Democracia sob pressão, petróleo como arma, e muita fé no apocalipse
Bem-vindo à nossa revista de imprensa sobre os acontecimentos nos Estados Unidos. Todas as quintas-feiras, analisamos como a mídia suíça noticiou e reagiu a três notícias importantes nos EUA – nas áreas da política, finanças e ciência.
Você acha que o mundo vai acabar ainda durante a sua vida? Aparentemente, um terço dos americanos acredita nisso, mas seu apoio a medidas preventivas drásticas depende de vários fatores.
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O presidente dos EUA, Donald Trump, está desmantelando a democracia a um ritmo sem precedentes, afirma a emissora pública suíça SRF, ao analisar um relatório internacional anual sobre democracia. “As eleições de meio de mandato em novembro podem impedir esse processo — ou acelerá-lo”.
“Em nenhum outro lugar a democracia está sendo desmantelada de forma tão rápida e abrangente como nos Estados Unidos”, escreveu a SRF na terça-feira, dia em que o Instituto V-Dem da Universidade de Gotemburgo (Suécia) publicou seu relatório anual sobre o estado da democracia no mundo.
“As condições gerais para o funcionamento da democracia estão se deteriorando em várias frentes nos EUA”, afirmou a SRF em uma análise desanimadora. “O controle do poder pelo parlamento é praticamente inexistente – Trump governa por decreto e o Congresso e o Senado não fazem nada para contrariar isso. Os direitos civis e a igualdade perante a lei recuaram ao nível do final da década de 1960. A liberdade de expressão está em seu nível mais baixo desde o fim da Segunda Guerra Mundial.”
O portal de notícias suíço Watson destacou que os EUA perderam seu status de longa data como democracia liberal – pela primeira vez em mais de 50 anos.
Deve-se dizer, no entanto, que os EUA não estão sozinhos quando se trata de retrocesso democrático. “Nunca antes tantos países se tornaram autocráticos ao mesmo tempo como nos últimos anos”, afirmou o Watson na quarta-feira. “Enquanto em 2005 foi identificada uma tendência de autocratização em 12 países, em 2025 esse número subiu para 44 países.” Desses, cinco estão na Europa: Itália, Reino Unido, Croácia, Eslovênia e Eslováquia.
A SRF considera que as chances dos democratas de derrubar a maioria republicana nas eleições de outono são boas, pelo menos no Congresso. Mas alertou que há sinais crescentes de que Trump deseja assumir o controle das eleições de meio de mandato. A SRF citou Gréta Bedekovics, diretora do Center for American Progress, de tendência esquerdista: “Há grandes preocupações sobre se as eleições de 2026 serão livres e justas. Estamos vendo esforços muito evidentes, incluindo a presença da polícia federal ou possivelmente até mesmo das Forças Armadas nas seções eleitorais, para dissuadir as pessoas”, disse ela.
A SRF concluiu que as eleições de meio de mandato são, portanto, também uma oportunidade importante para os EUA se afirmarem como uma democracia e frearem a autocratização. “A experiência em outros países mostra que as primeiras eleições após o início de um processo de autocratização são as mais importantes para reverter a tendência.”
- A democracia americana sob pressãoLink externo – análise da SRF (em alemão)
- Cobertura do relatório V-DemLink externo – Watson (em alemão)
- Democracia em 2026 enfrenta desafio globais – Swissinfo
Donald Trump queria uma vitória rápida contra o Irã – mas ignorou o fato de que seu inimigo poderia usar o petróleo como arma, afirma o Tages-Anzeiger.
“O que está acontecendo agora com o presidente dos EUA, Donald Trump, parece quase irreal”, escreveu o jornal de Zurique na segunda-feira. “Ele iniciou uma guerra contra o Irã sem levar em conta que a República Islâmica poderia usar o petróleo como arma. Como eles próprios admitiram, a equipe de Trump não se preparou para a possibilidade óbvia de que o Irã pudesse fechar o Estreito de Ormuz e, com isso, interromper um quinto do abastecimento mundial. Agora, ele está exigindo que os parceiros da OTAN ajudem a proteger o estreito. Ele está ameaçando a aliança com um ‘futuro muito sombrio’ caso os aliados não sigam suas ordens.”
“Quem poderia imaginar que uma passagem marítima de 33 quilômetros de largura entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã desestabilizaria tanto a América de Donald Trump?”, questionou o Le Temps na terça-feira.
“Tal é o pânico na Casa Branca que Donald Trump, que tem desprezado os membros da OTAN e da União Europeia desde que retornou à Casa Branca, agora implora por sua ajuda para garantir o trânsito sob escolta militar pelo Estreito de Ormuz”, continuou o jornal de Genebra. “Mas formar uma coalizão, como fez George HW Bush durante a primeira Guerra do Golfo, requer planejamento prévio, e não posterior. Os países europeus têm razão em recusar tal pedido – para evitar serem arrastados para uma guerra sem objetivo e sem fim à vista. E por uma questão de dignidade.”
As consequências também estão afetando o presidente dos EUA internamente, segundo o Tages-Anzeiger. “Trump se gabou de ter reduzido os preços e tornado os EUA ‘autossuficientes em energia’ pela primeira vez em décadas. Não por meio da expansão das energias renováveis, pelas quais Trump só consegue sentir desprezo, mas por meio da produção desenfreada de petróleo e gás em seu próprio país. No entanto, agora está claro que a compreensão de Trump sobre a autossuficiência energética é enganosa. É verdade na medida em que os EUA produzem mais energia do que consomem. Mas suas refinarias ainda precisam de petróleo bruto importado, o que significa que os EUA não estão alheios aos mercados globais de petróleo e suas perturbações”, escreveu o jornal.
“É por isso que os motoristas americanos agora têm que pagar mais, e o posto de gasolina está se tornando o adversário mais difícil de Trump. No posto, seus concidadãos lembram que ele foi eleito com a promessa de preços mais baixos. Seus apoiadores esperam que ele vença a inflação, não o Irã.”
O Le Temps destacou que a gasolina nos EUA custa agora, em média, US$ 3,72 (CHF 2,92) por galão (3,78 litros), um aumento de 25% desde o início da guerra, em 28 de fevereiro. “Se a alta continuar, os republicanos certamente perderão as eleições de meio de mandato em novembro.”
- ‘O maior adversário de Trump é o posto de gasolina’Link externo – análise do Tages-Anzeiger (em alemão, paywall)
- ‘A armadilha do petróleo está se fechando sobre Donald Trump’Link externo – editorial do Le Temps (em francês)
- Suspensão temporária das sanções dos EUA ao petróleo russo em reação ao aumento dos preçosLink externo – RTS (em francês)
Apocalypse now? Um em cada três americanos acredita que o mundo vai acabar ainda durante a sua vida, segundo o Tages-Anzeiger. Pessoas profundamente religiosas acreditam nisso tanto quanto os cidadãos laicos, mas como isso influencia seus pensamentos e ações?
A crença no fim iminente do mundo é tão difundida que representa “um ponto de concordância inesperado no clima polarizado dos EUA”, escreveram os autores de um estudo da Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá). Essa visão une “comunidades muito diferentes, incluindo pregadores pentecostais, cientistas nucleares, ativistas das mudanças climáticas, cultos de OVNIs, preparadores para o fim do mundo nas áreas rurais e engenheiros de inteligência artificial”.
Segundo o Tages-Anzeiger, “a crença no apocalipse não é, portanto, mais um privilégio religioso – a comunidade científica também é uma das vozes de alerta mais veementes”.
O jornal de Zurique afirmou que, embora estudos anteriores tivessem estabelecido a “ligação óbvia” de que as pessoas que esperam que o mundo acabe em breve estão menos preocupadas com a forma como desejam moldar o futuro – já que esse futuro logo deixará de existir –, a análise dos dados de quase 3.500 participantes do estudo atual revelou “um quadro mais complexo”.
Em resumo, as pessoas que veem as influências humanas como o gatilho são mais propensas a apoiar medidas drásticas do que aquelas que acreditam em causas sobrenaturais.
No entanto, os dados também mostraram que, se os participantes associassem sentimentos positivos ao suposto desastre iminente, eles eram mais propensos a apoiar medidas extremas para evitá-lo. “Uma descoberta inicialmente confusa”, admitiu o Tages-Anzeiger. “Afinal, a perspectiva do fim do mundo desperta sentimentos positivos apenas se algo melhor nos espera – o paraíso ou algo semelhante.”
Então, de onde vem a motivação para evitar isso? Uma possível explicação, segundo os psicólogos, é que são principalmente as pessoas radicais que acolhem o fim do mundo. “E os radicais”, concluiu o Tages-Anzeiger, “tendem a ser a favor de medidas radicais, independentemente de o paraíso estar chegando ou não”.
- Um em cada três americanos espera vivenciar pessoalmente o fim do mundoLink externo – Tages-Anzeiger (em alemão, paywall)
A próxima edição de “Notícias dos EUA” será publicada na quinta-feira, 26 de março de 2026. Até lá!
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Adaptação: Eduardo Simantob
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