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Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro durante o primeiro debate televisivo. No embate, o candidato de extrema-direita, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, copiou tática de Donald Trump para tentar intimidar ou desacreditar seu adversário invadindo o fundo do quadro da câmera.
Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro durante o primeiro debate televisivo. No embate, o candidato de extrema-direita, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, copiou tática de Donald Trump para tentar intimidar ou desacreditar seu adversário invadindo o fundo do quadro da câmera. Keystone/Swissinfo

A eleição presidencial do Brasil chega ao segundo turno neste domingo (25) em clima tenso e de total incerteza, extrapolando os limites geográficos do país. O mundo está de olho, e elencamos os temas que mais chamaram a atenção da imprensa suíça.

Trata-se de uma disputa com diversos temas em jogo, e acima de tudo uma escolha entre democracia e autoritarismo. Os observadores suíços destacam a massiva mobilização do campo lulista depois do choque do resultado do primeiro turno, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou dois pontos abaixo do seu adversário. E se perguntam, assim como o Brasil inteiro: virá a virada?

As suspeitas de interferência da gigante tech Meta e da plataforma X de Elon Musk foram também assunto, assim como a questão do que será da Amazônia caso Flavio Bolsonaro ganhe a disputa e qual o futuro do acordo de livre-comércio com o Mercosul.

Por fim, alguns jornais também procuraram lançar luz sobre o que representa Flavio, os negócios e trajetória do clã Bolsonaro, e sua plataforma baseada em religião, antifeminismo e laços estreitos com o governo Trump. Confira.

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Lula e seu exército

O Le Courrier traça a amplitude da mobilização frenética de movimentos sociais e partidos de esquerda junto a setores da direita moderada em prol do que pode ser uma virada histórica – nunca um candidato perdedor no primeiro turno conseguiu virar a disputa no segundo turno.

“A batalha política também se desenrola nas redes sociais, terreno preferido dos bolsonaristas,” relata o jornal. “Há vários anos, jovens deputados influenciadores, como o reacionário Nikolas Ferreira, de 30 anos, divulgam por lá vídeos virais e notícias falsas que colocam o governo em causa.

“Diante dessa onda conservadora online, os apoiadores de Lula redobram seus esforços. Poucos dias após o revés no primeiro turno, a jovem deputada de esquerda Ana Elisa, de 21 anos, que conduziu praticamente toda a sua campanha nas redes sociais, é convocada a Brasília para orientar a estratégia digital do presidente. A mudança de tom é imediata. Lula, de 80 anos, publica seu primeiro vídeo no formato de selfie. É um dos conteúdos mais vistos desde o início da campanha.

O deputado André Janones em live com o presidente Lula em 22 de outubro. Janones conseguiu mobilizar mais de 8,4 milhões de seguidores a reverter op domínio do campo bolsonarista nas redes sociais.
O deputado André Janones em live com o presidente Lula em 22 de outubro. Janones conseguiu mobilizar mais de 8,4 milhões de seguidores a reverter op domínio do campo bolsonarista nas redes sociais. Reprodução YouTube

O deputado André Janones, acostumado às plataformas e defensor do uso das “guerrilhas digitais”, está no comando do “Exército do Lula”, um canal do WhatsApp lançado logo após o primeiro turno e que conta com mais de 5,5 milhões de membros [no fechamento desta edição são já mais de 8,5 milhões]. Lá, ele mobiliza constantemente seus “soldados”, atribuindo-lhes missões: compartilhar um vídeo, tornar uma hashtag viral, comentar um conteúdo.

O portal Nau.ch faz compara as estratégias dos dois campos sobre o pano de fundo de um extremo “cansaço” do eleitorado com o braço-de-ferro de mais de uma década entre Lula e a extrema-direita encarnada no clã Bolsonaro. Ao destacar os avanços deste terceiro mandato de Lula (jornada 6×1, desmatamento da Amazônia, fundamentos econômicos, etc.), o jornal constata que infelizmente dados e fatos têm efeito muito limitado na campanha.

O portal Schweiz Heute (Suíça Hoje) faz eco: “Considerando a importância dessa votação, a campanha eleitoral desde 4 de outubro foi assustadoramente vazia de conteúdo. Não houve novas ideias nem impulsos decisivos. Pelo contrário. No único confronto direto até agora, em um debate na TV, os dois candidatos trocaram insultos, hostilidades e acusações.”

Democracia em perigo

No mesmo artigo do Schweiz Heute (Suíça Hoje), o comentarista político para a América Latina Klaus Ehringfeld analisa o que está em jogo nessa eleição e reproduz análise da premiada jornalista Eliane Brum, editora-chefe da revista online Sumaúma:

“Não se trata de eleições normais nem de uma disputa entre a ‘esquerda’ e a ‘direita’, adverte com veemência a escritora brasileira Eliane Brum em um ensaio. ‘Não há espaço para neutralidade quando a própria democracia, a sobrevivência da Amazônia e o destino de muitas pessoas estão em jogo.’”

O Brasil corre o risco de cair no fascismo, escreve Brum. “O bolsonarismo tem como objetivo «manter-se no poder de forma permanente». O ex-presidente Jair Bolsonaro teria tentado isso em 2023 por meio de um golpe de Estado clássico. Agora, o filho mais velho do ex-presidente, condenado a 27 anos de prisão, busca destruir a democracia por dentro, minando a Constituição e colocando as instituições estatais sob seu controle.”

Eliane Brum: "O Brasil corre o risco de cair no fascismo."
Eliane Brum: “O Brasil corre o risco de cair no fascismo.” Gui Christ

O correspondente do diário conservador zuriquenho Neue Zürcher Zeitung (NZZ), Alexander Busch, visitou uma manifestação bolsonarista descrevendo os perfis de apoiadores (muitas mulheres, evangélicos, militares aposentados) e o “fenômeno” do anti-lulismo visceral, baseado na associação de Lula e seu Partido dos Trabalhadores (PT) com a corrupção.

“No entanto, quando Flavio ataca Lula por causa de seus escândalos de corrupção, o presidente de repente fica bem alerta e com respostas rápidas. Ele consegue, por várias vezes, deixar Bolsonaro em maus lençóis, pois este não consegue responder às suas perguntas. Lula pressiona Bolsonaro sobre suas ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro, e o insta a divulgar as contas da família. Quando Bolsonaro zomba, dizendo que 73% dos presos votaram em Lula, este rebate: ‘Quero 100%. Inclusive o seu pai.’”

Por fim, Busch conclui que “Flávio Bolsonaro não precisa entusiasmar para vencer. Lula, por outro lado, precisa reconquistar eleitores que se cansaram de seu governo.”

“Não se META”

A frase acima foi ostentada em faixas e banners nas diversas manifestações populares que tomaram mais de 2000 cidades brasileiras, assim como o escritório da empresa em São Paulo, na última semana. A neutralidade dos algoritmos dos aplicativos da Meta – Facebook, Instagram e Whatsapp – foi posta em dúvida e é alvo de ações judiciais.

Pessoas seguram grandes recortes com as fotos do presidente dos EUA, Donald Trump, e do fundador da Meta, Mark Zuckerberg, durante uma manifestação em São Paulo, Brasil, em 19 de outubro de 2026.
Pessoas seguram grandes recortes com as fotos do presidente dos EUA, Donald Trump, e do fundador da Meta, Mark Zuckerberg, durante uma manifestação em São Paulo, Brasil, em 19 de outubro de 2026. EPA/Isaac Fontana

O diário Le Temps de Genebra destaca que “o partido de Lula entrou com uma ação na Justiça Eleitoral para denunciar a ‘interferência’ da Meta nas eleições brasileiras. Na ausência de tratamento igualitário comprovado, o proprietário do Facebook terá que pagar uma multa de 500 mil de reais por dia.”

Segundo o Le Temps, Lula denunciou a “interferência” da Meta nas eleições brasileiras depois de ter sido superado por uma pequena margem no primeiro turno por Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O presidente de esquerda acusou a plataforma americana de restringir a divulgação de seus conteúdos no Instagram e no WhatsApp.

Além disso, Lula alertou para a “seletividade” dos algoritmos do modelo de inteligência artificial do WhatsApp. Segundo ele, esse modelo se recusaria a gerar conteúdo eleitoral que lhe fosse favorável, o que não seria o caso de Flávio Bolsonaro. Seu partido recorreu à Justiça Eleitoral e à Organização dos Estados Americanos (OEA).

A Meta negou qualquer parcialidade nas eleições. A empresa reconheceu ter desativado por engano os anúncios da campanha de Lula, atribuindo isso a “incidentes” técnicos que não afetam apenas o Brasil.

Schweiz Heute relata que a Meta declarou que as medidas determinadas foram implementadas. As determinações judiciais não se referem a publicações regulares e não pagas. Além disso, a empresa estabeleceu um procedimento pelo qual bloqueios ou restrições automáticas nas contas publicitárias dos candidatos à presidência devem ser verificados por funcionários no prazo de duas horas.

Uma porta-voz do Tribunal Eleitoral confirmou o recebimento do comunicado. Representantes da Meta e das duas equipes de campanha deveriam se reunir na terça-feira com um juiz em Brasília para discutir a situação.

Mulheres pelo antifeminismo

O correspondente do Tages Anzeiger Jan Heidtmann enfocou a busca da extrem-direita em engajar mais mulheres, apesar de sua plataforma misógina e antifeminista.

Antifeminismo é uma das principais bandeiras do bolsonarismo, atraindo uma grande parcela do eleitorado feminino.
Antifeminismo é uma das principais bandeiras do bolsonarismo, atraindo uma grande parcela do eleitorado feminino. Copyright 2022 The Associated Press. All Rights Reserved

“O fato de Flávio Bolsonaro ter agora boas chances de liderar a democracia mais poderosa da América Latina tem muito a ver com as mulheres: há anos, a direita brasileira vem se empenhando em conquistar apoiadoras.”

A Alicerça Brasil foi fundada há pouco mais de um ano pela organização feminina do Partido Liberal (PL), o partido pelo qual Flávio Bolsonaro concorre à presidência. O objetivo é mobilizar as mulheres contra as ideologias de esquerda, uma vez que estas ameaçam os valores da família, segundo afirma uma descrição da própria organização.

As mulheres continuam sendo massivamente sub-representadas
na política brasileira. É verdade que houve uma presidente, Dilma Rousseff, e que, após a ditadura militar na década de 1980, houve um movimento democrático que contou com o apoio decisivo das mulheres. E em 2026? A edição brasileira da revista Marie Claire constata: “Uma onda antifeminista está surgindo nas eleições.”

A defensora mais ferrenha do novo antifeminismo é a influenciadora Eduarda Campopiano (23). Com seus 3,2 milhões de seguidores no Instagram, ela faz campanha agressiva contra o aborto, o feminismo e contra a classificação dos assassinatos de mulheres como feminicídios. Ela seria “a maior inimiga das feministas em São Paulo”, diz uma de suas declarações mais conhecidas.

Um exemplo é Eduarda Campopiano, jovem política conservadora que conquistou milhões de seguidores com vídeos provocativos e se tornou a deputada estadual mais votada do Brasil. Outro destaque é Nikolas Ferreira, que reúne mais de 22 milhões de seguidores no Instagram e alcançou votação recorde. Ambos demonstram como a popularidade digital pode ser convertida em capital político.

O clã

Diversos artigos procuraram explicar os pilares ideológicos do bolsonarismo, e quem é quem no clã do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Flavio Bolsonaro, o filho zero-um (centro), com o irmão Carlos, o filho zero-dois (à dir.); ao fundo, Michelle, a esposa zero-três de Jair Bolsonaro.
Flavio Bolsonaro, o filho zero-um (centro), com o irmão Carlos, o filho zero-dois (à dir.); ao fundo, Michelle, a esposa zero-três de Jair Bolsonaro. Copyright 2018 The Associated Press. All Rights Reserved

Matéria em vídeo do NZZ explica que “o confronto entre Lula e Bolsonaro já aconteceu uma vez em 2022 – naquele ano foi contra o pai, Jair Bolsonaro. Ele, porém, está atualmente
cumprindo pena de prisão e não pode concorrer pessoalmente.” E pergunta: Como ele consegue isso? E quanta influência ele realmente tem sobre as eleições? E por que um retorno político dos
Bolsonaros poderia ter consequências para além do Brasil?

Embora o Supremo Tribunal Federal tenha lhe proibido qualquer contato com a campanha eleitoral, suas mensagens chegam aos
eleitores e eleitoras, por exemplo, por meio de vídeos gerados por IA. Flávio, assim como seu pai, está politicamente na extrema direita, mas se mostra bem mais contido.

Segundo o correspondente do jornal, Alexander Busch, isso se dá “porque o pai costuma fazer desabafos muito fortes, com xingamentos e comentários racistas. E contra mulheres, contra gays. O filho não faz isso. Ele é, nesse sentido, bem mais educado, por assim dizer, mas agora está tentando imitar o pai intensamente. Postura corporal, corte de cabelo.

Todas essas semelhanças não são coincidência, mas sim uma tática.
“É por isso que o pai já o escolheu em dezembro como candidato, porque sabia que, na família, ele pode ter certeza de que uma anistia será aprovada”, diz Busch.

“Flávio quase não tem uma agenda política própria. Sua agenda é:
‘Vou fazer como meu pai’. E toda a família ajuda nisso. Os Bolsonaros são muito unidos. Cada membro da família contribui, à sua maneira, para a notoriedade do sobrenome, que marca o Brasil até hoje.”

>>Outros assuntos relacionados:

O destino da Amazônia dependerá do resultado das eleições presidenciais no Brasil Link externo(20/10)

O Brasil vai às urnas — e decide, indiretamente, sobre o acordo do MercosulLink externo (23/10)

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Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 30 de outubro. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!

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