Prós e contras do voto por correio na Suíça
Você se sente confortável ao colocar seu voto em uma caixa de correio? Nos EUA ou na Alemanha, alguns políticos não gostam da ideia. Na Suíça, onde votar por correspondência é a prática corriqueira, as desconfianças com o sistema postal são marginais.
“Agora somos o único país do mundo que usa o voto por correspondência”, reclamou o presidente dos EUA, Donald Trump, em 2025. A afirmação era falsa: mais de 30 países permitem que eleitores enviem seus votos pelo correio.
Mas a fala de Trump fazia coro a um movimento maior, de oposição ao sistema de votação, especialmente nos EUA. Na Suíça, por outro lado, onde o voto por correspondência é a norma, as autoridades consideram o sistema de correio inclusive como um potencial reforço da segurança democrática.
Como funciona o voto por correspondência na Suíça?
O sistema é bem azeitado. Até quatro vezes por ano, as pessoas com cidadania suíça em idade eleitoral recebem em suas caixas de correio um envelope grosso com vários papéis. Na carta, encontram informações sobre as votações, uma cédula para preencher e um cartão de identificação eleitoral.
Após analisarem suas opções, os eleitores podem preencher a cédula escolhida e devolvê-la – pelo correio ou depositando-a em uma caixa de correio municipal específica – ou aguardar para entregar o voto presencialmente no dia da eleição. Também podem jogar fora todo o material e não participar do processo eleitoral.
Por estar tão enraizado na vida política e ser tão amplamente utilizado, pode parecer que o voto por correio é algo muito antigo na Suíça. Mas, não é. Similar ao funcionamento dos EUA, o sistema é gerido pelos cantões (estados) e começou de maneira local: na década de 1970 alguns primeiros cantões começaram a implementá-lo, quase ao mesmo tempo em que a Califórnia se tornou o primeiro estado americano a adotar o modelo.
Em 1994, o parlamento federal suíço determinou que o voto por correspondência deveria estar disponível em todo o país; e em 2005 todos os 26 cantões adotaram a determinação. Pequenas diferenças locais ainda persistem: por exemplo, algumas localidades oferecem selos postais gratuitos para a devolução do voto, outras não.
Segundo a International IDEA, uma organização intergovernamental que promove a democracia em todo o mundo, a Suíça é um dos 11 países que oferecem voto por correspondência a todos os eleitores; 21 países oferecem essa opção a alguns cidadãos, como idosos ou eleitores no exterior.
Nos EUA, as regras variam de estado para estado, o que ajuda a explicar parte da tensão em torno do voto por correspondência: durante anos, Trump travou batalhas legais e políticas para restringi-lo, inclusive Link externoàs vésperas das eleições de meio de mandato de novembro de 2026.
Quantas vezes por ano os cidadãos suíços votam por correio?
Resposta curta: muitas. “Quase todo mundo vota antecipadamente”, diz Alina Zumbrunn, da Universidade de Berna. Não há números exatos, mas estima-se que mais de 90% de todos os votos registrados a nível nacional chegam pelo correio.
Em junho de 2026, o cantão de Aargau registrou uma taxa de 98%. Não se trata de uma questão rural ou urbana: cidades como Genebra e Basileia têm taxas semelhantes às do cantão (estado) rural de Obwalden.
Já as pessoas que preferem ir votar presencialmente formam um grupo heterogêneo, explica Zumbrunn. “São aqueles que gostam do aspecto social do processo eleitoral, aqueles que votam pela primeira vez ou aqueles que simplesmente se esqueceram de votar por correspondência antecipadamente”.
Considerando o contexto internacional, esses números são altos. Alguns estados americanos com votação exclusivamente por correio, como Oregon e Washington, registraram taxas semelhantes às da Suíça, acima de 90%, segundo a Comissão de Assistência Eleitoral dos EUALink externo .
Mas, em âmbito nacional, com exceção de Liechtenstein, é difícil encontrar algum país com uma taxa geral de votação por correio superior à da Suíça – mesmo que alguns países tenham apresentado grandes aumentos, principalmente devido ao impulso da pandemia de Covid-19. A Alemanha, por exemplo, registrou pouco menos da metade dos votos por correio nas eleições de 2021.
A rapidez com que o voto por correspondência foi adotado no país alpino também foi impressionante, saltando de uma estimativa de metade ou 30% dos eleitores no final da década de 1990, para atingir quase 100% atualmente.
O que torna o país tão aberto a esse sistema? Um dos fatores é o serviço postal ser considerado um dos melhores do mundo. Pesa também a frequência das votações, acrescenta Zumbrunn – para muitos, votar por correspondência é mais fácil do que ir pessoalmente à seção eleitoral quatro vezes por ano. E há o fator confiança: os cidadãos suíços têm um nível de confiança alto nas instituições – o que neste caso, também se aplica ao sistema eleitoral.
Existe oposição ao sistema, à moda Trump?
Segundo Therese Pearce Laanela, do International IDEA, a confiança das pessoas pode ser lida como “menos uma confiança no funcionamento do sistema em si e mais uma confiança nas próprias pessoas e na sua relação com o sistema”.
Assim, o voto por correspondência pode acabar sendo amado em um lugar e odiado em outro, dependendo da cultura, do hábito ou das tentativas de minar a confiança no sistema. Nos últimos anos, por exemplo, Trump buscou repetidas vezes restringir o voto por correspondência, atacando a confiança dos eleitores. Atualmente, o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha busca fazer o mesmo.
Na Suíça, porém, a questão é “muito menos politizada”, afirma Zumbrunn. Isso não se deve apenas à confiança. Também se deve ao fato de que os partidos políticos não têm muito a ganhar ou a perder ao atacar o sistema. Nos EUA, os democratas votam pelo correio mais do que os republicanos. Consequentemente, há um claro capital político, e potencialmente votos, para ganhar ou perder com uma possível restrição às correspondências.
Na Suíça, por que criticar um sistema que deixa quase todos – jovens, idosos, conservadores, liberais – satisfeitos? Mas, claro, o sistema não está imune a críticas. No final de 2025, por exemplo, Jean-Luc Addor, do Partido Popular Suíço (de direita), pediu ao parlamento que incentivasse a votação presencial nas seções eleitorais, o que ele chamou de “ato de participação cidadã com significado social”.
O político defendeu o voto presencial como medida para “restaurar a confiança e reduzir o efeito de possíveis fraudes”, disse Addor. O governo suíço, no entanto, não se abalou. O voto por correspondência é popular e conveniente, respondeu, citando as vantagens usuais: acessibilidade, flexibilidade e possibilidade de voto do exterior.
Será que é um sistema tão infalível assim?
Na Suíça, não há registros de grandes fraudes ou falhas estruturais. A cada poucos meses, alguns milhões de cidadãos votam pelo correio, e os casos de falsificação são raros. Mas, como o governo reconheceu em sua resposta a Addor, ilegalidades não podem ser totalmente descartadas.
Por exemplo, em Vernier (cantão Genebra), uma análise de grafólogos após as eleições locais de novembro de 2025 descobriu que 189 cartões de identificação de eleitor haviam sido preenchidos por 79 pessoas. Os resultados das eleições não foram afetados, mas o caso segue sendo investigadoLink externo, segundo a emissora pública suíça RTS.
O caso de Genebra destacou um problema com o voto por correspondência que às vezes é mencionado, mas raramente quantificado: familiares ou amigos preenchendo – e decidindo – em nome de outros.
Outros riscos potenciais são o roubo: no cantão de Valais, em 2017, um homem foi suspeito de roubar e preencher 150 votos. Além de fraude, existe a possibilidade de votos desaparecerem antes da contagem – mas há poucos registros de extravio de correspondência na Suíça.
Zumbrunn afirma que, com casos concretos de fraude raros, a confiança no sistema suíço permanece em grande parte intacta. Internacionalmente, no entanto, pode haver um equilíbrio entre o que Pearce Laanela, do International IDEA, chama de “benefícios da conveniência e preocupações com a segurança”.
Para democracias em transição ou emergentes, o “ambiente controlado” da seção eleitoral com uma urna física ainda é o “padrão ouro” para garantir uma votação segura, diz Pearce Laanela. Em outros lugares, votar à distância depende de vários fatores – o mais óbvio sendo um serviço postal confiável.
Outras vantagens democráticas?
Embora possa facilitar a vida, o voto por correspondência não necessariamente aumenta a participação eleitoral. A facilidade pode ajudar eleitores que vivem no exterior, idosos ou durante uma pandemia. Mas “as pessoas também votam por vários outros motivos, como hábito ou interesse”, diz Pearce Laanela.
Na Suíça, onde a participação eleitoral é geralmente baixa , estima-se que o voto por correspondência tenha aumentado o engajamento eleitoral em cerca de quatro pontos percentuais, afirma Zumbrunn. A gratuidade do selo postal para que a população não precise pagar pelo envio das cédulas aumenta esse percentual em mais três pontos, aponta um estudo de 2025Link externo .
Outros aspectos democráticos são mais intangíveis. A ideia de que votar à distância poderia banalizar a ideia de democracia como um “evento social” depende da concepção de evento social em si.
Instituições como as assembleias municipais, que se baseiam na premissa da reunião física das pessoas, muitas vezes apresentam taxas de participação inferiores à média suíça. Finalmente, em um período de ameaças híbridas e desinformação, algumas pessoas enxergam novas vantagens em um sistema já consolidado.
Para o governo, a votação por correspondência do país pode até mesmo contribuir para a estabilidade democrática. O sistema postal possibilita “a participação dos eleitores ao longo de várias semanas (e não apenas em um único dia de eleição, como em muitas outras democracias ocidentais)”, escreveu o governoLink externo em 2025.
Juntamente com a “familiaridade” dos eleitores com os procedimentos eleitorais e uma organização descentralizada, essas práticas ajudam a “tornar o sistema robusto e a protegê-lo contra interferências estrangeiras”, afirmou em resposta a uma pergunta parlamentar sobre uma possível interferência nas eleições de 2027.
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Suíço do estrangeiro precisa pagar até 100 francos para votar
Edição: Benjamin von Wyl/fh
Adaptação: Clarissa Levy
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