No Quirguistão, a água afasta o autoritarismo
Considerada anteriormente a “ilha de democracia” da Ásia Central, o Quirguistão tem visto sua reputação desaparecer nos últimos anos. Agora, a água está fortalecendo comunidades locais e encorajando cooperações transfronteiriças, com a Suíça desempenhando um papel essencial.
Por anos, a Casa Branca em Bishkek, capital quirguiz, foi tanto um símbolo de poder quanto um cenário de disputas. Construído na década de 1980 para ser a imponente sede do Partido Comunista do Quirguistão, o prédio se tornou o epicentro das disputas de poder e revoluções que se seguiram à independência. Manifestantes invadiram o local três vezes, durante as revoltas de 2005, 2010 e 2020.
Atualmente, a Casa Branca abriga o parlamento nacional, que conta com um parque primorosamente cultivado. “Quando eu era criança, sempre havia barricadas aqui e a polícia permanecia com equipamentos de choque”, lembra Kanatbek, de 28 anos, enquanto caminha com amigos pelo parque em uma noite de verão.
Kanatbek, economista, pede que seu sobrenome não seja publicado, para proteger sua família. Ele é crítico dos rumos que seu país tem tomado. “Perdemos muitas das liberdades pelas quais lutamos arduamente”, afirma. “É muito triste”.
Tempos difíceis para a sociedade civil
A área ao redor da Casa Branca do Quirguistão é muito mais calma hoje em dia. O presidente Sadyr Japarov levou seu escritório para outro prédio. Desde as eleições antecipadas, em novembro de 2025, o parlamento é composto quase exclusivamente por políticos leais a Japarov, que está no poder há seis anos.
Sob seu comando, esse país montanhoso com pouco mais de 7,5 milhões de habitantes, anteriormente visto como a “ilha de democracia” da Ásia Central, caiu drasticamente nos rankings internacionais de democracia.
“O poder foi centralizado, a liberdade de imprensa restringida e a repressão à sociedade civil aumentou”, afirma Joldosh Osmonov, diretor da GFA, uma consultoria sediada em BishkekLink externo que acompanha e apoia a participação civil em projetos no Quirguistão.
Com a eleição presidencial marcada para janeiro de 2027, todos se questionam se o Quirguistão permanecerá nessa trajetória ou aproveitará o momento para mudar de direção. Grupos da sociedade civil, por sua vez, estão tentando se reorganizar. “Pouco mais de 100, das quase 10.000 organizações não governamentais que existiam, sobreviveram aos últimos anos”, afirma Osmonov. A GFA acompanha dez das organizações restantes, no âmbito de um programa que conta com o apoio oficial da Suíça. Mais de CHF 5 milhões foram alocados para os próximos quatro anos de trabalho.
Entre essas ONGs, está o Development Policy InstituteLink externo (DPI, na sigla em inglês), em Bishkek, que trabalha com autonomia local no Quirguistão. “Sob o atual governo, falamos menos de democracia e mais de desenvolvimento local e tradições quirguizes”, afirma Sabina Gradwal, que faz parte do conselho do DPI. Essas tradições incluem uma forma de solidariedade comunitária enraizada na herança nômade do país, chamada ashar, e nas assembleias populares, chamadas kurultai. Para Gradwal, a água também é central para o desenvolvimento.
Caixa d’água da Ásia Central
O Quirguistão, com quase mil geleiras e cadeias montanhosas que chegam a 7.500 metros, é frequentemente descrito como a caixa d’água da Ásia Central. Durante a época soviética, seus recursos hídricos foram explorados sem levar em consideração os impactos ambientais e sociais. A desertificação do Mar de Aral, lagoa de água salgada entre o Cazaquistão e o Uzbequistão que é alimentada por rios do Quirguistão, é vista atualmente como um dos maiores desastres ambientais causados pela humanidade. Nos anos de 1960, Moscou começou a desviar grandes quantidades de água para irrigar plantações de monocultura.
A partir de 1991, quando novas fronteiras nacionais foram desenhadas, disputas sobre o uso da água provocaram diversos conflitos armados entre países da região. “Hoje, nós sabemos que, sem responsabilidade local e cooperação através das fronteiras nacionais, não há solução sustentável para a questão hídrica”, afirma Melchior Lengsfeld, diretor-executivo da organização de desenvolvimento suíça Helvetas, em entrevista à Swissinfo no escritório da organização em Bishkek.
A Helvetas trabalha há décadas com a Agência Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação (SDC, na sigla em inglês) para apoiar as “comunidades de água” no Quirguistão. “Elas incluem municípios, comitês privados, organizações de usuários e organizações de mulheres”, explica Lengsfeld. “A abordagem não é confrontacional, mas de diálogo e cooperação. Projetos hídricos se tornaram laboratórios discretos para a democracia”.
No leste do Quirguistão, perto da fronteira chinesa, o impacto é notável. O lago de montanha Issyk-Kul cobre mais de seis mil quilômetros quadrados, fica 1.600 metros acima do nível do mar e recebe água de 118 afluentes. Ele não tem saída de água e chega a 700 metros de profundidade. Durante a época soviética, grandes partes do Issyk-Kul eram zonas militares restritas. Ao redor do lago, fazendeiros utilizavam água glacial para irrigar suas plantações e as pessoas bebiam água sem tratamento.
“A água era de graça, e a infraestrutura estava se deteriorando”, lembra Olga Zavialova, que dirige o programa de modernização do fornecimento de água na cidade de Karakol, na margem leste do Issyk-Kul. Desde 1986, ela trabalha para o órgão municipal responsável pelos recursos hídricos de Karakol, a quarta maior cidade do Quirguistão.
Com um empréstimo do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) e um financiamento suíço obtido por meio do Secretariado de Estado para Assuntos Econômicos (SECO) cobrindo 70% dos custos, o programa de Zavialova construiu novos reservatórios de água, canos, bombas modernas e estações de tratamento. “Mas a principal questão é como as pessoas e as comunidades usam a água”, diz Zavialova. Para auxiliar nesse aspecto, a cidade está atualmente equipando todas as casas com medidores digitais de água, e assembleias locais de cidadãos têm sido criadas para estabelecer taxas para o uso de água.
Perto do lago Issyk-Kul, outras comunidades estão seguindo o exemplo de Karakol e construindo sistemas de fornecimento de água modernos e gerenciados localmente. Em Barskoon, município com 9.000 habitantes ao sudoeste de Karakol, o primeiro reservatório de água da cidade está sendo construído (imagem principal). Kadyr Usenov, dirigente do órgão local de recursos hídricos, afirma que muitos locais ainda dependem de poços para ter acesso a água potável.
No outro lado do lago, em Korumdu, um vilarejo com 3.000 habitantes, um novo sistema de água já está em funcionamento. A hepatite A, antes comum entre as crianças do vilarejo, já desapareceu graças ao novo sistema. Timur Tuyleev é presidente da associação que administra o sistema de fornecimento, que conta com apoio suíço. “A questão da água nos uniu e nos transformou em uma comunidade forte”, afirma.
No ano passado, as autoridades hídricas locais do Quirguistão conseguiram resistir à pressão do governo por centralização em Bishkek ao juntar forças e formar uma associação nacional. Com o apoio de organizações como o DPI, a Local Governance Academy, a “academia quirguiz de autonomia local” foi fundada. A gerente de projetos Sabina Gradwal afirma que o modelo está sendo agora expandido para países vizinhos. A água está fortalecendo a democracia local nessa região estrategicamente importante. Ela também está estimulando maior cooperação entre os chefes de Estado da Ásia Central, cujo estilo autoritário de governo está cada vez mais próximo de seus limites na gestão desse recurso vital.
Edição: Mark Livingston/fh
Adaptação: Clarice Dominguez
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