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As eleições de meio de mandato e a democracia, um novo parque nacional e hambúrgueres políticos

hamburger
A concretização culinária do Sonho Americano. Keystone/Swissinfo

Bem-vindos à nossa análise da cobertura da imprensa suíça sobre os principais acontecimentos ocorridos nos Estados Unidos. Todas as quintas-feiras abordamos três temas da atualidade norte-americana.

Sempre que visito os Estados Unidos, fico ansioso para comer em diners e lanchonetes. É difícil encontrar na Suíça um hambúrguer saboroso, daqueles que fazem sujeira ao comer, e, quando se encontra, ele pode facilmente custar mais de CHF 30 (US$ 35). Mas será que os dias dos hambúrgueres (relativamente) baratos nos EUA estão chegando ao fim? Com a oferta de carne bovina em baixa e a demanda permanecendo elevada, os preços estão subindo, com possíveis consequências políticas.

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Eleitores
As pessoas aguardam para receber os seus boletins de voto num local de votação antecipada em Haverstraw, Nova Iorque, esta segunda-feira. Copyright 2026 The Associated Press. All Rights Reserved.

Às vésperas das eleições de meio de mandato da próxima semana, a democracia americana sofre um retrocesso histórico sob Donald Trump, na avaliação do jornal suíço Tribune de Genève.

Como anda a democracia dos Estados Unidos na reta final para as eleições legislativas de 3 de novembro?

“Muito mal”, respondeu o Tribune de Genève em uma análise publicada na terça-feira, citando diversos institutos independentes de pesquisa.

“Segundo o principal relatório do V-Dem sobre democracia, os Estados Unidos registraram neste ano sua queda mais acentuada da história. O índice retornou aos níveis de 1965, época em que Martin Luther King Jr. marchava pelas ruas e os direitos de voto das minorias acabavam de ser estabelecidos.”

Um dos principais problemas, segundo o jornal, é a falta de mecanismos efetivos de controle sobre o Poder Executivo por parte do Congresso e do Judiciário.

“Durante o segundo mandato de Donald Trump, o poder passou a se concentrar nas mãos do presidente, que governa cada vez mais por meio de decretos executivos”, escreveu o diário de Genebra. “O Congresso, dominado pelos republicanos, oferece pouca resistência. Em grande medida, abriu mão de suas funções de fiscalização e controle orçamentário em favor da administração. A Suprema Corte também costuma decidir em favor do presidente.”

Além desse enfraquecimento dos mecanismos de freios e contrapesos, o Tribune de Genève afirma que Trump vem acelerando a deriva autocrática por meio de diversas outras medidas, como ataques ao Estado de Direito, expurgos na administração pública e restrições à liberdade de expressão, incluindo ações contra manifestações de protesto.

“Como resultado, um número crescente de americanos acredita que sua democracia já não é um bom modelo para outros países”, afirma o jornal. “Segundo pesquisas do Pew Research Center, 69% dizem estar insatisfeitos com o funcionamento da democracia em seu país. Muitos perderam a confiança em seus líderes políticos.”

De acordo com o Tribune de Genève, essa insatisfação com a democracia e suas instituições está impulsionando a mobilização eleitoral.

“As projeções indicam uma participação elevada em 3 de novembro, o que tende a favorecer especialmente os democratas. Quase um em cada dois americanos considera explicitamente seu voto como um voto contra Trump.”

O jornal conclui que, tradicionalmente, as eleições de meio de mandato funcionam como um referendo sobre o presidente em exercício. Desta vez, porém, cientistas políticos enxergam o pleito como um momento decisivo para o futuro da democracia americana.

“Essas eleições mostrarão se as forças políticas moderadas estão recuperando influência ou se o desmonte das estruturas democráticas continuará avançando até se tornar impossível de deter.”

Vaca
Um leilão de gado no Texas. A escassez de gado em todo o país está a fazer subir os preços. Epa

“Os americanos mal conseguem pagar por seus hambúrgueres” era a preocupante manchete do jornal suíço Neue Zürcher Zeitung (NZZ), que percorreu o estado de Wyoming para explicar por que os hambúrgueres se tornaram uma questão política.

“Mesmo neste dia nublado em Torrington, uma cidade de 6 mil habitantes, os preços voltaram a se aproximar de níveis recordes”, escreveu o NZZ durante uma visita a um leilão de gado. “Bezerros leves, com até 300 quilos, estão entre os mais procurados. Um novilho Angus de alta qualidade, castrado manualmente e totalmente vacinado, pode alcançar US$ 2.500 (CHF 2.050). Mas, na prática, tudo está vendendo bem.”

A razão para os preços elevados é clara: o rebanho bovino dos Estados Unidos está no menor nível da história recente. A seca, em particular, teve um forte impacto, observa o NZZ, destacando que o país não registrava um rebanho tão reduzido há quase 80 anos.

“Mas a escassez de gado não está apenas elevando os preços; para os americanos, ela atinge o coração da vida cotidiana. O país precisa de carne. De fast-food. Afinal, o hambúrguer é praticamente um alimento básico nos Estados Unidos. É a expressão culinária do sonho americano: enquanto na Europa do século 19 a carne era um privilégio das classes mais ricas, a pecuária prosperava nos EUA. Por apenas alguns centavos, um hambúrguer passou a saciar qualquer trabalhador. Hoje, porém, isso está longe de ser uma realidade para todos.”

Como consequência, o hambúrguer se tornou uma questão política. Às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato de 3 de novembro, o custo de vida domina o debate público.

“A maior parte das discussões gira em torno dos preços dos combustíveis, que preocupam os eleitores. Mas ao menos parte dos republicanos está disposta a dar ao presidente o benefício da dúvida nesse tema. Afinal, se a guerra contra o Irã está afetando os preços nas bombas, ela é dirigida contra um regime tirânico que, na visão deles, também ameaça os Estados Unidos, o ‘Grande Satã’. Quando o assunto é o Big Mac, porém, a compreensão termina aí.”

Segundo o NZZ, Donald Trump sabe disso. Por essa razão, afrouxou as regras para a importação de carne bovina, assinando uma ordem executiva que suspende temporariamente as tarifas sobre determinadas quantidades de carne magra utilizada na produção de carne moída.

Em outras palavras, carne bovina magra e mais barata, vinda por exemplo do Brasil, deverá ajudar a reduzir os preços.

A medida, adotada por Trump em agosto, vale por 90 dias.

“Ou seja, praticamente até o fim das eleições de meio de mandato. O cálculo político é evidente. Se vai funcionar, é outra questão.”

Parque Chiricahua
Parque Nacional de Chiricahua. National Parks Service

Um novo parque nacional foi criado nos Estados Unidos. Então por que os ambientalistas estão insatisfeitos?

Na semana passada, o Parque Chiricahua, no sudeste do Arizona, tornou-se a 64ª área protegida dos Estados Unidos a receber o status de parque nacional. Mas, como relatou o jornal suíço Le Temps na quinta-feira, o anúncio provocou principalmente críticas entre ambientalistas, que o consideram uma ação de relações públicas desconectada da realidade.

“Esse novo status destacará uma das joias do Arizona, permitindo receber mais visitantes e impulsionar a economia local”, afirmou o secretário do Interior, Doug Burgum.

“Esta é uma vitória para todos aqueles que lutaram para proteger este lugar, para que nossos filhos e netos possam desfrutá-lo”, declarou o senador democrata do Arizona Mark Kelly, em uma rara demonstração de consenso entre os partidos.

Os Estados Unidos agora contam com um 64º parque nacional, “mas os ambientalistas mantiveram o champanhe na geladeira”, escreveu o Le Temps.

Segundo o jornal, há dois motivos para isso.

O primeiro é que, na prática, pouco mudou.

“Com 49 km², o Parque Nacional de Chiricahua é o quarto menor do país. Sua transformação em parque nacional não foi acompanhada por uma ampliação da área protegida. O nível de preservação ambiental permanece o mesmo de antes e nenhum recurso adicional foi destinado à sua gestão, apesar da expectativa de aumento no número de visitantes. Portanto, não se trata de um avanço ambiental significativo.”

O segundo motivo é a continuidade de políticas adotadas durante a gestão Trump.

Christina Hazard, diretora jurídica da Associação para a Conservação dos Parques Nacionais (NPCA, na sigla em inglês), organização independente dedicada à proteção dos parques nacionais, afirma que, para preservar adequadamente essas áreas, “é necessário restaurar os níveis de financiamento e de pessoal do Serviço Nacional de Parques”.

O Le Temps destaca que, desde a volta de Donald Trump à Casa Branca, milhares de funcionários do Serviço Nacional de Parques perderam seus empregos. Em diversas regiões do país, a infraestrutura dos parques se deteriora enquanto o governo prioriza projetos como a controversa reforma de um campo público de golfe em Washington ou a criticada remodelação do Reflecting Pool, também na capital americana.

“Os parques nacionais do Arizona estão à beira do colapso, mas, em vez de investir recursos limitados na segurança dos visitantes e em outras necessidades dos parques, o secretário Burgum supervisiona a reforma dos projetos do presidente em Washington”, afirmou a Associação Nacional de Guardas-Florestais dos Estados Unidos.

“É injustificável promover a criação de um novo parque nacional enquanto se recusa a cuidar das áreas que seu departamento administra há mais de um século.”

A próxima edição de “Notícias dos EUA” será publicada na quinta-feira, 6 de novembrop de 2026. Até lá!

Comentário ou críticas? Envie sua mensagem ao seguinte endereço: english@swissinfo.ch

Adaptação: Fernando Hirschy

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