“Dilema verde”: boom da energia solar na China prejudica aves, diz estudo
A expansão global da energia solar pode trazer custos ocultos para a biodiversidade, segundo um estudo sobre a China publicado nesta quinta-feira (20) na revista Science.
De acordo com a pesquisa, que abrangeu mais de 2.300 condados chineses, políticas favoráveis à energia solar levaram à redução da diversidade de aves, à medida que áreas de cultivo e pastagens foram rapidamente desmatadas para dar lugar a empreendimentos.
Os autores classificaram o caso como um exemplo de “dilema verde”, que coloca a redução das emissões de carbono em conflito com a conservação.
“A principal mensagem não é desacelerar a transição para as energias renováveis, mas tornar o desenvolvimento da energia solar mais consciente do ponto de vista ecológico”, disse à AFP o primeiro autor do estudo, Huiming Zhang, da Universidade de Ciência e Tecnologia da Informação de Nanjing.
A meta da China de alcançar a neutralidade de carbono antes de 2060 levou o país a embarcar em uma revolução das energias renováveis.
Em 2024, a área ocupada por instalações solares chegou a cerca de 4.520 km² – equivalente a três vezes o tamanho da cidade de São Paulo – e projeta-se que a energia solar represente 45% da matriz energética chinesa até 2060.
A escolha das áreas para instalações solares na China não se baseia em locais ensolarados e na disponibilidade de terras, mas nos “Planos Quinquenais” do governo para promover o desenvolvimento econômico em determinadas regiões.
Zhang e seus colegas exploraram essas diferenças nas políticas de expansão da energia solar em 2.344 condados da China entre 2014 e 2023, levando também em conta tendências nacionais, condições meteorológicas e socioeconômicas, cobertura do solo e o esforço de observação de aves.
Esses dados foram combinados com registros de ciência cidadã para compreender o impacto sobre a diversidade de aves.
Os resultados revelaram uma relação negativa, com uma maior rigidez das políticas consistentemente associada a uma redução da biodiversidade de aves, embora o efeito tenha sido moderado.
Os efeitos foram mais fortes nas regiões mais ricas e nas áreas não desérticas.
Tanto as aves residentes quanto as migratórias sofreram quedas significativas, mas as espécies nativas de habitats montanhosos, pouco adequados para instalações solares, não foram afetadas.
— “Esverdeamento inferior” —
A expansão das fazendas solares na China foi acompanhada por esforços de reflorestamento e arborização para atender às exigências ambientais, mas os autores identificaram o que chamaram de “esverdeamento inferior”, quando a quantidade total de vegetação pode até aumentar, mas, por ser excessivamente homogênea, a qualidade ecológica diminui.
Em um comentário relacionado, Yuanning Liang, da Universidade de Pequim, afirmou que “as aves são um grupo indicador eficaz para a avaliação da biodiversidade em larga escala”, porque estão entre os poucos grupos de animais para os quais há dados de abundância disponíveis ao longo do tempo e do espaço.
Embora os autores tenham estudado a energia solar, os problemas identificados se aplicam igualmente a outras formas de energia renovável, como a expansão de parques eólicos, acrescentou ela.
“O próximo passo é passar da medição da biodiversidade para sua valoração, relacionando as mudanças na diversidade de aves aos serviços ecossistêmicos e aos valores de conservação”, disse Liang.
“Sem essa valoração, a análise de políticas atribui peso insuficiente à conservação, e a análise de custo-benefício pode subestimar o custo social do desenvolvimento.”
A equipe de pesquisadores apresentou uma série de recomendações, incluindo direcionar grandes projetos solares para locais com menor conflito ecológico, realizar avaliações mais aprofundadas de cada área e limitar a conversão de terras em regiões produtivas e ricas em habitats.
“O desenvolvimento de energia limpa e a conservação da biodiversidade não precisam ocorrer às custas um do outro, mas a escolha cuidadosa dos locais e as salvaguardas para a biodiversidade são essenciais”, afirmou Zhang.
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