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Roger von Gunten: o suíço que marcou a arte do México

Roger von Gunten, 2019
O México foi o país onde von Gunten encontrou a sua liberdade artística. rogervongunten.com

O artista suíço Roger von Gunten, referência da arte moderna no México, morreu aos 92 anos após uma carreira marcada pela influência no movimento Ruptura. Pouco conhecido na Suíça, ele se tornou figura central na renovação da cena artística mexicana a partir dos anos 1960.

Na Zurique do pós-guerra, um jovem se depara com uma entrevista com o artista Paul Klee em uma revista. Ele não entende as imagens impressas, mas elas o fascinam, e ele leva a revista para casa. Seus pais dizem que ele é louco e que nem deveria considerar seguir tal carreira.

Mas Roger von Gunten não apenas se tornou um pintor e escultor de sucesso, como também contribuiu para a criação de uma cena artística completamente nova na década de 1960, a Ruptura.

Alunos de Johannes Itten

Quando menino, von Gunten misturou suas primeiras tintas a óleo na sala de hobbies de seu pai. Estudou pintura e artes gráficas aplicadas (atual design gráfico) na Escola de Artes Aplicadas, hoje Faculdade de Artes de Zurique. Lá, foi aluno de Johannes Itten, representante da Bauhaus e pai da teoria das cores, que o influenciou profundamente. Pouco depois de se formar, ele conseguiu realizar sua primeira exposição. Depois disso, ele finalmente quis conhecer o mundo.

Em 1956, o jovem artista e um amigo partiram para percorrer a então recém-inaugurada Rodovia Pan-Americana. A viagem os levaria de Dallas à Patagônia, na Argentina.

Mas o México cativou tanto a von Gunten que sua jornada terminou ali. “Quando os dois cruzaram a fronteira para o México, o agente alfandegário mexicano notou a flauta em sua mochila e pensou que algo estava sendo contrabandeado”, conta seu filho, Ives von Gunten. “Meu pai tocou para mostrar que era seu instrumento, que ele havia trazido da Suíça, e imediatamente uma multidão se reuniu e aplaudiu.”

O pai havia contado aos dois filhos a história de como ficou preso no México. O calor e a abertura das pessoas, a sensação de ser imediatamente acolhido. Um país em processo de transformação, no qual ele vislumbrou liberdade artística. “A cultura mexicana vem do coração”, disse ele, segundo a cineasta suíça Annemarie Meier, também mexicana por opção e que conhecia o artista pessoalmente.

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O mar na tela

O mar era outro elemento do México que exercia uma atração mágica sobre o homem originário da Suíça, país sem litoral. Ele passou muito tempo na cidade litorânea de Manzanillo, no Pacífico, como comprovam suas esculturas que adornam hoje as praças da cidade. Suas pinturas, dominadas pelo azul e com figuras que parecem flutuar, também testemunham isso.

Geralmente, suas obras são cobertas por pinceladas que criam uma névoa entre o tema pintado e o observador: uma marca registrada de Guntens. Você mergulha com o artista? Ele o convida para o seu sonho? Os dois temas frequentemente se confundem em suas pinturas.

“Não penso em qual quadro quero pintar. Fico em frente à tela e uma criança sai de dentro de mim”, descreveu ele certa vez seu processo criativo à artista suíço-mexicana Annemarie Meier.

Lutar contra os revolucionários

PERFIL
A crítica de arte atribuiu ao novo movimento, do qual Roger von Gunten também fazia parte, o nome adequado: la Ruptura – a ruptura. zVg / Rogervongunten.com

A visão de von Gunten de um México aberto começou a ruir pela primeira vez depois que ele decidiu ficar por lá. Isso porque a arte mexicana era estritamente definida e defendida por luminares que se autodenominavam revolucionários.

“A ideia de arte mexicana de von Gunten era a do muralismo”, afirma o crítico de arte e escritor mexicano Julen Ladrón de Guevara. O movimento, que surgiu durante a Revolução Mexicana após 1910, já havia conseguido expor sua arte, que abordava temas como luta de classes, crítica ao capitalismo e descolonização, também na Europa, sendo bastante conhecido nos círculos de esquerda europeus. “Roger von Gunten veio ao México curioso a respeito disso. E se deparou com um muro intransponível”, diz Ladrón de Guevara.

Os grandes muralistas, como Diego Rivera ou David Siqueiros, que pintaram cenas do cotidiano asteca e batalhas contra os espanhóis nas paredes de prédios governamentais e culturais, não apenas rejeitaram qualquer outro estilo artístico, como também não toleraram artistas estrangeiros.

O próprio nome do seu movimento, Escola Mexicana de Pintura, revela que eles se consideravam a única forma de arte legítima no país. Como seu aliado mais próximo, o Estado mexicano da época concedia encomendas e subsídios exclusivamente a muralistas.

Quebrando a arte velha

Mas os antigos mestres já eram idosos quando o artista de Zurique procurou se conectar com a cena local no México. E já começavam a surgir os delicados brotos de um novo movimento, cujos primeiros representantes haviam trazido ideias inovadoras de suas viagens. Enquanto os principais espaços de exposição estatais continuavam a exibir apenas muralistas tradicionais, mecenas privados abriam seus próprios salões e galerias.

O México estava rompendo com os velhos costumes. As novas figuras culturais pintavam de forma abstrata, expressavam seus sentimentos em filmes e não se deixavam prender por quaisquer restrições políticas. A rejeição do status quo era o que as unia. Os críticos de arte deram ao novo movimento um nome apropriado: la Ruptura.

Nesse cenário, von Gunten não só foi aceito, como rapidamente formou seu núcleo artístico com alguns outros artistas. A Zona Rosa, na Cidade do México, hoje um tanto decadente, tornou-se um fértil centro do movimento Ruptura na década de 1950.

Em galerias pertencentes a mecenas ricos como Antonio Souza e Juan Martín, ou em centros culturais como a Sala Margolín, os artistas podiam expor e vender seus trabalhos sem depender de espaços de exposição fornecidos pelo Estado.

Pintor e cenógrafo de renome

Hoje, von Gunten é mencionado no mesmo patamar que os mais famosos representantes da Ruptura, como José Luis Cuevas, Lilia Carrillo e Manuel Felguérez. O movimento, que durou das décadas de 1950 a 1970, alcançou seu auge com a “Confrontación 66”, quando o magnífico Palácio de Belas Artes da Cidade do México, sob nova direção, exibiu publicamente artistas da Ruptura pela primeira vez em 1966.

Escultura
Escultura «A Meditadora», bronze, 90 x 44 x 21 cm, 1996 Erick Astudillo/Roger von Gunten

Mais tarde, von Gunten se tornaria presença constante no Palácio de Belas Artes, onde desenhou cenários para diversos teatros e óperas. “O teatro é estressante”, disse ele certa vez, “as luzes do palco mudam as cores e o cenário fica completamente diferente do que eu havia pintado.”

Quando o Estado mexicano se abriu para a nova geração de artistas, ele lhes concedeu uma nova forma de apoio: os artistas foram autorizados a pagar seus impostos com suas obras de arte. Como resultado, o México agora possui 71 obras originais de von Gunten, que ele usou para quitar suas dívidas.

Música visual

Quando precisava explicar sua arte, ele a chamava de “música visual”. “As pessoas dizem que a arte abstrata não representa nada. Isso porque é como a música, na qual também não vemos pessoas ou paisagens, mas reconhecemos estruturas, altos e baixos, força e contenção”, disse ele certa vez em uma entrevista na televisão.

Sua rotina diária era caracterizada pela disciplina suíça, relata seu filho Ives von Gunten. Ele se levantava às seis horas, tomava café da manhã, trabalhava até às seis da tarde e jantava às sete da noite. Depois, regava as plantas do jardim, enchendo baldes com água do lago, que mais parecia um biótopo do que uma piscina e servia unicamente para saciar a sede das plantas.

As plantas do jardim estavam entre as fontes de inspiração mais importantes do artista, e ele as cultivava com o máximo cuidado. “Meu pai nunca deixou de ser suíço”, diz seu filho Ives. Além da disciplina com que foi criado, ele também nunca se esqueceu da culinária suíça ao longo da vida. Servia muesli Bircher aos convidados e convidava amigos próximos para fondue.

Patrimônio artístico no México e na Suíça

Ives von Gunten vive atualmente na Suíça e administra o legado artístico de seu pai. Ele afirma que os espaços de exposição e galerias na Suíça permanecem em grande parte indiferentes à obra de seu pai, embora muitas de suas pinturas e esculturas sejam consideradas tesouros culturais no México.

No entanto, Roger von Gunten fez poucos esforços em vida para promover sua arte na Suíça. Isso também se relacionava à sua postura em relação à Suíça oficial, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, afirma o crítico de arte Julen Ladrón de Guevara. Ele acreditava que a Suíça não se opunha suficientemente à ditadura.

Em sua terra adotiva, ele conseguiu organizar 140 exposições, a mais recente das quais ainda estava em cartaz em Cuernavaca quando faleceu em 18 de fevereiro em Tepoztlán, ao sul da Cidade do México, aos 92 anos. Em 2014, von Gunten recebeu a “Medalha de Belas Artes” do Estado mexicano, uma das maiores honrarias concedidas a artistas.

Von Gunten refletiu sobre a morte de sua maneira tipicamente filosófica. Em uma entrevista de 2016, ele disse para uma câmera de televisão: “Eu gosto do mar. Venho de um país sem mar. O fim do mundo e depois o quê? Talvez não seja um ‘depois’, mas sim uma simultaneidade.”

Edição: Marc Leutenegger/me

Adaptação: DvSperling

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