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Terremotos na Venezuela deixam quase 1.500 mortos e milhares de desaparecidos

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Milhares de socorristas, familiares e voluntários cavam dia e noite entre montanhas de concreto para encontrar sobreviventes dos terremotos ocorridos há mais de três dias na Venezuela, que até este domingo (28) deixaram quase 1.500 mortos e dezenas de milhares de desaparecidos.

Mas o tempo passa e a esperança de encontrar sobreviventes diminui após mais de 90 horas do duplo terremoto que, na quarta-feira (24), atingiu este país mergulhado em uma profunda crise política e econômica. Com uma magnitude de 7,2 e 7,5, e separados por segundos de diferença, foram os mais fortes e devastadores jamais registrados na América Latina.

A cidade litorânea de La Guaira, a 40 km de Caracas, parece uma zona de guerra. Dezenas de edifícios desabaram como castelos de cartas e se transformaram em montanhas de areia e escombros.

Com apoio de brigadas internacionais, os trabalhos de resgate avançam, embora a população não esconda sua revolta pela lenta e escassa ajuda do governo. Socorristas com cães se movem entre as ruínas, enquanto helicópteros e aeronaves americanas Osprey V-22 sobrevoam a área.

– “Sabemos que estão mortos” –

“Não temos o apoio para tirar nossos familiares, nós mesmos não conseguimos”, disse Héctor Aguilera, de 60 anos, à AFP. Quatro de seus familiares ficaram soterrados sob um prédio que desabou. Foram recuperados dois corpos sem vida.

Sabemos que estão mortos, mas aqui estamos, esperando a resposta das autoridades”, acrescentou. “Não temos esperanças, o que me restam são as lembranças”.

O último balanço oficial é de 1.450 mortos, 20 a mais que no sábado (27), e 3.150 feridos. O governo evita falar de desaparecidos, um número que as Nações Unidas calcula em mais de 50 mil.

Um painel digital mostra cartazes gigantes de pessoas desaparecidas em uma avenida da capital, onde bairros inteiros ficaram com imóveis reduzidos a pó.

“Não acredito que haja chances de vida. Lamentável, mas essa é a realidade”, disse José Miguel Escobar, de 63 anos, que ajuda na remoção dos escombros em um bairro da capital. “Após 96 horas, imagino que já vão deixar apenas a busca por cadáveres”.

A presidente Delcy Rodríguez disse que 33 pessoas foram achadas com vida no sábado e publicou nas redes sociais o resgate de um menino de 11 anos.

Rodríguez governa a Venezuela de forma interina após a captura, em janeiro, de Nicolás Maduro durante uma incursão dos Estados Unidos.

– “Nos vimos cercados pelos mortos” –

La Guaira já havia sido devastada em 1999 por chuvas e deslizamentos que deixaram mais de 10 mil mortos.

Imagens aéreas realizadas pela AFP mostram o novo nível de destruição. Prédios transformados em um espécie de mil-folhas, e os que permaneceram de pé estão sem paredes, rachados, inabitáveis.

O chefe da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, um dos porta-vozes na crise, disse, ao apresentar o último balanço, que 189 edifícios sofreram um colapso total e que o total de imóveis afetados é de 774.

A ONU estima que os terremotos podem deixar quase sete milhões de afetados e danos materiais de 6,7 bilhões de dólares (cerca de 34,6 bilhões de reais), 6% do PIB do país petrolífero.

“Isso é algo de outro mundo, ver prédios desabando é algo que só tínhamos visto em filmes”, disse José Contreras, segurança em um ambulatório com um pequeno necrotério para quatro corpos. O odor de decomposição impregna tudo.

“Nos vimos cercados pelos mortos”, relatou. “Muitas pessoas que conheço já não estão mais aqui”.

O governo militarizou La Guaira e impôs a exigência de uma permissão para que socorristas, médicos e voluntários possam acessar a região do desastre.

“Uma permissão para salvar vidas, imagina só”, reclamou Carlos Itriago, socorrista de 27 anos.

Também tenta controlar a cobertura da imprensa internacional. A imprensa é levada de ônibus a determinadas áreas de La Guaira, segundo o governo, para evitar epidemias. 

O papa Leão XIV expressou sua solidariedade com os venezuelanos e sua “gratidão e incentivo a todos os que trabalham com generosidade nas tarefas de busca e assistência” durante uma mensagem em espanhol após a oração do Angelus.

A solidariedade é abundante, assim como as denúncias de roubos e saques. Um vídeo que circula nas redes sociais mostra um homem que expulsa de sua casa um militar e outro funcionário que encontra revirando tudo.

Há áreas com edifícios desabados às quais a ajuda ainda não chegou. Resta somente o silêncio.

Um grupo de familiares de desaparecidos bloqueou uma rodovia em La Guaira para exigir assistência. Mas os veículos de socorro seguiram seu caminho.

– “Muito caótico” –

O aeroporto internacional que atende Caracas reabriu parcialmente no sábado e recebe, desde então, voos de carga com ajuda dos Estados Unidos, informou a repórteres uma autoridade americana de alto escalão, sob condição de anonimato.

A autoridade também destacou que um navio militar anfíbio encontra-se agora na costa da Venezuela para coordenar voos de resgate em La Guaira.

Os Estados Unidos ofereceram 150 milhões de dólares (775 milhões de reais) e o envio de dois navios de guerra, aviões de transporte e helicópteros para apoiar a Venezuela.

A presidente informou que 24 países enviaram mais de 2.700 socorristas e 521 toneladas de ajuda humanitária, e afirmou que há 86 unidades estrangeiras com cães treinados para localizar sobreviventes sob os escombros.

A crise econômica na Venezuela afetou gravemente os hospitais e os serviços públicos. Milhões de venezuelanos se exilaram nos últimos anos.

 

bur-jt/lbc/rm/am

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