Suíça é cobrada por clima após saída dos EUA de acordos globais
Com a retirada dos Estados Unidos dos principais tratados climáticos, a especialista suíça Delia Berner alerta para riscos à justiça climática e cobra uma postura mais firme da Suíça, criticando o adiamento de ações financeiras como "irresponsável".
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, continua a remodelar rapidamente o panorama climático e energético do país ao implementar mudanças unilaterais radicais, que reverberam muito além das fronteiras estadunidenses. No dia 27 último, o governo Trump retirou-se oficialmente do Acordo de Paris pela segunda vez. No início de janeiro, havia anunciado que abandonaria também a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês) e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), como parte de sua saída de 66 organizações internacionais. Essas mudanças ocorrem enquanto Washington continua a desmantelar uma ampla gama de regulamentações climáticas dentro dos EUA.
O recente congelamento da ajuda por parte de Trump pode também gerar cortes significativos nas despesas internacionais com programas climáticos. Analistas alertaramLink externo em 2025 que quase um décimo do financiamento climático global pode estar em risco.
Delia Berner, especialista em política climática internacional e financiamento climático da ONG suíça Alliance Sud, conversa com a Swissinfo sobre as consequências das últimas retiradas dos EUA e alerta por que a Suíça deveria intensificar suas ações climáticas, sobretudo na área de financiamento climático.
Swissinfo: Qual impacto a retirada dos EUA poderá ter sobre a política climática suíça?
Delia Berner: É de interesse claro da Suíça que as ações climáticas globais sejam bem-sucedidas. A Suíça é altamente afetada pelas mudanças climáticas – basta olhar para os Alpes. Portanto, o país precisa agir cada vez mais em diversas frentes da política climática. Quando um agente importante [como os EUA] se retira e ameaça as ações globais, a Suíça deveria fazer tudo o que pode para impulsionar as ações climáticas – internamente, cumprindo sua parte; internacionalmente, por meio do financiamento climático nos países em desenvolvimento e da diplomacia climática. Na minha opinião, a Suíça poderia fazer mais nesse sentido. Em quaisquer contatos diplomáticos, os ministros deveriam colocar as mudanças climáticas no topo de suas agendas em reuniões bilaterais.
Swissinfo: No que diz respeito ao financiamento climático, você defende que um país rico como a Suíça deveria assumir um papel mais consistente, enquanto os EUA se desligam. A Suíça apoia a meta financeira global de 300 bilhões de dólares por ano para países mais pobres, mas, em dezembro, adiou qualquer ação até 2027. Por que você considera isso irresponsável?
D.B.: A Suíça concordou com a nova meta financeira e, em princípio, com a importância de financiar a transição. O texto da decisão adotado na COP29 em Baku (2024) afirma claramente que os países desenvolvidos devem assumir a liderança, para que a meta possa ser alcançada. Isso determina uma expectativa clara de que a Suíça aumente drasticamente o financiamento climático – triplicando o total para cerca de 3 bilhões de francos suíços por ano até 2035. No entanto, o Conselho Federal levou um ano para discutir o assunto e agora está adiando a decisão para 2027, sem sequer se comprometer com um aumento. Isso é importante por razões de equidade e para as negociações em andamento: a Suíça poderia sinalizar um aumento agora, mas não está fazendo isso.
Swissinfo: A situação orçamentária apertada da Suíça e a hesitação política em relação aos gastos com o clima são frequentemente citadas como razões para a inércia. O debate financeiro na Suíça é, a seu ver, um obstáculo genuíno?
D.B.: Ele influencia o debate, mas não é uma razão válida para evitar o aumento do financiamento climático. Em primeiro lugar, o freio à dívidaLink externo da Suíça é uma regra interna e o país tem uma dívida muito baixa. Em segundo lugar, a Suíça poderia introduzir novas taxas ou impostos com base no princípio do “poluidor pagador”, garantindo que os grandes poluidores contribuam. Isso geraria novas receitas sem afetar o orçamento existente.
Swissinfo: Você descreve a retirada dos EUA dos tratados climáticos da ONU como um “golpe duro” para a justiça climática e a proteção climática global. Por quê?
D.B.: Os EUA são historicamente o maior poluidor. O país é responsável pela maior parte das emissões históricas de CO₂. Para a justiça climática, é muito importante que os maiores responsáveis se tornem modelos a seguir, liderando a redução das suas próprias emissões e tornando-se neutros em termos climáticos. Os poluidores têm também responsabilidades e obrigações legais, nos termos dos tratados climáticos, de financiar a mitigação e a adaptação nos países mais pobres. As pessoas desses países contribuíram muito pouco para a crise e são responsáveis por muito poucas emissões, mas são sempre as primeiras atingidas pela crise climática e as mais afetadas por condições meteorológicas extremas. Esse é o cerne da injustiça. Quando o maior poluidor decide não fazer mais nada, isso representa um golpe duro para a justiça climática.
Swissinfo: A saída dos EUA pode incentivar determinados países a reduzir suas próprias ações climáticas?
D.B.: Isso poderia ser usado como desculpa por agentes que nunca quiseram fazer muita coisa. Há sempre países, empresas e pessoas, muitas vezes alinhados com os interesses dos combustíveis fósseis, que resistem à mudança. No entanto, para aqueles que estão comprometidos com a proteção do planeta e do ser humano, essa não pode ser uma razão para parar. As mudanças climáticas são um problema global e ainda há muito a ser feito, mesmo sem os EUA. Eles não são responsáveis por todas as emissões – grande parte delas vem de outros lugares. Ou seja, de qualquer forma, o trabalho precisa continuar.
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Swissinfo: Com os EUA recuando, outras potências, como a China e a União Europeia, poderiam exercer mais influência. Você vê novas alianças sendo feitas ou algum impulso positivo resultante da ausência dos EUA?
D.B.: Na COP30, que aconteceu em Belém, no Brasil, em 2025, ficou claro para muita gente que, sem os EUA, é ainda mais importante que outros países avancem e entrem em um acordo sobre ações climáticas mais ambiciosas. Houve uma forte pressão da presidência brasileira, ao lado da Colômbia e dos Países Baixos, para que fosse elaborado um plano de ação, tendo em vista a transição dos combustíveis fósseis. Isso não foi, contudo, acordado durante a COP. No momento, a Colômbia e os Países Baixos estão levando adiante essa iniciativa como uma “coalizão dos dispostos”, com o objetivo de continuar pressionando os países que apoiam a causa, para trazê-la de volta à próxima conferência climática – provavelmente este ano –, a fim de conseguir o apoio de mais países. Então, sim, alguma coisa está acontecendo. Teremos que ver se isso pode se tornar uma decisão de comum acordo entre todos os países na próxima COP.
Swissinfo: De olho na COP31 na Turquia: após a retirada dos EUA, espera-se uma atmosfera diferente? Sua posição é de otimismo ou pessimismo?
D.B.: É um pouco cedo para dizer – os acontecimentos em torno dos EUA estão avançando muito rapidamente. Do lado positivo, já mencionei as “coalizões dos dispostos”. Espero que sejam amplas e capazes de exercer uma pressão real na próxima conferência sobre o clima.
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ONGs contestam “cota justa” que Suíça paga pelo clima
Edição: Gabe Bullard/vm
Adaptação: Soraia Vilela
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