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Ebola avança no Congo e expõe falhas no controle da epidemia

A proteção do pessoal é a principal prioridade.
A proteção do pessoal é a principal prioridade. SWI swissinfo

Mais de nove mil casos confirmados e 4.300 mortes fazem da atual epidemia de Ebola na República Democrática do Congo uma das mais graves já registradas no país. Um médico que trabalha para a ONG suíça Medair explica por que a contenção da epidemia fracassou até agora.

A República Democrática do Congo confirmou oficialmente um novo surto de ebola. É o 17º na história do país e um dos mais devastadores até agora. “É preciso ter uma ideia da dimensão da área em crise”, afirma Pierre-Olivier Ngadjole, médico e nutricionista da organização suíça de ajuda humanitária Medair. “A epidemia se estende por uma área maior do que a Suíça.”

O surto já abrange mais de nove mil infecções confirmadas e mais de 4.300 mortes, segundo informa o Instituto Nacional de Saúde Pública. Nas províncias orientais de Ituri – o epicentro -, bem como em Kivu do Norte e Haut-Uélé, o vírus circula sem controle entre a população.

Sete rios até o hospital mais próximo

No centro de tratamento do ebola de Katwa, em Butembo, os números traçam um quadro igualmente sombrio: “Dos 252 pacientes internados, mais de 70 morreram até agora”, relata Ngadjole. A letalidade é de cerca de 48%.

Para o médico, o principal motivo da elevada mortalidade não é a agressividade do vírus, mas o atraso no tratamento. Os pacientes simplesmente chegam tarde demais às clínicas.

Além disso, as pessoas doentes refletem a estrutura social da região: a faixa etária mais afetada é a dos 15 aos 49 anos, o que se deve ao trabalho nos acampamentos de mineração. Crianças pequenas também se infectam rapidamente no ambiente familiar.

Os trajetos até os focos de infecção muitas vezes se assemelham a uma odisseia. “O estado das estradas é desastroso. Durante a estação chuvosa, nem mesmo as motocicletas conseguem mais passar”, afirma Ngadjole. Algumas pessoas doentes precisam viajar durante dias e atravessar numerosos rios. Na falta de meios de transporte, as famílias recorrem a remédios caseiros. O resultado é uma perda de tempo fatal.

A sensibilização é uma componente importante do combate ao Ébola.
A sensibilização é uma componente importante do combate ao Ébola. SWI swissinfo

Efeito devastador dos mitos

Além do isolamento geográfico, no início houve uma falha de comunicação desastrosa. Circulava o boato de que não existiam vacinas nem cura contra a atual cepa do vírus. “Então, por que ir ao hospital?”, pensavam muitos. “Essa mensagem desmobilizou profundamente a população”, explica o médico.

De fato, ainda não existe uma terapia específica aprovada para a variante responsável, Bundibugyo. Mesmo assim, os cuidados intensivos precoces – por exemplo, por meio de infusões de eletrólitos – aumentam drasticamente as chances de sobrevivência. Ao mesmo tempo, o isolamento no hospital interrompe as cadeias de transmissão.

A situação de segurança precária no local torna tudo ainda mais difícil. As pessoas infectadas temem ataques de milícias armadas no caminho para o hospital. Além disso, comunidades religiosas incentivam os doentes a rezar em vez de procurar assistência clínica. Por isso, organizações de ajuda humanitária como a Medair estão recorrendo cada vez mais à participação de pessoas recuperadas para construir confiança. “Deixamos os sobreviventes contar suas histórias”, afirma Ngadjole.

A MedairLink externo é uma organização internacional de ajuda humanitária emergencial com sede no cantão de Vaud, na Suíça. Ela presta assistência médica e de infraestrutura em regiões afetadas por crises. Fundada em 1989 por dois médicos e outros voluntários, a organização opera atualmente com receitas operacionais de cerca de 91,6 milhões de dólares e emprega mais de 1.500 pessoas em todo o mundo.

Na Suíça, recebe apoio financeiro, entre outros, da Direção do Desenvolvimento e da Cooperação (DEZA, na sigla em alemão). De acordo com o relatório anual de 2025, também estão entre seus financiadores o Serviço de Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO, na sigla em inglês) e a USAID (Agência estadunidense de ajuda humanitária). O médico congolês Pierre-Olivier Ngadjole assessora a Medair in loco.

Problema do rastreamento de contatos

Segundo o destacado infectologista parisiense Xavier Lescure, porém, a contenção da epidemia esbarra em outro problema: o rastreamento de contatos. “Precisamos rastrear integralmente as cadeias de transmissão”, afirma o responsável pela missão francesa de coordenação de riscos epidêmicos e co-coordenador de redes internacionais de pesquisa da OMS. Atualmente, o rastreamento no Congo alcança cerca de 75% das pessoas que tiveram contato com infectados.

“É um resultado considerável nessas circunstâncias, mas simplesmente não basta para “apagar o fogo”: para isso, precisaríamos de mais de 95%”, afirma Lescure. O infectologista parisiense também atribui parte da situação no Congo às condições de informação. Ele fala de uma “epidemia da pós-verdade”: mitos sem fundamento e desconfiança comprometem, assim, as medidas de saúde pública.

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Equipas da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho preparam-se para enterrar, no cemitério de Mbiyo, o corpo de um quarto órfão que morreu vítima da doença causada pelo vírus Ébola num orfanato em Bunia, na província de Ituri, a 19 de junho de 2026

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Saúde global

Surto de Ebola no Congo acelera busca por nova vacina

Este conteúdo foi publicado em Sem imunizante ou tratamento aprovado contra a cepa atual, organizações como Cepi, Gavi e OMS recorrem a financiamento antecipado e produção sob risco para encurtar prazos e conter a epidemia.

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Por isso, a esperança está depositada nos avanços médicos. Segundo Lescure, há duas abordagens. Por um lado, estão sendo testados candidatos a vacinas desenvolvidos especificamente contra a cepa Bundibugyo. Por outro, também está sendo utilizada a vacina rVSV já existente, contra a cepa Zaire. “Os primeiros indícios científicos apontam para uma possível imunidade cruzada. Se essa vacina apresentar mesmo que apenas uma eficácia parcial e impedir quadros graves da doença, teríamos imediatamente à disposição uma arma eficaz”, afirma Lescure.

Matérias-primas, desenraizamento e o trauma da guerra

Não é por acaso que a epidemia atinge sobretudo as regiões de mineração de Ituri. Centenas de milhares de pessoas trabalham em minas informais, em condições sanitárias catastróficas. Muitas instalações ficam nas profundezas da floresta tropical, onde, na falta de alternativas, os trabalhadores se alimentam de animais silvestres (“carne de caça”) – a principal fonte de transmissão do vírus. O espaço apertado nas minas e nos acampamentos para deslocados internos acaba oferecendo ao agente patogênico condições ideais.

Somam-se a isso as cicatrizes psicológicas: o vírus atinge pessoas que sofrem com a guerra há três décadas. “Encontramos famílias profundamente traumatizadas porque seus parentes foram assassinados enquanto fugiam”, afirma Ngadjole.

No leste da República Democrática do Congo, muitas famílias trabalham em minas para a indústria tecnológica global – muitas vezes em condições de higiene precárias.
Na região oriental da República Democrática do Congo, muitas famílias trabalham nas minas para a indústria tecnológica global – muitas vezes em condições de higiene precárias. Copyright 2026 The Associated Press. All Rights Reserved.

Uma morte causada pelo ebola tem um peso duplo nesse contexto: devido ao risco de contágio, as cerimônias tradicionais de velório são proibidas. Os falecidos precisam ser enterrados imediatamente, sob medidas de segurança. Além disso, todos os pertences da casa – roupas, colchões, lixo – precisam ser queimados. Para famílias que já vivem na pobreza extrema, isso significa perder seus últimos bens. Por esse motivo, a Medair também presta ajuda material para repor o que foi perdido.

Preço da nossa prosperidade digital

Para Ngadjole, a luta contra o ebola não pode se limitar à assistência médica emergencial. “É necessária uma transformação estrutural que abranja toda a cadeia de produção”, enfatiza o médico, referindo-se às condições sanitárias catastróficas nas regiões de mineração.

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Assim, o surto também reflete o nosso consumo global, lembra Xavier Lescure: “Os minerais extraídos no Congo estão presentes em nossos smartphones, computadores e inúmeros outros aparelhos do dia a dia. Por trás disso, escondem-se graves consequências: exploração predatória dos recursos naturais, destruição de ecossistemas, tensões geopolíticas e o sofrimento da população local.”

Epidemias nunca são fenômenos puramente naturais, mas também expressam decisões econômicas e sociais, afirma Lescure. “Nossos hábitos de consumo têm consequências globais.”

Em 2026, a Suíça aumentouLink externo para um total de 4,6 milhões de francos suíços seu apoio ao combate ao ebola na República Democrática do Congo. Os recursos são destinados, especialmente à OMS (Organização Mundial da Saúde), à coordenação de equipes médicas de emergência, à ampliação da capacidade laboratorial e à vigilância epidemiológica.

Segundo o Ministério suíço das Relações Exteriores (EDA, na sigla em alemão), a Suíça também trabalha em estreita colaboração com as autoridades de saúde congolesas e com organizações parceiras internacionais.

Berna apoia projetos de organizações de ajuda humanitária – entre elas a Medair – especialmente nas províncias afetadas de Ituri e Kivu do Norte.

Instituições suíças também participam, em conjunto com parceiros congoleses, da vigilância genômica do vírus. A empresa farmacêutica Roche, sediada na Basileia, fornece equipamentos de laboratório e testa, em colaboração com o Instituto de Saúde Congolês, métodos para detectar o ebolavírus Bundibugyo.

Doações suíças também contribuem para o combate ao ebola: em maio de 2026, a organização Glückskette disponibilizouLink externo 1,2 milhão de francos de seu fundo de ajuda emergencial.

Edição: Marc Leutenegger

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

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