A “Grande Depressão” começou há 79 anos
Dia 24 de outubro de 1929 foi a "quinta-feira negra" em que começou a pior crise econômica da história mundial.
Naquela época, a Suíça foi cautelosa em suas decisões e a economia resistiu bem nos primeiros meses. No entanto, uma vez instalada a recessão, o país levou mais tempo para se recuperar do que os outros.
Para os mercados financeiros internacionais, o capítulo da crise hipotecária nos Estados Unidos ainda não está encerrado.
Nas bolsas de valores, parece difícil acreditar que os diversos planos de socorro aos bancos anunciados pelos governos da Suíça, Estados Unidos e União Européia (UE) sejam remédios em doses suficientes para o doente.
Na Suíça, depois de o governo anunciar um programa de saneamento dos “papéis podres” do UBS e a recapitalização do Credit Suisse com dinheiro do Catar, a bolsa respondeu com alta de 6,6% no dia seguinte, mas as ações do UBS caíram 4,8%, desafiando a lógica financeira tradicional.
O que acontece? Por enquanto, há mais temores do que respostas.
Por outro, nesta sexta-feira (24/10), faz 79 anos que a queda vertiginosa da Bolsa de Nova York deu início à “Grande Depressão” da economia mundial e desde então esse fantasma nunca tinha sido tão forte como agora nos cinco continentes.
A Suíça é um país completamente distinto do que era há oito décadas. Suas reações, curiosamente, são exatamente as mesmas.
Quinta e segunda-feira “negras”
Na quinta-feira, 24 de outubro de 1929, a Bolsa de Nova York caiu 9% em algumas horas. Na segunda-feira seguinte, o choque foi pior com queda de 13% e os das posteriores viram quedas sucessivas até a perda de 90,5% do valor de mercado em três anos.
Os primeiros sinais de alerta tinham começado sete meses antes, em março de 1929, quando reinava uma euforia nas bolsas que não correspondia ao valor real das empresas.
Os especialistas começavam a falar de supervalorização, porém desconheciam ainda o efeito devastador de uma quebradeira geral, porque isso nunca havia acontecido.
Na Suíça, três bolsas operavam simultaneamente em perfeita normalidade: Zurique, Genebra e Basiléia.
Do outro lado do Atlântico, no início de outubro já corria o rumor (fundamentado) de que o Conselho da Reserva Federal (Fed), Banco Central dos Estados Unidos, se reunia diariamente há duas semanas, o que semeou o pânico entre os investidores que temiam que algo de grave estava acontecendo.
Começou então a venda compulsiva e desordenada de ações e as bolsas despencaram. O presidente dos Estados Unidos era o republicano Herbert Hoover. Na Suíça, o presidente em exercício era Robert Haab, do Partido Radical Democrático (PRD).
A “Grande Depressão” suíça
O estudo “A grande crise dos anos 30”, de Jean-Christian Lambelet, professor da Universidade de Lausanne, narra com detalhes a “Grande Depressão” na Suíça.
Como em 2008, em 1929, quando o mundo entrou em pânico, a Suíça simplesmente observou e se manteve à margem de toda decisão tomada nos Estados Unidos e na Europa.
Para os suíços, de fato a crise ainda estava longe. Durante os três anos posteriores a 1929, a economia suíça funcionou com relativa normalidade enquanto os países vizinhos já enfrentavam retrocesso e escassez.
No entanto, quando a recessão atingiu a Suíça (1932), o país levou muito mais tempo para se recuperar do que outros países.
O panorama nos primeiros anos da “Grande Depressão” era o seguinte: os salários tiveram aumentam real de 20% na Suíça (1929-1933); nos Estados Unidos, o aumento foi de 11% e na França 9%. Porém, em 1938, os franceses ganhavam 53% a mais do que em 1929 e os suíços somente 9%.
O desemprego na Suíça foi multiplicado por 10 e foi criado o trabalho em jornada parcial, que não existia antes da crise.
A grande diferença entre a Suíça dos anos 30 e a atual é que naquela época os bancos serviram de apoio à recuperação do crescimento econômico. Desta vez, os gigantes UBS e Credit Suisse são os protagonistas da crise financeira.
E as bolsas…
As bolsas são os protagonistas mais vulneráveis do sistema financeiro, uma espécie de barômetro. Em Nova York, Wall Street levou 25 anos para recuperar o valor de mercado que tinha antes de 1929.
As três bolsas suíças (Zurique, Genebra e Basiléia) perderam 35% do valor durante a “Grande Depressão”, porém em todos os casos os mercados de ações reagiram com otimismo aos programas de urgência anunciados pelos governos daquela época.
Em 2008, nada devolve a tranqüilidade às bolsas. O índice Swx da bolsa suíça perdeu 48% de seu valor desde o início da crise hipotecária nos Estados Unidos, 13 meses atrás, quando se soube que o UBS e o Credit Suisse estavam envolvidos.
Isso se deve, segundo o Banco Cantonal (estadual) de Genebra (BCGE), ao fato de que o futuro do UBS – maior banco suíço – não está claro.
“Os grandes investidores que movem as bolsas consideram que ainda virão más notícias e o futuro do UBS ainda provoca temores na comunidade financeira”, explica uma análise publicada dia 20 de outubro.
De acordo com o BCGE, persistirá um otimismo prudente. Porém, o anúncio de que as taxas interbancárias – utilizadas por empréstimos entre bancos – estão caindo é um sinal positivo.
No entanto, o final de 2008 – como ocorreu em 1929 – ainda está longe de esclarecer qual será o desenlace da crise dos subprime e enquanto houver incógnitas, haverá volatilidade.
swissinfo, Andrea Ornelas
A expressão “segunda-feira negra” é utilizada freqüentemente na bolsa quando os mercados começam a semana com muita volatilidade.
As duas “segunda-feiras negras” mais significativas da história foram a de 28 de outubro de 1929, quando Wall Street perdeu 13%, e 19 de outubro de 1987, quando as ações caíram 22%.
2007
Março: O setor hipotecário estadunidense anuncia que os créditos com risco de insolvência somam 6,2 milhões de contratos.
Agosto: O American Home Mortage declara falência. A Comissão de Valores começa a investigar o Goldman Sachs, Merril Lynch e Bear Stearns.
Dezembro: O governo dos Estados Unidos anuncia um programa de ajuda a 1,2 milhão de pessoas que não podem pagar suas hipotecas. A Fed, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco Central Suíço (BNS) agem em conjunto para injetar liquidez no mercado.
2008
Janeiro: Apesar de o presidente George W. Bush anunciar um plano de incentivo à economia, as bolsas mundias despencam ante os primeiros sinais de recessão.
Março: JP Morgan anuncia a compra do Bear Stearns, que se encontra completamente descapitalizado.
Julho: O gigante hipotecário IndyMac Bank sofre intervenção do governo Bush.
Setembro: Acontece a mesma coisa com o Fannie Mae e Freddie Mac.
Simultaneamente, 10 bancos internacionais anunciam a criação de uma linha de créditos de 700 bilhões de dólares para evitar riscos de falência
Lehman Brothers declara bancarrota.
O Fed e o BCE injetam mais de 125 bilhões de dólares nos mercados.
O Washington Mutual quebra, o governo americano intervém para que o JP Morgan o absorva.
Os Estados Unidos anunciam um plano bancário de 700 bilhões de dólares, aprovado depois de muito debate pelo Congresso.
Outubro: Governos europeus anunciam seus próprios planos para para os bancos. A Suíça anuncia seu próprio plano de ajuda ao UBS com recursos públicos. O Credit Suisse anuncia uma recapitalização com um fundo soberano do Catar.
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