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‘All About Corinne’ transforma a estrela Isabelle Huppert em mera figurante

Isabelle Huppert a dar um autógrafo no tapete vermelho do Festival de Cinema de Locarno.
Isabelle Huppert a dar um autógrafo no tapete vermelho do Festival de Cinema de Locarno. Locarno Film Festival / Ti-Press

No Festival de Cinema de Locarno, Marc Fitoussi estreou uma comédia que espelha realidade e ficção em um jogo sem fim. Em uma entrevista concedida na véspera do lançamento, Isabelle Huppert, Sandrine Kiberlain e o diretor discutem a atuação, as dinâmicas entre as estrelas de cinema e o tom autodepreciativo do filme.

O Festival de Cinema de Locarno é celebrado há muito tempo por sua programação rica e diversificada, que apresenta cineastas com perspectivas radicais, muitas vezes consideradas ousadas demais para outros festivais internacionais de prestígio, como Cannes e Veneza.

A intenção de Locarno em ser uma vitrine para o cinema independente de arte não significa que a direção artística do festival adote uma abordagem exclusivista ou somente cinéfila. Uma das seções mais icônicas de Locarno continua sendo a Piazza Grande. Voltada para um público mais amplo, com milhares de espectadores reunidos todas as noites em frente a uma das maiores telas do mundo, a Piazza apresenta principalmente estreias mundiais ou internacionais, com a presença de convidados ilustres.

Em um tom particularmente alegre e inspirador, o festival chegou ao fim com a estreia mundial de All About Corinne (Ni vue, ni connue), de Marc Fitoussi.

Com Isabelle Huppert e Sandrine Kiberlain, duas estrelas do cinema francês, Fitoussi criou uma comédia sobre o mundo do cinema, repleta de metalinguagem e referências internas, explorando o trabalho dos figurantes – e sua força invisível, porém indispensável, por trás de cada filmagem.

Desde seu primeiro longa-metragem, La vie d’artiste (2006), até a minissérie Ça, c’est Paris!, o mundo do show business e do entretenimento tem sido parte integrante da obra do cineasta. No entanto, foram principalmente suas contribuições para a terceira e quarta temporadas da premiada série Dix pour cent (2015-2020) que deixaram uma marca definitiva em seu universo artístico.

All About Corinne parece dar continuidade a esse exercício peculiar de autodepreciação, no qual Kiberlain e Huppert já haviam se entregado de forma hilária ao interpretarem a si mesmas nos episódios de Dix pour cent dirigidos por Fitoussi.

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Quando a ficção encontra a realidade

All About Corinne dá uma reviravolta na abordagem metalinguística: ao lado de atrizes como Sandrine Kiberlain, Diane Kruger e Ana Girardot, que interpretam versões ficcionalizadas de si mesmas, Isabelle Huppert é escalada como Corinne Maclou, uma figurante determinada com uma personalidade dominante que busca desesperadamente um papel que finalmente lhe permitirá provar seu talento.

Após se conhecerem em um set de filmagem, as duas mulheres começam a passar tempo juntas, forjando uma amizade repleta de tensão e humor, resultado da assimetria em suas personalidades e em seus status profissionais, econômicos e sociais.

Ver Huppert – indiscutivelmente a atriz mais prolífica do cinema francês atual, tendo entregado inúmeras performances inesquecíveis para Claude Chabrol, Michael Haneke e Paul Verhoeven – se esforçando como mera figurante de uma filmagem para outra é, no mínimo, surpreendente e divertido.

A ilusão criada pela ficção não se mantém intacta por muito tempo. Quando encontramos a atriz no Hotel Belvedere, na véspera da estreia, a expressão distante, quase indiferente, em seu rosto é uma prova de seu talento para dar vida a uma Corinne determinada e adoravelmente desajeitada. Acompanhada pelo cineasta Fitoussi e por Kiberlain, não menos profissionais, mas um tanto mais afetuosos que sua colega de elenco, Huppert parecia, naquele momento, estar pensando em qualquer coisa, menos em responder às nossas perguntas.

Isabelle Huppert (à esquerda) e Sandrine Kiberlain numa cena de *Ni vue, ni connue*.
Isabelle Huppert (à esquerda) e Sandrine Kiberlain numa cena do filme *Ni vue, ni connue*. Avenueb – Jerome Prebois

A distância entre realidade e ficção é certamente um dos temas centrais do filme. Como a maioria dos filmes que refletem sobre as condições materiais da produção cinematográfica – sendo o exemplo mais famoso, sem dúvida, A Noite Americana (1973), de François Truffaut – All about Corinne mergulha profundamente na dimensão escapista do mundo do cinema.

Segundo Fitoussi, o desejo de fazer filmes implica, em si, um desejo de estar na realidade: “uma realidade melhorada, em todo caso, como gostaríamos de vê-la, com o distanciamento necessário que o cinema permite”. Isabelle Huppert, por sua vez, destaca que existe uma distinção entre a realidade vivida pelos atores e a do público: “Quando se é ator, ao contrário, estamos no centro da realidade, na própria realização de um filme”. A breve resposta transmite a convicção com que encara sua profissão.

Como acertar no tom autodepreciativo

Como Corinne Maclou, Huppert parece ter tido maior liberdade para moldar sua personagem. A tarefa é mais complexa para os outros atores, a começar por Kiberlain: apesar da evidente autodepreciação do filme, parece haver o risco de que seus papéis sejam vistos como caricaturas, em versões inverossímeis de si mesmos.

No entanto, o cineasta afirma que “o público de hoje está acostumado à autodepreciação e os atores sabem como brincar com sua imagem pública. Um ator como Vincent Dedienne está disposto a assumir um papel tão pouco elogioso, mesmo sendo creditado com seu próprio nome”, disse. “É também um sinal de inteligência. Acredito que, com o tempo, os atores se tornam mais parecidos conosco, quase mais acessíveis”.

Huppert, claramente uma admiradora da abordagem de Kiberlain, diz que sentiu uma espécie de irmandade na forma como atuaram juntas: “Foi uma boa ideia nos reunir. Sinto que, em nossa atuação, praticamos constantemente a autodepreciação, mesmo nos filmes mais trágicos ou melodramáticos. É algo que gosto de reconhecer em um ator. Sabe, as pessoas costumam dizer que a comédia nunca está longe do drama, e o drama nunca está longe da comédia. Colocar essa ideia em prática significa que nunca estamos completamente em um gênero ou outro, e isso também dá ao público muita flexibilidade.”

Marc Fitoussi e as suas estrelas no tapete vermelho em Locarno.
Marc Fitoussi e as suas estrelas no tapete vermelho em Locarno. Locarno Film Festival / Ti-Press

Em relação ao tom humorístico do filme, Kiberlain elogia o roteiro de Fitoussi e sua capacidade de adaptar o humor a cada personagem: “Percebemos muito rapidamente que nem todos compartilhavam nosso senso de humor. Fomos muito cuidadosos porque sabíamos que tipo de humor Marc tinha usado na produção do filme. Mas houve momentos em que percebemos que esta ou aquela pessoa não conseguia se distanciar das coisas da mesma forma que nós. É um equilíbrio muito sutil que Marc conseguiu alcançar.”

Desafiando estereótipos através do humor

O filme vai além de simplesmente oferecer um vislumbre ficcional do mundo do cinema. O diretor e seus dois colaboradores habituais fazem questão de enfatizar que, acima de tudo, All About Corinne conta a história de um encontro entre duas pessoas, cujos efeitos se estendem para além de suas vidas profissionais.

“A armadilha que queríamos evitar era a rivalidade feminina. Existe um clichê um tanto persistente no cinema em que as atrizes são imaginadas se destruindo mutuamente. No entanto, Corinne não está tentando tomar o lugar de Sandrine, e quando Sandrine fica chateada ao saber que Diane Kruger conseguiu um papel, ela não busca vingança”, explica Fitoussi sobre suas protagonistas femininas.

Gala na Piazza Grande: o filme encerrou a 79.ª edição do Festival de Cinema de Locarno perante cerca de 8 000 espectadores no maior cinema ao ar livre do mundo.
Gala na Piazza Grande: o filme encerrou a 79.ª edição do Festival de Cinema de Locarno perante cerca de 8 000 espectadores no maior cinema ao ar livre do mundo. Locarno Film Festival / Ti-Press

O filme reconhece e denuncia estruturas sociais e as consequências que elas podem ter, independentemente das intenções dos personagens. “Mas para fazer as pessoas sorrirem!”, insiste Isabelle Huppert. “O que eu gosto nos filmes de Marc, mesmo que ele retrate personagens que vivem em um certo grau de precariedade, um tanto azarados, é que ele vai além da simples oposição entre vítimas e vencedores. O que eu acho realmente interessante na minha personagem é que ela nunca é retratada como uma vítima. Desde a primeira cena, suas reações constantes destacam as desigualdades. É também um recurso puramente dramático, mas que provoca reações que são ao mesmo tempo engraçadas e violentas.”

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Cena do Festival de Locarno

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Edição: Samuel Jaberg/fh

Adaptação: Clarissa Levy

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