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Energia nuclear na Suíça: “A política mais sensata é manter as usinas existentes em funcionamento”

centro de controlo de uma central nuclear
Sala de controle do reator nuclear Beznau 2, na Suíça. Keystone / Christian Beutler

O governo e o parlamento suíços são unânimes: a proibição da construção de novas usinas nucleares na Suíça deve ser revogada. A decisão final caberá ao povo. Mas qual é a situação atual das usinas suíças e do desenvolvimento dessa tecnologia? Confira a análise do professor Maurizio Barbato, da Universidade de Ciências Aplicadas e Artes do Sul da Suíça (SUPSI).

Quinze anos após o desastre de Fukushima, no Japão, a proibição de novas usinas nucleares na Suíça está em cheque. O Parlamento aprovou a contraproposta do governo à iniciativa popular “Eletricidade para todos, em todos os momentos”. O objetivo é manter aberta a opção nuclear para garantir o abastecimento energético do país a longo prazo.

A população – que em 2017 votou pelo fim da energia nuclear na Suíça – provavelmente terá a palavra final, já que o Partido Verde requereu um referendo popular. A votação está prevista para fevereiro de 2027.

Para entender a situação atual dessa fonte de energia tão debatida, conversamos com Link externoMaurizio BarbatoLink externo, diretor do Instituto de Engenharia Mecânica e Tecnologia de Materiais da SUPSI.

Qual é a situação atual das usinas nucleares na Suíça?

Maurizio Barbato
Maurizio Barbato é professor catedrático de termodinâmica, dinâmica dos fluidos e sistemas energéticos, e diretor do Instituto de Engenharia Mecânica e Tecnologia dos Materiais da SUPSI SUPSI

Maurizio Barbato: Existem três usinas nucleares e quatro reatores na Suíça: Leibstadt, que iniciou a operação comercial em 1984; Gösgen, em 1979; e Beznau 1 e 2. Beznau abriga o reator em operação mais antigo do mundo: a primeira unidade foi ativada em 1969. O nível de segurança das usinas suíças é considerado bom, em parte graças à manutenção regular e às atualizações contínuas. Na energia nuclear, o que mais importa é a condição real dos componentes, as inspeções, os investimentos em segurança e a capacidade da autoridade reguladora de impor condições à operação das usinas.

A manutenção regular e a presença de órgãos independentes que verificam o estado das usinas e, se necessário, impõem restrições à sua operação são requisitos fundamentais para o uso dessa tecnologia. Considerando isso, podemos afirmar que o sistema regulatório na Suíça é robusto.

Quanto tempo leva, tanto na teoria quanto na prática, para construir uma usina nuclear do zero?

Considerando somente o trabalho de engenharia, tecnicamente seria possível construir e conectar uma nova usina à rede em um prazo de 5 a 7 anos. Usinas foram construídas na China dentro desse prazo. A realidade na Europa, no entanto, é diferente. A partir do momento em que se toma a decisão de construir uma nova usina, é preciso considerar um prazo de mais de 10 anos: temos a fase de projeto, a seleção do local, a aceitação pública, todo o processo burocrático e quaisquer possíveis objeções e recursos.

Um ponto também deve ser enfatizado: as usinas nucleares não podem ser consideradas meramente como instalações para geração de eletricidade. Trata-se de infraestrutura projetada para durar muitas décadas, chegando a 60 a 80 anos. Exatamente por isso, exigem um planejamento de longo prazo.

Nos países ocidentais, o tempo total necessário para construir usinas costuma ser de 10 a 15 anos, e os exemplos europeus mais recentes, como Flamanville, na França, e Olkiluoto, na Finlândia, levaram ainda mais tempo.

Na Suíça, novas usinas nucleares poderiam ser integradas a um sistema elétrico com emissões líquidas zero, mas, nas atuais condições econômicas, não seriam rentáveis. Essa é a conclusão de um Link externoestudoLink externo recente realizado pelo Instituto Federal Suíço de Tecnologia de Zurique e pelo Instituto Paul Scherrer, que constatou que novas usinas só seriam competitivas se a energia nuclear – assim como a energia renovável – fosse apoiada pelo Estado e se este assumisse parte dos riscos.

Mesmo com novas usinas, o abastecimento no inverno continuará sendo um desafio: de acordo com o estudo, a Suíça não poderá abrir mão de importar eletricidade. Em todos os cenários analisados, o comércio de eletricidade com os países vizinhos continuaria sendo um componente essencial para um abastecimento energético seguro e acessível.

Para enfrentar os desafios atuais da transição energética, qual solução faz mais sentido do ponto de vista técnico: construir novas usinas de energia ou continuar operando as existentes, conforme indicado em um relatório recente do governo suíço?

A política mais sensata é manter as usinas existentes em operação. Os países que as desativaram às pressas provavelmente agiram por impulso, sem muita visão de longo prazo. Se temos instalações em boas condições, precisamos mantê-las em operação, desde que sejam constantemente monitoradas e modernizadas.

Falar hoje em novas construções significa olhar para o futuro, no mínimo 2040. E, até lá, o que faremos? Gösgen e Leibstadt ainda podem ter uma longa vida útil pela frente; Beznau é um pouco mais antiga, mas, mesmo nesse caso, podemos determinar por quanto tempo ela poderá operar. Na minha opinião, nesta fase, se devidamente monitoradas, as usinas atuais podem nos ajudar na transição energética.

As pessoas costumam se referir à energia nuclear de “terceira geração plus”: o que isso significa e que exemplos temos na Europa?

A energia nuclear de terceira geração é uma evolução dos reatores anteriores. A tecnologia continua baseada na fissão (divisão dos átomos, que gera energia), mas, em comparação com a segunda geração, houve avanços significativos em termos de segurança, padronização de certos componentes e capacidade das usinas de responder mesmo em condições críticas.

A terceira geração-plus reforça ainda mais esses aspectos. O objetivo é reduzir ao máximo a dependência da intervenção humana em situações de emergência e aumentar a capacidade da usina de conter quaisquer acidentes.

Na Europa, os exemplos mais conhecidos são Flamanville, na França, e Olkiluoto, na Finlândia. Ambas são EPRs, ou Reatores Europeus Pressurizados. Essas usinas possuem dois circuitos separados: um conectado ao núcleo do reator e outro onde o calor é convertido em vapor para produzir energia mecânica e, posteriormente, eletricidade.

Esses projetos demonstram claramente tanto o potencial quanto os desafios do novo setor nuclear europeu. Por um lado, oferecem altos padrões de segurança; por outro, exigiram muitos anos de projeto, construção e comissionamento, em parte porque são usinas complexas e, em alguns aspectos, novas para o setor industrial europeu.

Existem também outros exemplos de reatores avançados na Rússia e na China, todos com o objetivo comum de tornar os sistemas mais seguros e padronizados.

Também se fala em energia nuclear de quarta geração. Quais são suas características e em que estágio estamos em sua implantação?

O termo “quarta geração” refere-se a uma família de tecnologias ainda em fase de desenvolvimento ou protótipo. Ele não abrange um único tipo de reator. Por exemplo, existem reatores resfriados a metal líquido que utilizam sódio ou chumbo, reatores resfriados a gás, reatores de sal fundido e reatores de água supercrítica, todos tendo em comum temperaturas operacionais muito elevadas.

A ideia é ter usinas mais eficientes, capazes de utilizar o combustível de forma mais eficaz e, em alguns casos, reduzir alguns dos resíduos radioativos mais problemáticos. Isso não significa, no entanto, eliminar totalmente os resíduos: a questão do gerenciamento de resíduos radioativos continuaria a existir.

Um dos aspectos mais interessantes diz respeito às temperaturas. Os reatores de quarta geração, que operam a temperaturas mais altas do que as usinas atuais, não só permitiriam uma produção de eletricidade mais eficiente, mas também forneceriam calor para usos industriais, como processos químicos e produção de hidrogênio.

No momento, porém, ainda estamos longe de uma implantação comercial em larga escala. Alguns projetos poderiam chegar à fase de demonstração industrial nos próximos anos, mas seria prematuro falar em verdadeira comercialização antes de meados da década de 2030.

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A energia nuclear não produz gases de efeito estufa, mas os resíduos radioativos geram uma grande preocupação. Quais soluções existem na Suíça para o gerenciamento desses resíduos, e já foi encontrada uma solução definitiva?

Atualmente,existe a instalação de armazenamento provisório Zwilag, no cantão (estado) de Aargau, na Suíça. Ela é utilizada para armazenar combustível usado e resíduos radioativos de várias categorias, provenientes tanto de usinas nucleares quanto de uso médico, da indústria e de pesquisas. É uma solução temporária, enquanto se aguarda o desenvolvimento de um repositório geológico profundo.

A NAGRA, empresa encarregada de identificar um local adequado para um novo reservatório, propôs uma área na região de Nördlich Lägern, no norte da Suíça. O processo de licenciamento ainda está em andamento, e a decisão final também envolverá aprovação política, com a possibilidade de um referendo.

Internacionalmente, o projeto mais avançado é o Onkalo, na Finlândia. É um repositório geológico profundo projetado para isolar o combustível usado por períodos extremamente longos. Os contêineres são colocados a uma profundidade de mais de 400 metros, dentro de uma formação rochosa estável, com múltiplas barreiras de proteção: o contêiner metálico, a argila bentonítica e a própria rocha.

* A entrevista foi publicada pela primeira vez no site da SUPSILink externo em 9 de junho de 2026.

Adaptação: Clarissa Levy

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