sido adotadas medidas para conter a circulação do vírus, “120 mil vidas poderiam ter sido salvas até o final de março de 2021”.

Bolsonaro é “o responsável principal pelos erros cometidos pelo governo federal”, concluiu Renan Calheiros no relatório, que será votado pelos 11 integrantes da CPI na próxima semana, quando se espera que o texto seja aprovado com algumas modificações.

– ‘Não temos culpa de nada’ –

Bolsonaro, que sempre tachou a CPI de “palhaçada”, por sua vez, se eximiu de qualquer responsabilidade.

“Nós sabemos que não temos culpa de absolutamente nada. Sabemos que fizemos a coisa certa desde o primeiro momento”, disse o presidente durante um ato oficial no estado do Ceará, horas após a apresentação do relatório.

Desde o início da emergência sanitária, Bolsonaro minimizou a pandemia, criticou as medidas de distanciamento, o uso de máscaras e defendeu medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid, como a hidroxicloroquina.

Mais de um ano depois de ter contraído o vírus, o presidente afirma que não se vacinará e continua defendendo esses medicamentos, que são contraindicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar de o relatório final da CPI ter a possibilidade de trazer consequências políticas e judiciais graves para Bolsonaro, analistas coincidem em dizer que o seu impacto no curto prazo será apenas simbólico, já que Bolsonaro ainda tem apoio suficiente no Congresso para evitar um processo de impeachment, e consideram pouco provável que o atual procurador-geral da República, Augusto Aras, resolva apresentar acusações formais contra o chefe de Estado.

A popularidade de Bolsonaro está em seu nível mais baixo desde que ele assumiu a Presidência, e as pesquisas para o pleito de 2022 o colocam atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

– Tramas impactantes –

No seu início, a CPI se debruçou sobre as responsabilidades pelos pacientes mortos em Manaus por falta de oxigênio, mas depois se aprofundou em irregularidades como a demora do governo para comprar vacinas, e sobre a existência de um “gabinete paralelo” de médicos e empresários defensores de medicamentos sem eficácia comprovada que assessorava Bolsonaro.

Contudo, no transcurso da CPI, foram identificados novos esquemas, entre eles supostas irregularidades na compra – que não foi efetivada – da vacina indiana Covaxin, que rendeu a Bolsonaro uma investigação judicial por “prevaricação”, ao não ter denunciado o caso, do qual estaria teoricamente inteirado, à Polícia Federal.

E também os vínculos entre o governo e operadoras privadas de planos de saúde na promoção de medicamentos ineficazes para o “tratamento precoce” do coronavírus.

Uma dessas operadoras é a Prevent Senior, que tem como público alvo pessoas da terceira idade e é acusada de aplicar tratamentos experimentais, sem o consentimento dos pacientes, e de maquiar o número de mortes por coronavírus, em um escândalo que abalou o país.

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