Passaporte suíço emitido no exterior causa dúvidas
Suíços que renovaram o passaporte no exterior relatam dificuldades ao retornar ao país devido à menção "EDA Bern" no documento. Bancos e seguradoras questionaram a indicação, gerando atrasos na abertura de contas e na contratação do seguro obrigatório de saúde.
“Olá, comunidade! Estou com problemas com meu passaporte, que foi emitido pelo Consulado da Suíça na Tanzânia.” Essa publicação foi feita por Christian Kälin na SwissCommunity, a plataforma da Organização dos Suíços no Exterior (OSELink externo).
Após uma permanência de seis anos na Tanzânia, no Quênia e na Nigéria, o suíço originário do cantão (estado) de Schwyz retornou ao país e teve dificuldades para abrir uma conta bancária online e contratar um seguro de saúde.
De um banco a outro
Kälin, de 58 anos, mudou-se no início de dezembro de 2025 para Genebra. Ele se registrou junto à autoridade competente, o Departamento Cantonal de População e Migração.
Como o (banco) UBS havia encerrado sua conta enquanto ele ainda vivia no exterior, iniciou a busca por um novo banco.
“Na Banca dello Stato (Banco Cantonal do Ticino), assinei oito documentos online e depois nada mais aconteceu. Disseram que me ligariam de volta, mas isso nunca aconteceu. Na Yuh foi igual: todas as etapas foram concluídas, mas nada aconteceu”, explica o ex-suíço do estrangeiro.
Em seguida, dirigiu-se pessoalmente a uma agência do Banco Cantonal de Genebra (BCGE, na sigla em francês). O funcionário que o atendeu estranhou a anotação “EDA Bern” (Ministério suíço das Relações Exteriores, EDALink externo, na sigla em alemão) como autoridade emissora e chamou seu superior. “Ele me disse que, com um passaporte desses, eu não poderia abrir uma conta ali. Primeiro eu teria que validá-lo junto ao cantão”, explica Kälin.
Nenhuma diferença
Dos cinco bancos cantonais contatados pela Swissinfo, todos asseguram que estão informados sobre a existência de documentos de identidade com a anotação “EDA Bern” e que os tratam da mesma forma que os documentos emitidos por autoridades cantonais.
O Banco Cantonal de Genebra, no entanto, especifica: “O BCGE reconhece que esses passaportes são equivalentes. Contudo, um passaporte emitido pelo EDA pode levantar outras questões, por exemplo, sobre o domicílio fiscal de seu titular.”
No caso concreto de Kälin, o vice-porta-voz do banco, Grégory Jaquet, explica que o BCGE, em princípio, apoia a prestação de serviços bancários a suíços residentes no exterior. “O banco, no entanto, reserva-se o direito de não estabelecer uma relação comercial”, acrescenta.
Por fim, Kälin tentou abrir uma conta online no (banco) PostFinance. Como o procedimento também não teve sucesso, ele se dirigiu pessoalmente a um guichê. Dez minutos depois, tudo estava resolvido.
“EDA Bern”
Desde 2003, os passaportes de suíços residentes no exterior trazem a anotação “EDA Bern”, caso tenham sido renovados por uma representação suíça.
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Como comparação: normalmente, nos documentos de identidade de cidadãos residentes na Suíça consta como local de emissão o nome da cidade e do cantão, por exemplo, Genebra GE.
A indicação “EDA Bern” também causou problemas à uma suíça residente nos Estados Unidos, que denominaremos de S. Após ter renovado seu passaporte em um consulado, ela precisou apresentar o novo documento de identidade a seu gerente bancário durante uma transação. “Ele levantou uma sobrancelha e me perguntou o que significava ‘EDA Bern’ e porque não constava Fribourg, como no documento antigo”, relata S..
O EDA afirma não ter conhecimento de tais dificuldades, uma vez que não foram relatados casos problemáticos. Em 2025, foram emitidos no exterior 59.529 passaportes suíços e 48.239 carteiras de identidade suíças.
Para as autoridades suíças, o fato de não constar a representação emissora serve como medida de proteção de dados e da personalidade, a fim de “evitar qualquer inferência sobre a origem religiosa ou étnica” da pessoa.
“O fato de um passaporte ter sido emitido em determinado país poderia, por exemplo, dificultar viagens a certos outros países”, explica Mélanie Gugelmann, porta-voz do EDA.
Também durante um controle alfandegário, S.* precisou novamente justificar a indicação “EDA Bern”: “No ano passado, em Abu Dhabi, o agente de controle de passaportes ficou surpreso que meu local de origem (Friburgo) fosse diferente do local de emissão.”
“Em ambos os casos, tratou-se de desconhecimento por parte das pessoas com quem tive contato. Ainda assim, quando meu passaporte precisar ser renovado, solicitarei na Suíça”, afirma a suíça residente no exterior.
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Problemas sistêmicos
Segundo o novo diretor da OSE, Daniel Hunziker, o próprio órgão não tem conhecimento de problemas recorrentes, “caso contrário agiríamos imediatamente”, afirma.
Noel Frei, delegado no Conselho dos Suíços do EstrangeiroLink externo, que viveu por muito tempo na Etiópia e lá emitiu seu passaporte, reagiu imediatamente à mensagem de Christian Kälin na SwissCommunity.
“Eu pessoalmente nunca tive tais dificuldades. No entanto, se vários suíços relatassem incidentes semelhantes, o Conselho teria que tratar urgentemente desse tema. Um documento oficial é um documento oficial”, explica.
Problemas com as seguradoras
Christian Kälin acredita que a anotação “EDA Bern” causou problemas quando, após seu retorno à Suíça, tentou contratar um seguro de saúde. Pois toda pessoa com domicílio na Suíça é obrigada a se inscrever no seguro de saúde obrigatório (KVG, na sigla em alemão) dentro de três meses após sua chegada.
Ele então inicialmente realizou procedimentos online junto à seguradora Helsana. Como não recebeu resposta, recorreu à Assura.
Alguns dias depois, recebeu uma carta solicitando que apresentasse “o cartão de legitimaçãoLink externo emitido pelo EDA para que se pudesse decidir sobre o pedido de adesão”. Esse documento é, em geral, reservado a pessoas que gozam de status diplomático ou semelhante na Suíça.
Contatada pela Swissinfo, a responsável pela comunicação da Assura, Karin Devalte, declarou que “a nacionalidade ou o passaporte não têm influência no processo de adesão”. Considera-se o domicílio da pessoa na Suíça.
Após examinar o caso específico de Kälin, a Assura reconheceu que houve confusão devido à anotação “EDA Bern” no passaporte: “Nosso pedido de um cartão de legitimação foi infundado, uma vez que o senhor Kälin não possui status diplomático.”
Kälin acabou dirigindo-se pessoalmente a uma agência da Helsana e conseguiu contratar um seguro válido retroativamente à data de sua chegada à Suíça. Posteriormente, também recebeu uma autorização de adesão da Assura.
“Cidadão de segunda classe”
Kälin tirou uma lição de seus contratempos: “É melhor resolver as formalidades pessoalmente.” As dificuldades enfrentadas fizeram-no sentir-se tratado como um “cidadão de segunda classe” devido ao seu passaporte emitido por uma representação suíça no exterior.
Além disso, “tive que pedir dinheiro em espécie à minha família por não ter conta bancária”, uma situação que lhe foi constrangedora.
>> As barreiras para renovar documentos…
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Suíços no exterior enfrentam obstáculos para renovar passaportes
Edição: Samuel Jaberg
Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos
*Nome conhecido pela redação
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